Inspiração

Militância feminista: a evolução da luta pela igualdade de gênero

Gabriela Rassy - 26/04/2021 | Atualizada em - 27/04/2021

Vocês sabem por que eu e tantas mulheres estamos aqui hoje trabalhando, votando e sendo eleitas? É por que vieram outras mulheres antes de nós. O feminismo nada mais é do que a luta pela igualdade de gênero. Suas origens remontam movimentos sociais pela liberdade e emancipação.

Estudiosos do tema entendem que o ponto de partida para esse pensamento, ainda que seja possível encontrar relatos de opressão masculina desde os anos 15, esteja na Revolução Francesa (1789). Talvez a primeira feminista documentada seja Olympe de Gouges, sob pseudônimo de Marie Gouze.

Olympe de Gouges

Olympe de Gouges

Ela foi dramaturga, ativista política e feminista, defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Em sua obra “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” (Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne) de 1791, ela mostrou oposição ao patriarcado de época e ao modo pelo qual a relação entre homem e mulher se expressava. Acabou guilhotinada por seus textos e posicionamentos.

Feminismo no Brasil

Aqui no Brasil, o início do movimento feminista está no século XIX, quando mulheres de vários pontos do país começaram a buscar uma maior participação política e cultural na sociedade. E se mulheres brancas não tinham poder sobre suas decisões, imagine as mulheres negras que passaram de escravizadas a “libertas” sem nenhuma perspectiva de autonomia.

A história mostra que mulheres negras lutaram sim por sua liberdade, ainda no século 17, como Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares. Uma das líderes negras mais conhecidas do país, ela nasceu no Brasil – de acordo com a opinião de pesquisadores a partir de registros históricos – e chegou a Palmares ainda na infância. Ainda menina, se juntou a grupos de luta contra o sistema escravocrata.

Para defender o quilombo, Dandara pegava em armas liderando forças femininas e masculinas que atuavam na defesa do ponto de resistência contra os ataques portugueses. Após ser presa, em 1694, cometeu suicídio se jogando de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escrava.

Descrita como uma das mais importantes figuras femininas da história negra, Anastácia foi e ainda é venerada como santa e heroína em várias regiões do Brasil. Era cobiçada por sua beleza, despertando a ira dos seus senhores por seu comportamento rebelde e também das mulheres dos senhores, que a invejavam. Viveu por volta de 1740 e foi condenada ao uso de uma máscara de ferro por toda a vida, a Máscara de Flandres.

Ainda com os feitos e lutas das mulheres negras escravizadas, Nísia Floresta, uma grande educadora e escritora, é considerada a primeira das feministas do Brasil. Em 1832 ela já estava mostrando a que veio com o livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”, entre muitas outras obras.

A obra foi inspirada no livro “Vindications of the Rights of Women” (Vindicações dos Direitos das Mulheres), de Mary Wollstonecraft, precursora do feminismo na Inglaterra, escrito quarenta anos antes, e foi o primeiro livro no Brasil que falava sobre a instrução da mulher. Este, aliás, foi o primeiro no país escrito por uma mulher.

Já pela metade do século XIX surgiam jornais femininos em vários pontos do Brasil e através deles as mulheres defendiam sua (a minha, a nossa) emancipação. Considerado o fundador do periodismo feminino brasileiro, surge em 1852 no Rio de Janeiro o Jornal das Senhoras, de Joana Paula Manso de Noronha (1819-1875).

Outra mulher que marcou a história foi a bióloga e feminista Bertha Lutz. Depois de 10 anos de luta, Bertha foi a grande responsável pela conquista do voto feminino no Brasil lá em 1932.

Nos anos 60, 70, nossa militante maravilhosa Amelinha, ao lado de outras poderosas da linha de frente, lançaram o jornal feminista Brasil Mulher, lá em 1975. “O principal impasse que nós feministas sofremos durante os anos de 1970 foi viver uma ditadura militar. Não havia liberdade de opinião, de manifestação, e mesmo as forças que almejavam a democracia não compreendiam a vontade das mulheres de ser livres, de conhecer e decidir sobre seus corpos, sobre sua sexualidade, de ter direitos iguais aos homens”, conta Amelinha.

Amelinha disse ainda que os homens e algumas mulheres achavam que a luta feminista atrapalhava a luta pela democracia.

O feminismo negro

“Uma das maiores evoluções do movimento feminista é a intersecsionalidade que reconhece a história de cada mulher individualmente em relação a sua classe social, racial e de gênero”, coloca Melina de Lima, historiadora e neta de Lélia Gonzalez.

Lélia Gonzalez. Miga de Angela Davis – que aliás na sua última visita por auqi bem disse que ela aprende mais com Lélia do que nós aprendemos com ela (é surra de gentileza feminista que dá vontade de cobrir a cara dela de beijinho)

Mulher, negra, intelectual e ativista Lélia Gonzalez foi pioneira nas discussões sobre relação entre gênero e raça, propondo uma visão afro-latino-americana do feminismo.

