Arte

Amy Sherald enfrenta estereótipos raciais pintando personagens negras em momentos de lazer

Vitor Paiva - 22/04/2021 | Atualizada em - 27/04/2021

A pintora estadunidense Amy Sherald tem como “missão” em seu trabalho derrubar estereótipos raciais nos EUA. Buscando criar um repertório pictórico que possa ajudar a ampliar o imaginário coletivo do país sobre a população negra e sua cultura, em sua nova série a artista que pintou Michelle Obama em 2018 retratou personagens negras em seus momentos de lazer, a fim de justamente ampliar a percepção pública da negritude no país.

“A Midsummer Afternoon Dream”, quadro de Amy Sherald

“A Midsummer Afternoon Dream” (Sonho de uma tarde de verão, em tradução livre)

-Projeto reúne fotografias de negros pelo mundo para desfazer estereótipos sobre estilo

Intitulada The Great American Fact (O grande fato americano, em tradução livre), a série mostra tais personagens misturadas a símbolos culturais dos EUA, como a cerca branca que contorna as casas suburbanas, ou uma camiseta da Barbie, em seus momentos de relaxamento e diversão. Uma mulher em sua bicicleta, dois surfistas se preparando para entrar no mar, um homem e uma mulher diante de um típico carro do país: as cenas foram pintadas em dimensões monumentais, em alguns casos se aproximando dos 3 metros.

“An Ocean Away”, quadro de Amy Sherald

“An Ocean Away” (Um oceano de distância, em tradução livre)

-EUA: negros pagam com vida o preço da pandemia no país onde saúde depende da raça e do bolso

O título da série de Sherald foi inspirado no clássico texto feminista negro A Voice From the South by a Black Woman of the South (Uma Voz do Sul por uma Mulher Negra do Sul, em tradução livre), escrito pela educadora Anna Julia Cooper em 1892 – no qual ela afirma o povo negro como “o grande fato americano”. Foi a partir desse texto, segundo consta, que a pintora – ela também uma mulher do sul dos EUA, nascida no estado da Georgia – decidiu retratar suas personagens com profundidade pessoal, em estado de relaxamento e alegria, a fim de oferecer nuances “calmos, mas não passivos” para uma história profundamente marcada por dilemas sociais violentos.

“As American as apple pie”, quadro de Amy Sherald

“As American as Apple Pie” (Tão Americano quanto torta de maçã, em tradução livre)

-Lélia Gonzalez foi a nossa Angela Davis e deveria ser leitura obrigatória nas escolas e universidades

Ainda que suas pinturas sejam marcadas pela presença de cores fortes em cenários vívidos, a artista, para colorir a pele das pessoas retratadas a artista se vale de uma técnica chamada Grisalha, na qual utiliza somente uma tonalidade na composição: apenas o cinza, para evocar as antigas fotografias a partir das quais o povo negro passou a fazer parte da cultura visual do país. Através de tal técnica, ela passa a simbolicamente “incluir” um povo historicamente apartado do universo das pinturas nos EUA desde sempre.

Retrato de Michelle Obama

O figurino é parte fundamental da composição das pinturas de Sherald, e foi um vestido da grife Milly o escolhido para “vestir” Michelle Obama no retrato oficial que pintou em 2018. A decisão de convidar a artista para pintar a primeira-dama se deu após Sherald se tornar a primeira mulher negra a vencer a Outwin Boochever Portrait Competition, prestigiada competição de retratos da National Portrair Gallery, ligada ao Instituto Smithsonian, na capital Washington, D.C.

Amy Sherald apresentando retrato para Michelle Obama

A artista e seu retrato, apresentado a Michelle Obama em 2018 © Getty Images

-Pela 1ª vez, retrato de um presidente americano será feito por um artista negro

A exposição The Great American Fact está atualmente na galeria Hauser & Wirth, em Los Angeles.

“Hope is the thing with feathers (The little bird)”, de Amy Sherald

“Hope is the thing with feathers (The little bird)” (Esperança é aquilo com penas – o pequeno pássaro, em tradução livre)

“A bucket full of treasures (Papa gave me sunshine to put in my pockets…)”, de Amy Sherald

“A bucket full of treasures (Papa gave me sunshine to put in my pockets…)” (Um balde de tesouros – papai me deu a luz do sul para guardar no bolso…, em tradução livre)

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© artes: Amy Sherald


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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