Arte

Brisa Flow: ‘A academia é racista e não consegue admitir a ciência que não seja branca’

Clara Caldeira - 26/04/2021 | Atualizada em - 28/04/2021

Quantos artistas indígenas você conhece? Quantos você segue nas redes sociais? Quantos você escuta com frequência na sua plataforma de streaming? A quantas exposições de arte de artistas originários você já foi? Olhe para a sua casa. Há arte indígena dentro dela? Não? Tem certeza? Examine seus hábitos. Quanto das culturas indígenas faz parte da sua rotina? Já parou para pensar? E a língua? Essa que falamos e escrevemos. Tem certeza que isso aqui é mesmo português? Uma língua europeia?

Se você é carioca, curte catupiry, ou se já pegou catapora, jogou peteca, tem pavor de perereca, já ficou na pindaíba, surfou a pororoca ou vive de nhe-nhe-nhem, saiba: tem muito da cultura indígena em você. Quem dá a letra é a MC Brisa de la Cordillera, mais conhecida como Brisa Flow. “A cultura indígena influencia todos nós. Porque ela é presente na nossa cultura e muitas vezes a gente não sabe”. Mas ela lembra que a cultura indígena não se pode escrever no singular, não é uma só, e chama a atenção para a importância da interculturalidade, praticada pelos povos originários nas Américas muito antes da invasão europeia.

A América Latina tem cerca de 45 milhões de indígenas e 826 comunidades que representam 8,3% da população, números escancaram as proporções do genocídio levado a cabo ao longo dos últimos 500 e tantos anos. No Brasil, resiste a maior diversidade cultural do continente, com mais de 300 povos indígenas que falam 274 línguas e têm cosmovisões e modos de vida próprios. 

Foto: Laryssa Machado

Além de MC, Brisa de la Cordillera é cantora, música, compositora, poeta, performer, ativista e uma figura marcante do futurismo indígena no Brasil. Nascida em Minas Gerais, é filha de um casal Mapuche de artistas chilenos, que migrou vindo do sul do Chile, após um período em Santiago, durante a ditadura. Mas ela ressalta que sua ancestralidade materna tem intersecções com outras etnias também.

A cultura indígena influencia todos nós. Porque ela é presente na nossa cultura e muitas vezes a gente não sabe.

Brisa começou a se entender como artista em Belo Horizonte, mas há sete anos vive em São Paulo, cidade-palco-rua-selva onde vem misturando ritmos, beats e sonoridades eletrônicas, clássicas, originárias e do hip hop. Suas músicas falam da potência e sabedoria das culturas originárias e da resistência da mulher indígena no contexto capitalista urbano, mas falam também de amor próprio, de liberdade, de decolonialismo, de afeto, de arte e de cura pela valorização da ancestralidade. Falam do corpo como memória ancestral, de luta e da desigualdade social na América Latina, que ela prefere chamar de Abya Ayala.

Seu primeiro álbum, “Newen”, lançado em 2016, significa “força”, na língua mapuche e começa com um sample do canto de uma mulher mapuche que perdeu o filho em um confronto de território. É de arrepiar! “Newen” ficou entre os 20 melhores lançamentos do ano, segundo o “Estadão”. Brisa também foi eleita a “aposta” da música pela “Folha de São Paulo” em 2017 e seu segundo trabalho, o disco “Selvagem como o vento”, lançado em dezembro de 2018, circulou por diversas listas de melhores do ano. Mas Brisa não pára, e seguiu lançando singles e fazendo parcerias, trabalho criativo que concilia com seus estudos na universidade de música, com a atuação como arte-educadora e com o trabalho de mãe.

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Conversei longamente com ela sobre processo criativo, decolonialismo, academia, arte, inspiração, ancestralidade e resistência. Aprendi a desaprender muitas coisas com Brisa e por isso essa entrevista foi feita em dois tempos, após uma pausa para a autocrítica. Afinal, é pra isso mesmo que abrimos escutas. Sem mais delongas, com a voz, Brisa Flow!

