Diversidade

‘BBB’: avaliamos o discurso de Tiago Leifert, que finalmente encarou o racismo recorrente no reality

Karol Gomes - 08/04/2021 | Atualizada em - 09/04/2021

Em noite histórica, o “Big Brother Brasil” alcançou 33 pontos de audiência segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), que é equivalente a média de 6,7 milhões de indivíduos só em São Paulo. Esta é a estimativa do público que presenciou o apresentador Tiago Leifert se posicionar sobre racismo em rede nacional.

Famoso por falta de posicionamentos sobre questões sociais – e até por criticar quem faz “textão” na internet – Leifert se viu pressionado, juntamente com a direção do programa, a se manifestar após críticas que, ironicamente ou não, foram feitas nas redes sociais.

Para muitos espectadores, Tiago não teve a postura correta ao ver João chorando ao vivo por causa de racismo. O apresentador disse que aquilo era o BBB, como se o problema fosse comum e fizesse parte do jogo.

Tiago já chegou a criticar os que fazem ‘textão’ na internet

Reviravolta para Leifert

As opiniões sobre Tiago Leifert na internet mudaram bruscamente entre o programa de segunda-feira (5) e a edição exibida na terça-feira (6). O apresentador “Big Brother Brasil” resolveu debater racismo ao vivo em uma fala que, segundo ele, não foi decorado, mas do coração.

Leifert surpreendeu os milhões de com o posicionamento, mas ainda assim dividiu opiniões sobre como comunicou a mensagem para os participantes do programa. Pessoalmente, eu que já havia escrito, aqui no Hypeness, sobre a dor de João – que é muito semelhante a minha dor e de muitas pessoas negras com relação aos próprios cabelos -, assisti o discurso com desconfiança. Mas não pude negar: Leifert fez o necessário. Fez o que o povo pediu, fez o que é frequentemente ignorado quando se trata de televisão brasileira.

Mesmo correndo o risco de ser considerada reclamona ou até “mimizenta” (expressão usada por Rodolffo no “BBB”), resolvi reunir pontos baixos do discurso do apresentador. Não, a fala de Tiago Leifert não foi perfeita e, talvez, não exista perfeição para momentos como esses, mas não se pode negar que tais pontos baixos existiram e poderiam ser reparados.

A fantasia que gerou o comentário racista de Rodolffo sobre João

Devo antecipar que isso não significa que não existiram pontos altos, os quais eu também apontarei aqui como os caminhos que devem continuar a serem seguidos quando o assunto é racismo em rede nacional – a começar pela atitude de adereçar o problema ao invés de ignorá-lo, é claro.

Abaixo, destrinchoo discurso do apresentador com estudos de história, opiniões de outras pessoas negras online e o que pude adicionar de minhas vivências sem acionar gatilhos do que eu mesma passei com relação a racismo:

Papo de branco? 

A intervenção era necessária e foi feita por um homem branco, pois este homem branco é o apresentador do programa atualmente. Parece simples se não entrarmos no mérito da representação no quadro de apresentadores e jornalistas da TV Globo.

Que outras alternativas o programa teria? Bom, no ano passado, quando Tiago precisou intervir com informações externas para contar ao elenco sobre a pandemia que estava apenas começando no Brasil, ele convidou um infectologista para acompanhá-lo no comunicado. O especialista ficou disponível, ao vivo, para responder às perguntas do apresentador e dos participantes.

Dessa vez, quando a intervenção sobre racismo foi decidida, essa solução do “especialista” não foi utilizada. Sim, esse recurso poderia sim ter sido uma base importante para a conversa, mas ao mesmo tempo, ter a pauta falada de Tiago para Rodolffo credita a “culpa” a quem a carrega: o símbolo do homem branco socialmente.

Mais tarde, após a eliminação de Rodolffo, João e Camilla elogiaram a fala de Tiago, apontando a sensibilidade do apresentador ao tomar uma posição sobre os acontecimentos na casa.

