Empreendedorismo

Aos 58, motorista de transporte escolar se reinventa, aprende costura e ganha prêmio na pandemia

Veronica Raner - 27/04/2021 | Atualizada em - 28/04/2021

O dia da costureira Angela Serra começava cedo antes da pandemia, mas o motivo não envolvia linha e agulha. Ela era responsável por uma condução de transporte escolar, profissão que abraçou 12 anos atrás para aproveitar mais tempo com os próprios filhos, que ainda iam à escola, e para alimentar o gosto que sempre teve pela direção. Até que veio a quarentena e a história mudou de curso.  

Senhora de 75 anos costura seu próprio terno feito de 300 sacolas plásticas

Angela Serra se reinventou na pandemia ao se tornar costureira, profissão de sua mãe.

Filha de dona Glória e seu Lourenço, Angela gostava de ficar sentada ao lado da mãe enquanto ela fazia o que mais gostava: costurar. Apesar dos anos de observação, a motorista nunca havia se aventurado na área para colocar o aprendizado indireto em prática. Quando as escolas fecharam, no começo do ano passado, Angela decidiu que era hora de se aventurar na profissão da mãe. 

Eu gostava de fazer transporte, mas no meu íntimo eu achava que realmente precisava ter uma profissão minha mesmo”, conta. O estalo para mergulhar na costura veio por intermédio de uma amiga, a quem chama de “filha do coração”, que a incentivou a se inscrever em uma quarentena de costura online gratuita. 

Depois das primeiras aulas, Angela se inscreveu em outro curso e assim nasceu a Gló Linhas (@glolinhas), marca que criou em homenagem à mãe, Glorinha, e que tem ganhado força na pandemia graças à ajuda dos amigos e ao Instagram, onde posta suas criações em vídeos cheios de alto astral protagonizados por ela mesma com a ajuda da filha, Ana. 

Ele largou a escola, montou uma loja de fantasias e acabou ganhando R$ 18 milhões na pandemia

Nas horas vagas do transporte, eu sempre fazia muitos cursos no Sebrae para não ficar parada. Curso de informática, de gestão de pessoal, de empreendedorismo… Eu ia estudando para que, no dia que eu pudesse montar algo para mim, eu já tinha que estar engajada. Eu ia estudando aos poucos e aproveitava que os cursos são de graça.”

Ligação forte com a mãe 

Ao falar da mãe, que morreu em 2019, Angela se emociona. Mesmo com o afastamento físico, ela se sente muito próxima à mãe quando exerce o ofício que sempre a viu pôr em prática. 

Eu sempre fui a filha mais agarrada com ela, então eu ficava assistindo ela costurar e gostava muito”, conta, emocionada. “Aquilo ali, no meu interior, eu fui desenvolvendo sem saber. Mas, quando eu tive meus filhos, eu costurava umas coisinhas, pegava a máquina da minha sogra emprestada…” 

Em julho do ano passado, quando começou a se dedicar de verdade aos estudos e lançou a Gló Linhas, Angela sente que estabeleceu uma espécie de conexão sobrenatural com dona Glória. No ateliê que criou em casa, usando o antigo quarto de sua filha, Angela costura rodeada por fotos de Glorinha e de sua família, sempre amparada por seu fiel companheiro de costura, como ela mesma diz, o cachorro Tico (“mas ele está sempre dormindo”).

Eu brinco aqui em casa que eu acho que a minha mãe entrou em mim quando eu comecei a costurar. Eu não sei. Veio uma coisa assim que eu acho fácil. Eu não sabia que era tão fácil costurar. Eu fui aprendendo as técnicas de costura e eu não tive medo. Porque geralmente a pessoa quando começa a costurar morre de medo de estragar o tecido. Eu nunca tive. Fui sem medo”, comemora. “Acho que estava dentro de mim essa costureira adormecida.

Nove meses depois de lançar a marca, Angela se orgulha por já estar “costurando tudo que você imaginar”. “Blazer, calça jeans, pantacourt, roupas infantis, vestidos, eu faço tudo. Tudo que você imaginar eu já costuro e sem medo nenhum. E com os acabamentos perfeitos, que nem diz a minha professora”, brinca. Todas as roupas usadas por Angela nas fotos desta matéria foram feitas por ela.  

Vencedora de concurso, Angela se sente realizando um sonho da mãe

Aos 58 anos, Angela se sente concretizando um sonho antigo da mãe. Apesar de ter costurado por um tempo, dona Glória acabou deixando um ponto sem nó em sua história e largou as linhas muito por pressão de seu Lourenço, que não gostava do fato da mulher trabalhar daquela forma.

Minha mãe sempre foi o tipo de pessoa muito submissa então ela até tentou, mas meu pai era ‘o machão’ e não queria ela costurando ou pessoas estranhas entrando lá em casa. Aí ela resolveu parar. Ela se anulou. E eu de certa forma estou realizando o sonho dela porque eu estou fazendo tudo”, comemora. 

Uma das máquinas que Angela tem foi conquistada como prêmio de um concurso promovido pelo curso de costura que ela fez. Já a mais recente aquisição foi conseguida com a ajuda do filho: uma bordadeira. Pela internet, ela tem feito mais cursos para melhorar os métodos e aprimorar a costura. 

Gló Linhas, a marca criada por Angela em homenagem à sua mãe.

Eu acho que no fundo a minha mãe sempre sonhou em ter o seu próprio ganho através da costura, ter o seu ateliê, fazer as coisas para fora e ela nunca pode porque a época antiga era complicada, não tinha tanto incentivo. Eu graças a Deus tenho incentivo aqui de todos os lado.

As palavras de motivação que recebe dos amigos e da família tem incentivado Angela cada vez mais. Hoje, ela já vê a costura como algo fácil de fazer, apesar de toda a complexidade dos cálculos para deixar uma peça de roupa sob medida. “A gente fica com medo porque o desconhecido dá medo. Você fala: ‘Nossa, eu não sei fazer isso!’, mas quando você começa, você vê como é fácil. Não tem que ter medo, tem que encarar e ir atrás do que você quer.”

Quase um ano após embarcar nessa aventura, Angela não se vê fazendo outra atividade. Se ela pretende voltar para o transporte escolar? 

Eu agora vou ficar só com Gló Linhas, não volto mais para o transporte não. Eu quero expandir cada vez mais! Com essa bordadeira nova, eu já quero fazer a parte de cama, mesa e banho. O que estiver ao meu alcance, eu vou fazer. Onde é que tiver uma linha, uma agulha e um tecido, eu estou indo!

Tico, o fiel escudeiro da Angela, passa o dia de olho (às vezes fechado) em tudo que acontece no ateliê.

 

Publicidade

Fotos: Acervo pessoal


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.