Clara Caldeira: Muita gente de ascendência ameríndia não tem acesso a registros e à história da família, mas o seu caso parece ser um pouco diferente. Conta um pouco pra gente da sua ancestralidade e da trajetória de sua família.

Brisa Flow: É muito difícil a gente ter acesso à nossa ancestralidade indígena num contexto de colonialidades, porque a colonização, o colonialismo, ele chegou ao fim, porém dentro da era moderna, que é o que a gente tem vivido, esse pós- colonialismo é um tempo de colonialidades ainda. O Brasil responde ainda ao mesmo sistema. E diante desse etnocídio em que a gente não tem acesso à história, em que existe um processo de embranquecimento… Tudo isso dificulta e faz parte do projeto do genocídio de identidades pra que não exista retomada e pra que esse lugar, Pindorama, Abya Yala, esse contexto de continente de terra que a gente vive, ele continue respondendo a um sistema colonial e não se repense, para que não se tenha a possibilidade de um futuro indígena. Então, isso faz parte de um projeto. Por isso que muitas pessoas não conseguem ter acesso aos registros da família, porque esse processo de embranquecimento faz desaparecer os registros, muda os nomes… Com as invasões de terra, com o projeto de grilagem, com a venda de terras, com tudo isso, com a formação das cidades, com o sonho do capitalismo, a falsa meritocracia, com a televisão que vende um sistema de colonialidades patriarcal capitalista, tudo isso faz você fugir da sua ancestralidade o máximo possível para poder sobreviver e se inserir dentro do sistema que é esse que a gente vive, como eu disse, de opressão, de genocídio de identidades originárias do continente. Então, são inúmeros os motivos que dificultam a gente ter acesso à nossa história.

 O sistema da branquitude escolhe o que chama de arte, o que chama de artefato, o que chama de artesanato.

Pra mim não foi muito diferente disso. O pouco que eu sei, o pouco que meu pai sabe foi o que foi contado a ele e foi vivido também em território, no sul do Chile. Minha mãe também, descende também de outras etnias. Não é apenas a etnia Mapuche que a gente tem no território onde é o Chile e a Argentina hoje. Temos outras etnias originárias assim como no Brasil, aqui em Pindorama, também temos outras, E essa variedade de etnias, até das próprias pessoas indígenas, que às vezes tem descendência também de outros povos, tudo isso sofre um apagamento a partir do momento que esse projeto de embranquecimento entra em curso. Então, o pouco que a gente tem — assim como a minha amiga artista Sallisa Rosa diz: “memória é o corpo ancestral” — é o nosso corpo. O corpo, a memória e o território também, que foi até uma frase que as mulheres indígenas levantaram na marcha de 2019. Então, eu acredito que essa trajetória que a minha família traçou também foi uma trajetória de sobrevivência de corpo como memória ancestral. Porque meu pai trabalhou com artesanato, e artesanato, de fato, é arte né. A arte que a gente não separa da vida. Nós povos originários, nós que viemos dessa memória ancestral, a gente tem a arte muito junta do nosso corpo. E o artesanato, muitas vezes, não foi olhado como arte. Então eu tive essa vivência com meus pais, de ver eles fazendo artesanato e ver que o sistema da branquitude escolhe o que chama de arte, o que chama de artefato, o que chama de artesanato. Nós, artistas contemporâneos, e eu me vejo nesse lugar, estamos contestando o que de fato é arte e como esse olhar de colonialidades ainda existe na arte e na música. Eu acho que isso vem dessa minha família de artistas, vem dessa luta que eles tiveram também. Meus pais cresceram no sul do Chile e foram pra Santiago na época da ditadura pra estudar, pra trabalhar também. Meu pai trabalhou na cidade, não teve estudos, só teve acesso a trabalhos precários e isso tudo depois resultou na vinda deles pro Brasil num processo de migração. 

Clara Caldeira: Como a cultura indígena influenciou a sua formação? Quais dessas influências você busca disseminar pelo mundo através das suas músicas? 

