Diversidade

‘BBB’: desabafo de João sobre cabelo é ferida aberta do racismo. E há quem não entenda

Karol Gomes - 06/04/2021

O racismo tem sido um tema recorrente nessa edição do ‘Big Brother Brasil’. Depois de receber uma indireta bem direta da cantora Ludmilla, que se apresentou na casa no último sábado (3), o participante Rodolffo ainda não havia pedido desculpas pela forma preconceituosa com que falou do cabelo de João Luiz

Como parte do castigo do monstro, que faz parte da dinâmica do programa, o cantor sertanejo recebeu uma peruca que deveria remeter ao cabelo de um ‘homem das cavernas’, que ele imediatamente e de forma racista, comparou com o cabelo do colega de confinamento.  Durante o ‘Jogo da Discórdia’ do ‘BBB21’, na noite desta segunda-feira (5), João Luiz voltou a tocar no assunto, dizendo que Rodolffo faz um ‘jogo sujo’ na edição. 

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Confira a explicação importante de João sobre o racismo de Rodolffo: 

Ao explicar para Tiago Leifert sobre a escolha, o professor de geografia relembrou um comentário feito pelo sertanejo e chorou ao falar sobre como se sentiu ofendido. João foi acolhido por outros participantes, enquanto Rodolffo se defendeu dizendo que não falou para ofender. 

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Racismo, desculpa e ‘não sabia’

Parceira de João no jogo, Camilla de Lucas também opinou sobre a ofensa de Rodolffo contra o brother e citou sua experiência com a transição capilar, dizendo que seu cabelo natural é igual ao do amigo. A influencer digital também não deu espaço para a desculpa recorrente do sertanejo, algo comum em quem comete algum ato racista, de que não sabe sobre diversidade e que precisa ser ensinado. 

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Do lado de fora da competição, João também recebeu apoio, principalmente pelas redes sociais. Diversos espectadores do ‘BBB’, entre eles, Thelma de Assis, vencedora da última edição do reality, que também é negra e tem cabelo crespo. 

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Essa não é a primeira vez que Rodolffo ofende brothers no reality. Seu comentário preconceituoso sobre o fato de que Fiuk gosta de usar saias, vestidos e outras peças consideradas do vestuário feminino, foi motivo para o então líder, Gilberto, mandá-lo  ao paredão.

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Rodolffo durante o jogo da discórdia

Uma dor solitária, uma coragem coletiva

João Luiz, Camilla, eu ou você: é como se todas as pessoas negras tivessem que passar por uma transição capilar tendo ou não alisado o cabelo. É um processo de aceitação, uma etapa que se precisa vencer para ter o direito de existir no mundo do jeito que você é. Enquanto o mundo insiste em não aceitar.

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Ao escrever isso, percebo que pode parecer tudo muito metafórico, mas a situação no ‘BBB’ demonstra o quanto essa experiência é real ao mesmo tempo que não é palpável.

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Fiz minha transição capilar em meados de 2013, quando esse assunto era pouco comentado na internet e as prateleiras das farmácias ainda não estavam cheias de produtos para cabelos crespos ou cacheados. Não digo isso para me gabar de ter feito primeiro – pelo contrário.

Eu não me arrependo nenhum pouco de ter decidido assumir meu cabelo natural, mas às vezes desejo ter feito isso em outro momento. Para que o processo não fosse tão solitário. Me sentia sozinha, tendo que reafirmar o tempo todo de que o que eu estava fazendo era uma boa ideia e que o que brotava da minha raiz fazia parte de mim mesma – como se isso não fosse óbvio. Ao mesmo tempo, estava sempre cercada de pessoas, opiniões, olhares e julgamentos, mas nenhum acolhimento.

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João protestou ao vivo contra os comentários racistas

E é essa a diferença do que acontece com João Luiz atualmente. A voz dele, trêmula ao falar sobre tantas feridas ao vivo, sobre algo que por muitos anos foi obrigado a esconder ou ensinado a odiar, indicou coragem e compromisso. Uma vontade de acolher para que outras pessoas não passem pelo mesmo que ele.

Mas agora, por mais que seja difícil imaginar, por mais que ainda ainda existam opiniões e julgamentos, há também olhares voltados para ele que são de orgulho, inspiração e coragem.

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Fotos: Reprodução/TV Globo/Globoplay


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.