“Ele falou tudo o que queríamos falar, mas que a gente não consegue”, observou Camilla. O ponto, na verdade, é que Camilla tentou muito educar Rodolffo sobre racismo, mas não foi ouvida. Logo, espero que estejamos caminhando para uma transformação social em que um apresentador não precise intervir, que uma pessoa negra aponte o problema e ele não se repita – ou ainda, que nem haja o problema.

Tiago Leifert conversa com Rodolffo após eliminação

Eu vi sua defesa, Bastião. Quando eu era mais novo, na escola, também brincavam com meu cabelo, porque ele não é liso. Mas isso nunca fez a menor diferença. Um cabelo black power, que é o cabelo do João, não é um penteado, é um símbolo de luta, de resistência. Foi o que os pretos americanos usaram como símbolo de luta, usado para mostrar que se aceitavam, se amavam. 

Precisa usar os EUA para falar de racismo?

Tiago falando da própria experiência me assustou. Pensei: será que ele vai cometer os mesmos erros de Rodolffo? O sertanejo insistiu que não foi racista com João porque o pai dele tinha o cabelo parecido, e que ele mesmo não tinha o “cabelo lisinho”.

Mas, o que veio a seguir reverteu a situação. Tiago se apossou do mesmo mecanismo que Rodolffo e outras pessoas usam para se defender dizendo que não são racistas, só que ele usou para afirmar que experiências individuais e proximidades mínimas com heranças africanas não justificam racismo. É o que ele mesmo pontuou: “isso nunca fez a menor diferença”. Tiago Leifert nunca perdeu emprego ou foi excluído socialmente por causa do cabelo dele. 

Porque até pouco tempo atrás, uma pessoa como o João, como a Cami – e estou falando do país mais livre do mundo – tinham que levantar do ônibus para um branco sentar, cara. Não podiam ir a um restaurante… Então, historicamente, o cabelo do João foi associado a uma coisa feia, uma coisa suja. E é por isso que quando a gente faz um comentário sobre o cabelo do João, não estamos falando de um penteado, mas de um símbolo. Estamos falando do que o João é. O Black é a coroa.

A associação com os Estados Unidos, contudo, é preocupante. Mostra uma visão utópica da parte do apresentador que muitos brasileiros ainda compartilham.

A falta de conhecimento do âncora sobre o assunto não espanta, já que segregação racial no Brasil nunca ganhou um nome e tampouco foi diretamente creditada nos livros de história. Como se 388 anos de escravidão no país já não tivesse provocado feridas profundas. Após a abolição, a população negra foi segregada por meio de leis que impediam acesso à educação e aos trabalho, consequentemente colocando estes seres humanos às margens da sociedade, vivendo ilegalmente enquanto tentavam sobreviver.

Enquanto a luta pelos civis dos negros obrigou os Estados Unidos a documentarem a exlusão de pessoas negras, que eram impedidas de sentar ao lado de brancos no ônibus – vide a história de Rosa Parks -, no Brasil tudo aconteceu por falta de políticas públicas de inclusão para pessoas que antes já eram privadas de uma vida digna.

De acordo com o levantamento do Nexo Jornal, a segregação ainda acontece no Brasil nos dias de hoje. Embora parte da população negra consiga acessar faculdades e posições de trabalho, ainda há uma margem muito grande vivendo em situações decorrentes do período de escravidão no Brasil.

Eu não vejo maldade no que você fez, mas ao mesmo tempo legitimo a dor do João. E a dor que ele sentiu, não discerne um comentário maldoso e um comentário sem querer. E é por isso que nós, brancos, precisamos informar. Eles não querem mais ensinar. Você é um artista, eu sou jornalista. É nossa obrigação ir atrás de informação.

Logo depois, outro momento da fala de Leifet preocupa e não deveria ser repetida. É o comportamento de acobertar ou diminuir o ato de racismo, protegendo quem o comete.