Brisa Flow: A cultura indígena influencia todos nós. Porque ela é presente na nossa cultura e muitas vezes a gente não sabe. Então, é importante a gente já começar a pensar nisso, em como a gente tem influência disso na nossa vivência e quanto isso muitas vezes é apagado, de a gente nem saber. Mas pensando na questão da cultura originária, eu acredito que ela influenciou a minha vida, como eu disse, no processo artístico de ter essa memória ancestral do corpo, mas também tem a influência dos artistas. Meus pais foram bons curadores em alguns sentidos, algumas coisas que eles trouxeram pra mim quando eu era criança me marcaram, de artistas que eu conheci. E a partir disso eu fui criando uma identidade artística também junto à minha vivência, junto à cultura hip hop. Então eu enxergo mesmo o próprio hip hop como um encontro de ancestralidade urbana, como um aquilombamento que a cultura preta traz muito como um lugar de respeito, um lugar onde a gente aprende o que não é contado na escola, que muitas vezes segue o padrão da branquitude.

Eu enxergo o hip hop como um encontro de ancestralidade urbana, como um aquilombamento.

Dentro do hip hop eu fui educada, eu fui abraçada, e eu acredito que a cultura indígena também tá presente no canto, que salvou a minha vida. A própria forma de cantar, que muita gente estudou na academia de música e viu o quanto é eurocêntrico, a forma de organização do canto, a forma como os professores analisam o canto e as harmonias. E se a gente parar pra pensar nos nossos mestres, músicos brasileiros, como Villa Lobos por exemplo, ele teve influência da cultura originária dentro da sua música, muito presente nos motivos rítmicos, nas harmonias e a gente deveria parar para estudar isso, que também faz parte da minha pesquisa acadêmica: o quanto a própria organização e a própria forma de cantar e sentir dos povos originários já vem harmonizada e isso é muito inexplicável pra branquitude. Então, eu acho que ela (cultura indígena) me influenciou a partir do canto como memória ancestral. 

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Clara Caldeira:  Sobre decolonização, uma palavra cada vez mais popularizada, qual a importância desse processo de revisão histórica crítica, para o conhecimento, para a arte e para a sociedade? 

Brisa Flow: Eu comecei a estudar as decolonialidades e os processos de decolonização depois que eu entrei na academia, comecei a ir em alguns congressos de música, e vi o quanto é eurocêntrico o ensino, eu fiz licenciatura. O quanto é muito eurocêntrico e como o problema também está aí, porque a partir do momento que a gente tem educadores, professores da academia que são eurocentrados, que são majoritariamente brancos, a gente também tem professores sendo formados na licenciatura no sistema da branquitude. Então eu comecei a problematizar a forma como a academia é eurocentrada, todos os conhecimentos de música, e como se apropriavam de culturas originárias, de harmonizações originárias, e isso é o nosso histórico da música brasileira né? É só a gente olhar Villa Lobos, por exemplo, que faz parte da minha pesquisa acadêmica. Pesquiso isso, de como o olhar eurocentrado dificulta pra gente associar o ensino e o aprendizado a práticas decoloniais. Se tudo está muito eurocentrado, se tudo ao que a gente tem acesso dentro da licenciatura é muito eurocentrado, e se a academia continua pedindo referência bibliográfica, então a gente entra numa equação em que não tem lógica pedir referência bibliográfica pra pessoas que não estavam nem inseridas no sistema educacional. É um roubo colonial gigante que a gente tem relacionado a todo esse sistema. Que é o sistema de trabalho, que é o sistema de terra, de demarcação de terra, que é o sistema educacional. Eles estão juntos né, sustentando esse sistema de colonialidades. Então, entrando na academia eu me deparei com isso, e comecei a ir em alguns congressos. Fui num congresso de arte decolonial para arte educadores e comecei a estudar as decolonialidades, o termo, e vi que o próprio termo decolonial, ele é um termo importante, necessário a ser discutido, acho que é um pontapé inicial, mas ele, mesmo assim, não contempla tudo que a gente tá querendo propor no processo de desaprender a aprender, no processo de interculturalidades que a gente precisa urgente pro nosso sistema político, pro nosso sistema educacional, pro nosso sistema artístico. Ele é um processo de decolonialidades, que começou com estudantes acadêmicos numa movimentação em que nós, povos e pessoas racializadas, ainda não éramos protagonistas nas academias. Denilson Baniwa fala muito disso. A gente conversou uma vez sobre a Semana de Arte Moderna, por exemplo.