“Para mim, essa virada que chave, que é o o feminismo negro, ele se deu quando mulheres como Lelia Gonzales por exemplo, não se sentia representadas no movimento feminista por ser negra e nem no movimento negro por ser mulher. Enquanto mulheres brancas lutavam por igualdade de direitos, de emprego, as mulheres negras lutavam por poder ter um emprego”, explica Melina.

O fato é que, enquanto mulher negra, sentimos a necessidade de aprofundar a reflexão, ao invés de continuar-mos na repetição e reprodução dos modelos que nos eram oferecidos pelo esforço de investigação das ciências sociais. Os textos só nos falavam da mulher negra numa perspectiva sócio-econômica que elucidava uma série de problemas propostos pelas relações raciais. Mas ficava (e ficará) sempre um resto que desafiava as explicações.

A frase de Lélia e a construção de seu trabalho têm muita relação com o sentimento de Amelinha quando não se sentia representada dentro de um movimento. A negação das subjetividades em prol de um “bem maior”. A hierarquização das lutas como se uma pudesse ser sobreposta à outra – aí vamos de acordo com as prioridades de cada interlocutor.

As discussões sobre feminismo, a partir do momento que legitimadas em sua abrangência de realidades, nos fornece caminhos mais inclusivos e libertadores. A escritora, pesquisadora e ativista Djamila Ribeiro sintetiza bem a necessidade de um olhar que abranja a negritude: “Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la.”

Em sua obra “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?”, um compilado de bons textos analíticos e de histórias revisitadas sobre o tema, ela toca no ponto da visão eurocêntrica sobre nossos corpos e como esse trabalho de libertação e aceitação se torna ainda mais árduo quando enrraizado na sociedade tornando-se, assim, sua estrutura.

“Ao falar de mulheres, devemos sempre nos perguntar de que mulheres estamos falando. Mulheres não são um bloco único – elas possuem pontos de partida diferentes. Sueli [Carneiro] aponta a urgência de não universalizar essa categoria, sob o risco de manter na invisibilidade aquelas que combinam ou entrecruzam opressões. Ou seja, ela fala da importância de se dar nome e trazer à visibilidade para se restituir a humanidade.”

Feminismo em forma de lei

Uma mulher que marcou a história do feminismo foi a da farmacêutica cearence Maria da Penha. Seu caso, contato no livro “Sobrevivi… posso contar” (1994), representa a violência doméstica à qual milhares de mulheres são submetidas em todo o Brasil.

Ela estava casada, com 3 filhas, quando seu marido, o colombiando Marco Antonio Heredia Viveros. A partir do momento que ele conseguiu sua cidadania brasileira e se estabilizou profissional e economicamente, passou a agredir Maria e suas filhas.

As atitudes violentas tornaram-se cada vez mais frequentes, até que ele deu um tiro em suas costas enquanto ela dormia, deixando-a paraplégica. Quatro meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa – após duas cirurgias, internações e tratamentos –, ele a manteve em cárcere privado durante 15 dias e tentou eletrocutá-la durante o banho.

Mesmo com todas as provas, ela levou 8 anos para ver esse homem ser preso. Mas a pena durou quanto? Só 2 anos. Ela então levou o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) uma petição contra o Estado brasileiro por impunidade à violência doméstica.

O caso conhecido mundialmente e, em 2006, o então presidente Lula sancionou a Lei Maria da Penha, para proteger as mulheres contra a violência.

Tristemente hoje ainda enfrentamos dificuldades dentro do próprio sistema legislativo já que a sociedade segue votando em maior número em homens que fazem a lei como os convém. Recentemente, o deputado com bastante tempo livre Eduardo Girão (Podemos-CE) propôs o que ficou chamado pela internet de Bolsa Estupro.

A ideia é basicamente restringir o acesso ao aborto legal em casos de estupro. Um dos mais polêmicos artigos da PL prevê que “na hipótese de a gestante vítima de estupro não dispor de meios econômicos suficientes para cuidar da vida, da saúde, do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos respectivos de um salário-mínimo até a idade de 18 anos da criança, ou até que se efetive o pagamento da pensão alimentícia por parte do genitor ou outro responsável financeiro especificado em Lei, ou venha a ser adotada a criança, se assim for a vontade da gestante, conforme regulamento”.

Em entrevista à Revista Crescer, a coordenadora da Rede Feminista de Juristas, Raphaella Reis, aponta que, além do projeto estimular que a vítima leve uma gravidez traumática adiante, ele pode gerar mais constrangimentos e traumas, forçando a mulher a ter contato com seu estuprador para comunicar os estágios da gestação, entre outras novas violências.

Ainda neste ano, durante o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, o Brasil se recusou a aderir a uma declaração conjunta realizada por mais de 60 países para defender o direito de meninas e mulheres, inclusive no que se refere ao acesso a direitos reprodutivos e sexuais. Mais um capítulo fúnebre na triste história que é eleger um governo misógino e retrógrado.

Nos resta aprender com o passado para chegar mais longe no futuro. Um governo formado por homens, que pensam e atuam pensando em homens, nunca levará nossas necessidades em consideração. Uni-vos!

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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