 

Com essa narrativa, a palavra “racismo” quase não foi usada para determinar o que Rodolffo praticou na casa. Ao invés de dar nome ao problema, ele é mascarado por trás da “não intenção” e acaba voltando apoiando a defesa descabida do sertanejo de que ele não sabe o que falar ou como respeitar as diferenças das pessoas.

A dor do João é legítima. E eu sei que nesse momento eu devo estar sendo trucidado na internet hoje. É por isso que eu me afastei de várias redes sociais: chega um momento que ou você bota fogo no Rodolffo ou você acha o João mimimi e vitimista. E eu não consigo ser uma coisa nem outra. Vamos ter como regra então: nunca comentar nada do corpo de ninguém: pronto.

Camilla apoiou João após o ato racista de Rodolffo

Não fosse a preocupação com o próprio “cancelamento”, como se essa fosse a pior coisa que lhe possa acontecer enquanto fala de uma ofensa que é considerada crime e atinge milhares de brasileiros, Tiago encerraria o discurso com a mensagem mais válida em evidência, que é a ideia de simplesmente não intervir na aparência de ninguém – muito inteligente, mas, talvez, pontuado com atraso ou sem medo do julgamento online.

Tiego Leifert concluiu o debate pedindo que Rodolffo usasse o espaço ao vivo para falar algo. Não para pedir desculpa, mas para “dizer mais alguma coisa”. O que acabou mais uma desculpa esfarrapada e mal pensada por parte do sertanejo, que mostrou não ter aprendido nada, nem quando o ensinamento partia de um homem branco como ele.

 

O caso de racismo

Os apontamentos que levaram Tiago Leifert a se posicionar aconteceram na segunda-feira (5), durante o “Jogo da Discórdia”, que faz parte da dinâmica do reality. Um dos participantes, o professor de geografia João Luiz, criou coragem e expôs o racismo de um dos colegas de confinamento, o cantor sertanejo Rodolffo. 

Quando foi indicado para o “Castigo do Monstro”, Rodolffo recebeu uma fantasia de “homem das cavernas” para interpretar o personagem como “prenda” no confinamento. O sertanejo apontou imediatamente que o cabelo de João se parecia com a peruca enviada pela produção do programa

João recebeu apoio nas redes sociais

Ao relembrar do momento durante o Jogo da Discórdia, João chorou, dizendo que o comentário o fez lembrar do racismo que sofre desde a infância. O brother foi acolhido por outros participantes, entre eles, Camilla de Lucas, que não aceitou a justificativa de Rodolffo de que ele não teria acesso à informação e que, por isso, não sabia que estava fazendo ofensas. 

“Ele (Rodolffo) tem sim um poder aquisitivo que permite que ele chegue em determinados lugares do Brasil inteiro, então ele vê pessoas diferentes, ele tem o acesso à informação. É uma pessoa que tem acesso, que viaja, que vê tudo”, disse Camilla. Ela defendeu ainda que as pessoas negras não são obrigadas a ensinar tudo sobre antirracismo em um mundo com tanta facilidade de acesso à informação. 

O sertanejo já havia usado essa desculpa em outro momento, mas por causa da homofobia. Rodolffo fez piada com o fato de que outro participante, Fiuk, gosta de usar vestidos, saias e outras peças consideradas do vestuário feminino. O sertanejo alegou que não poderia levar o colega de confinamento para as baladas de Goiânia, onde mora, pois o público da cidade não aceitaria. 

Em outros momentos, Rodolffo mostrou incômodo com Gilberto, participante assumidamente gay e chegou a dizer, ao ver o envolvimento de Gil e Lucas que não queria que os dois “ficassem de tititi” no quarto em que ele dormia na casa. 

Não custa lembrar, racismo é crime. Racismo não é entrenimento.

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Fotos: Reprodução/TV Globo


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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