O próprio modernismo ainda foi sustentado por um sistema da branquitude. A verdadeira interculturalidade, decolonialidade e retomada só vai acontecer quando a gente tiver pessoas racializadas como protagonistas dessa luta, desse movimento artístico, desse movimento político.

Muitas pessoas consideram que a gente saiu do período colonial e entrou no modernismo, mas a gente tem que pensar que o próprio modernismo ainda foi sustentado pelo movimento artístico, acadêmico, pensador, ainda por um sistema da branquitude. Então, a verdadeira interculturalidade, decolonialidade e retomada ela só vai acontecer quando a gente tiver pessoas racializadas como protagonistas dessa luta, desse movimento artístico, desse movimento político. Então para que ele aconteça, a gente tem que entender que isso é a base: a gente estar nos espaços. Então, eu acredito que nós artistas também trazemos a arte como um reflexo do tempo, e o tempo de hoje é um tempo político, assim como os artistas que eu citei anteriormente, assim como Victor Jara, que era um professor, acadêmico, filho de Mapuches, no Chile, e foi morto na ditadura, assassinado, torturado, justamente por levantar questões políticas em sua arte, em sua música, assim como muitos outros que a gente infelizmente não conhece ou que infelizmente o estado assassina e a gente nem consegue ter conhecimento, já que a morte de uma pessoa racializada no nosso continente não causa comoção, nem na imprensa nem na sociedade, e a gente sabe disso, dessa prática, desse projeto genocida. Então eu acredito que, como artistas, dentro do movimento que a gente está, não tem como separar a arte desse momento, então por isso eu acredito que é muito importante a gente traçar, trançar juntos essa rede, o reflexo do tempo que estamos vivendo.

Clara Caldeira: Você vê em outros países da América Latina um senso de identidade andina e/ou Latino Americana mais fortes? O que você acha que o Brasil tem a aprender e a evoluir nesse sentido? Como a arte pode ajudar?

Brisa Flow: Quando eu penso Brasil, eu não gosto de pensar a palavra Brasil pensando no lugar do território. A gente pensa Pindorama, justamente em respeito aos povos que estavam aqui anteriormente, assim como a gente problematiza o nome América Latina por ser ligado totalmente ao momento de colonização, de domínio e a gente prefere chamar de Abya Ayala. Todas essas questões diferem quando a gente tá falando de território e quando a gente tá falando de um povo que continua em luta. A gente tá falando de povos originários que aprendem uns com os outros, muito, e que se mantém na resistência. Então eu acho que tanto o Brasil (Pindorama) tem esses povos, tem esse povo de luta — muito forte referências incríveis — quanto os povos dos Andes e também outros grupos étnicos que ainda resistem aqui no nosso continente. Porém, a gente tem, junto, nesse mesmo território, um sistema colonialista e pessoas que elegem e que optam por continuar esse sistema, principalmente quando a gente vê o tipo de presidente que foi eleito, o tipo de desgoverno que ele faz e o quanto ele sustenta essas heranças das colonialidades em todas as relações, inclusive, tanto na forma como ele responde como pessoa quanto quando ele toma ações em relação ao Estado. Então é problemático quando a gente pensa no Brasil… Qual Brasil?

Nós artistas também trazemos a arte como um reflexo do tempo, e o tempo de hoje é um tempo político.

