Futuro

Êxodo urbano e pandemia: as pessoas estão mesmo deixando as cidades?

Gabryella Garcia - 15/04/2021

O episódio desta semana do ‘Prosa‘ traz um debate sobre o êxodo urbano decorrente da pandemia. Essa movimentação de parte da população deixando as grandes cidades e centros urbanos realmente está acontecendo? Se sim, quem são essas pessoas e o que está por trás dessa movimentação? Para entender melhor as nuances desse possível êxodo, convidamos a jornalista e mestra em cultura e sociedade, Midiã Noelle, e o chefe de pesquisa e inovação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Eduardo Zylberstajn.

O movimento de êxodo urbano, quando as pessoas deixam de viver nas grande cidades em busca de uma vida no campo, ou em centro menores, não é novidade na história da humanidade. Em tempos de grandes pandemias, há uma tendência dessa movimentação ganhar ainda mais força. A população de Nova York, por exemplo, diminuiu 66% entre 1920 e 1970 após a pandemia da gripe espanhola.

Êxodo urbano

A movimentação do êxodo urbano durante a pandemia é vista como algo restrito a apenas uma parcela da população

No atual contexto pandêmico do Brasil, um levantamento feito pelo grupo imobiliário ZAP mostrou que de janeiro a maio de 2020 a procura por imóveis com mais de 100 quilômetros de distância de São Paulo, o maior centro urbano do país, cresceu 340%.

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Além disso, muitas vezes por questões de sobrevivência, também há uma movimentação de pessoas voltando para suas regiões ou cidades de origem – no interior – pelo fato de perderem sua fonte de renda durante a pandemia e se verem obrigadas a voltarem para perto de suas famílias. Muitas vezes as condições de vida nas grandes cidades colocam essa parcela da população em situações de vulnerabilidade.

Restrito às elites

Para Midiã e Eduardo, entretanto, essa possível movimentação de êxodo que estamos presenciando é visto como algo elitista e restrito à uma parcela muito específica da sociedade.

“Acho que é algo muito pontual para esse momento e muito recortado dentro de uma faixa da população, que tem o privilégio de trabalhar em home office. Estamos vivendo um momento que à longo prazo terá um impacto muito forte e talvez esteja acontecendo, mas para uma parte mais privilegiada da população que vão morar mais perto da praia, de um lugar com mais verde e isso já aponta que são pessoas que tem uma condições melhor”, afirmou Midiã.

Durante a prosa o chefe de pesquisa e inovação da Fipe seguiu o mesmo raciocínio e apontou que tal movimentação é restrita à pessoas que têm a possibilidade de trabalhar em home office e podem gozar do privilégio de não precisarem se fazer presentes fisicamente nas empresas onde trabalham.

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“O que está acontecendo com a pandemia é que muita gente descobriu que é possível um arranjo de vida diferente, mas a grande pergunta é: quem descobriu? A elite descobriu que morar no interior é ótimo e tam algumas facilidades. Esse êxodo tem muitas realidades e elas não se aplicam à todos. (…) muita gente não tem essa possibilidade, principalmente quando olhamos para a distribuição de renda na sociedade, quem ganha menos é quem tem menos possibilidade de escolha”.

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O home office e o êxodo urbano não são opções plausíveis para populações periféricas

Midiã, citando uma experiência pessoal, também destacou que o home office não é uma realidade possível para a população mais periférica. “Quem mora na quebrada não tem direito de fazer e nem de fazer com qualidade (o home office) porque a lógica de aglomerados da quebrada impossibilita ter qualidade de vida. Mas isso não é necessariamente ruim, é a forma que historicamente tivemos possibilidade de sobreviver”.

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Seguindo a mesma linha de privilégios, Eduardo destacou que um dos fatores que permitiu essa movimentação, mesmo que elitista, foi a tecnologia. O economista afirmou que se a pandemia ocorresse 10 anos atrás, por exemplo, o êxodo não seria possível. “Quem conseguiu ficar em casa (para trabalhar) é porque tem Zoom, Meet, essas coisas, porque tem os aplicativos de entrega e quando você vai para fora da cidade a tecnologia te permite continuar conectado”.

Além de discutir “para quem é possível o home office”, o episódio também abordou questões de desigualdades sociais, impactos da pandemia na população periférica e a violência a que estão expostos, o processo de formação – e elitização e exclusão – dos grandes centros urbanos e muito mais!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.