A gente tá falando de um sistema que ainda aceita as colonialidades ou a gente tá falando de Pindorama, de povos que já estão aqui protegendo a terra e em luta? Então eu acredito que esse sistema brasileiro, que é um sistema colonialista e patriarcal, que é muito ligado a essa herança que sustenta a teoria do descobrimento, que sustenta as políticas racistas, ele sim precisa aprender com outros países que estão se movimentando para cuidar do território, para entender as interculturalidades de povos e para se organizar melhor politicamente pra respeitar as diversidades do território que habitamos. E existem outros países que estão conseguindo fazer isso, mas isso está totalmente ligado à política de base, ligado a movimentos indígenas que realmente conseguem ter acesso à política. Então, primeiramente, a gente precisaria disso para aprender com outros países, já que a gente tá falando de países, de estados. O que a gente poderia fazer para aprender com outros países é valorizar a cultura originária. Eu acredito que esse movimento de decolonização está acontecendo em diversos países então a gente precisaria ter esse entendimento básico, que eu acredito que com esse desgoverno que a gente tem, a gente tem um grande empecilho, principalmente quando a gente tem um presidente que fala que não vai demarcar mais nem um centímetro de terra indígena. Então, tá tudo muito entrelaçado com a política e também tá tudo muito entrelaçado ainda com a invasão de 1500. Eu acredito que a arte tá totalmente ligada a isso, principalmente como arte educadora e por ter me educado mesmo e aprendido a desaprender com a música, com a arte, então acredito que tem um papel muito forte e que agora a gente tá vivendo um momento muito lindo de traçar redes, de juntar, ter essa união dos povos. Ontem (20/01) a Djuena Tikuna falou numa live organizada pelo Jean Ramos do povo Pankararu, voltada para arrecadar verba e foi muito legal, juntou vários indígenas no dia da consciência indígena. E gente tava falando sobre isso, o quanto é bonito ver essa união dos povos e o quanto a arte tá facilitando a gente fazer essas redes. Então acredito, como falei nas respostas anteriores, que a arte movimenta mundos, nos aproxima e nos faz entender um pouco mais como respeitar a interculturalidade do outro, a cultura do outro.

Clara Caldeira:  Quais os maiores desafios e inspirações em existir como mulher, indígena, artista e mãe numa sociedade pouco disposta a contemplar essas três condições. Como isso te derruba e como isso te joga pra cima? 

Brisa Flow: Tenho evitado falar das dores porque tenho sentido um fetiche muito forte nos últimos dois anos onde esses temas têm começado a vir à tona dentro da mídia com mais atenção, eu comecei a sentir um certo fetiche das pessoas em ouvir as nossas dores. E sim, a luta por território é constante na vida de pessoas originárias, com descendência de povos indígenas, na vida de pessoas que tão dentro de territórios aldeados em luta constante pra defender território, os guardiões da floresta, as mulheres mães nessas condições também. E eu comecei a perceber, principalmente da elite, da esquerda, um fetiche em ouvir as nossas dores e muito pouco esforço para, de fato, inserir a gente nos espaços e deixar que a gente seja protagonista da nossa vida. E eu comecei a perceber isso dentro da academia e dentro dos espaços artísticos. Em 2016, quando eu lancei o disco Newen, pouquíssimos jornalistas resolveram falar sobre esse nome, sobre a origem da identidade de mulher ‘marrone araucana’ que eu tinha nesse disco, sobre ele começar já com o canto de uma mulher Mapuche porque na época não era pauta. Inclusive, ainda é muito invisibilizado, como sempre foi, não acredito que seja diferente. Acredito que existe um palco para dores constantes e nós, como artistas, temos conversado muito sobre isso.

Eu não quero ser palco para a dor.

Nós, como mulheres mães, nós como… Diversas áreas que nós ocupamos né. Eu tenho amigos originários que tão em várias áreas de trabalho, desde maquiadora, dançarina, professora, advogada, engenheira, médica, enfermeira, cantora, pintora, designer gráfica. Nós existimos em diversos aspectos, inclusive nos contextos de quebrada, inclusive nos contextos de favela porque nossos avós, nossos pais foram tirados de território e onde que eles foram morar? Na periferia. Então a gente precisa falar sobre isso. A gente quer falar sobre o nosso trabalho. E eu acho que essa dor de ter que lidar com esse fetiche ou ter que lidar com pessoas usando nosso trabalho dessa forma, todas essas coisas tem se tornado uma dificuldade pro nosso emocional. Não é brincadeira o que eu escuto dos meus amigos, parentes indígenas, não é brincadeira. Coisas violentas. Eu acredito que a esquerda precisa parar um pouco, respirar fundo e começar a deixar de ser preguiçosa e realmente se interessar por incluir pessoas indígenas nos espaços. Realmente escutar e ver o trabalho, a proposta dessas pessoas e não só chamá-las para falar de dores. Então, as minhas alegrias são justamente entender que eu, como artista, tenho esse canto para mim como algo sagrado desde criança e eu me sinto muito bem, eu me sinto muito feliz podendo acessar e me sentir próxima da minha origem através da arte, essas são as minhas alegrias e as minhas dores eu resolvi guardar porque eu sinto que eu não quero ser palco pra dor, eu quero chegar em lugares, ir longe com o meu trabalho porque eu acredito que isso é representatividade pra outras crianças outras meninas verem coisas que eu não vi. Eu odiei o meu rosto, eu odiei o meu corpo, eu odiei a minha identidade durante muitos anos por não ter representatividade então eu tô nesse foco e é lá que eu vou chegar.

Clara Caldeira: Você mantém diálogo com povos indígenas brasileiros? Tem trocas nesse sentido? Como isso acontece?

Brisa Flow: mesmo distante do território, mesmo distante da minha família, eu estou próximas a muitos parentes, e esses parentes indígenas de outras etnias são o meu fortalecimento também, assim como a minha rede de apoio materno de amigas racializadas mães, assim também como outros artistas dentro do hip hop, que foi a minha casa e que continua sendo um lugar onde eu aprendo muito. Eu acredito que essa rede que eu teci é a verdadeira prática da interculturalidade com que eu continuo aprendendo na minha vida. Eu acredito que a gente precisa viver ela, ter essa vivência da interculturalidade, então eu procuro estar sempre próxima da luta indígena desse território que é onde eu moro, onde eu nasci, meus pais. Minha mãe veio comigo com 9 meses na barriga, e eu cresci no Brasil, em Pindorama, eu sigo aprendendo. Agora que eu moro há 7 anos em São Paulo, sigo aprendendo também com os povos guaranis por exemplo, com artistas, Wapichana, Guajajara, Bororo. São várias amigas, de várias etnias, cada uma ensina um pouco e essa interculturalidade vai sendo tecida. Assim como eu também aprendo muito com amigas trans, a luta e a dor de ser uma mulher trans num país tão transfóbico.

A arte a gente não separa da vida. Nós, povos originários, nós que viemos dessa memória ancestral, a gente tem a arte muito junta do nosso corpo.

Elas também não querem ser palco de dor, também são mulheres que têm muitas alegrias, muitos trabalhos incríveis, que também estão cansadas de ser fetichizadas nas suas dores. Tudo isso tem me ensinado muito e eu acredito que isso, na prática, é um caminho para os possíveis mundos que a gente precisa recriar, dos possíveis mundos onde a gente vai começar a discutir como construir um bem viver. Porque a gente fala de bem viver da terra, mas na atual situação de sistema que a gente tá, a gente precisa começar a discutir isso entre nós. O que vai ser o futuro? O que vai ser o futuro da terra? Nesse momento que a gente tá vivendo, se a gente não começar a respeitar os outros povos, a entender que a gente precisa dos rios, a necessidades de defender esse território que a gente habita, que é a América, que é rica. Abya Ayala é rica, é terra fértil, que é o que significa ‘Abya Ayala’ no nome da língua do povo Kuna, esse povo originário que habita essa região do Panamá e que dá esse nome muito bonito, Abya Ayala, terra fértil. Nós somos terra fértil, nós precisamos nos organizar para proteger essa terra fértil em que vivemos, isso é o sonho dos nossos ancestros também. Então, acredito que estar juntos nessa união de povos é a forma como a gente vai começar a discutir e pensar esse futuro ancestral. Apesar também de que Ailton Krenak nos ensina, nesses livros, nas falas dele, tanto em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, quanto no Amanhã Não Está à Venda, ele traz essa problemática de que o ser humano já está em queda, que é a destruição da casa em que habitamos, Então o quanto podemos, ele fala de colocar um paraquedas, o quanto essa queda precisa ser menos brusca pra ser menos violenta pra nós que estamos aqui, pros nossos netos, pras gerações que venham, pra defender a terra mesmo, porque afinal nós não somos os únicos habitantes dela. Quando destruímos ela, destruímos o habitat também de pássaros, de animais que já estão em extinção, que são muitos, então é muito egoísta pensar também que a gente precisa salvar a terra só pra nós humanos continuarmos tendo vida, porque na verdade somos só mais uma espécie criada dentro desse lindo espaço de vida que é esse planeta.

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Clara Caldeira: Em ‘Selvagem como o Vento’, seu segundo disco, lançado em 2018, e também em diversos singles, é possível perceber uma experimentação e uma mistura muito grande de ritmos, beats e sonoridades eletrônicas, clássicas, originárias e do hip hop. Você acha que tem conseguido levar essa interculturalidade que você pratica na sua criação autoral pra dentro da universidade? Como seu trabalho artístico é percebido pela academia?

Brisa Flow: Infelizmente a academia não está disposta a ser intercultural, porém existem alguns alunos, colegas e professores interessados. Aprendi muito em congressos e seminários sobre arte decolonial, em congressos ou faculdades dispostas a discutir esse assunto, mas ainda estamos engatinhando pois é necessário mudar o currículo. O disco selvagem como o vento é uma experiência intercultural. Eu já tive problemas com professores que disseram em uma aula que música não se aprende em “rap da esquina”. Esse dia foi horrível pois tinha duas MCs na sala. Ficamos tristes e a partir daí começou uma grande discussão sobre a música ser eurocentrada e eu quase desisti da faculdade. Não desisti porque a Sallisa Rosa em uma reunião do São Paulo Terra Indígena me incentivou dando um texto da Grada Kilomba pra eu ler em voz alta.

A academia é racista e não consegue admitir a ciência que não seja branca e para validá-la é necessário passar por uma pessoa branca.

Resolvi acabar o curso e ser pesquisadora da música indígena e comecei a perceber que Villa Lobos, que a academia de música tanto louva, na verdade pegou motivos rítmicos de cantos originários de diferentes povos de Pindorama para criar suas composições. Ou seja, a academia é racista e não consegue admitir a ciência que não seja branca e para validá-la é necessário passar por uma pessoa branca. Essa é a história da academia pelo mundo, sabemos. Eu resolvi ficar e me aprofundar na pesquisa de práticas decoloniais no ensino das artes. Mas muitas pessoas não levam em conta minha pesquisa pois ainda não tenho mestrado. Enfim, é uma cascata de meritocracias pra manter o CIStema patriarcal acadêmico colonial. Com meu trabalho artístico só comecei a ser respeitada por alguns professores por sair na mídia ou quando eles descobriram que os acadêmicos que eles tanto valorizam estavam me usando de objeto de pesquisa. Infelizmente ainda é assim, é triste e cansativo.

Clara Caldeira:  Você lançou quatro singles em 2020. Tem planos de lançar um novo disco? Como estão esses processos no contexto da pandemia? Você tem feito lives? Tem conseguido gravar?

Brisa Flow: Agora em 2021 eu quero continuar lançado singles. Acho que a arte é um reflexo do tempo e o tempo que estamos vivendo tem sido caótico pra trabalhar, os artistas estão adoecendo mentalmente por falta de grana e por estarem sem shows e sem contato com outros artistas. Eu tenho tentado continuar sobrevivendo. Consegui ajuda dos fãs pra começar montar meu estúdio. E assim vou seguindo! A situação do Brasil atual é desesperadora. Tenho ouvido muito rap e tem uma frase do Vandal que me chama muita atenção e tenho usado como mantra pra seguir. “Não tá fudido no hospital então levanta a guia!”.

 

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Fotos: Laryssa Machado


Clara Caldeira
Editora-chefe do Hypeness é jornalista, escritora e pesquisadora em gênero, corpo e meio ambiente, e mestranda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Especialista em gestão na nuvem, tem 15 anos de experiência em jornalismo digital como ênfase em cultura, comportamento, cidadania, meio ambiente e direitos humanos. Nas horas vagas é taurina, poeta, quase vegana, maga das kombuchas, cozinheira de coração cheio e yogi* em infinita formação.

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