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Gordofobia: por que corpos gordos são corpos políticos

Gabryella Garcia - 22/04/2021 | Atualizada em - 23/04/2021

O novo episódio do ‘Prosa’ traz para o debate um tema que ainda reflete carrega muitos preconceitos e marginaliza muitas pessoas: a gordofobia. No sétimo episódio do podcast convidamos Flávia Durante, criadora da Feira Pop Plus, Jupi77er, do Rap Plus Size e Mari Rodrigues, responsável pela chegada dos manequins GG à Farm, para falar porque romper com as normas impostas para empoderar corpos gordos é uma luta política.

O padrão de beleza costuma excluir pessoas gordas através de um processo de desumanização. Não é raro vermos esse tal padrão criar uma série de normas de vestimentas para essas pessoas que sugerem, por exemplo, que seus corpos devem ser escondidos ou mascarados.

Gordofobia corpos políticos

Mari Rodrigues foi uma das responsáveis por introduzir o manequim GG na Farm, uma das gigantes da indústria da moda

Esse padrão, que é imposto em nossa sociedade, coloca o magro como um sinônimo de belo e saudável e, fugir dessa normatização, muitas vezes coloca as pessoas gordas em uma posição social inferior aos demais, simplesmente por serem gordas.

Vídeo aposta no humor e inverte gordofobia para deixar algumas coisas bem claras

Um corpo político

Para Mari Rodrigues, é impossível não se tornar um ser político quando o tempo todo as pessoas jogam em sua cara que é uma pessoa gorda. “Não tem como eu esquecer que sou uma pessoa gorda porque o mundo inteiro está me mostrando o tempo todo que eu sou uma pessoa gorda. Elas querem me mostrar que o mundo não foi feito para mim e eu não caibo em boa parte das coisas”.

Além disso, quando falamos de corpos gordos, não podemos esquecer que outras questões interseccionais atravessam a discussão, como bem apontou Jupi77er durante a prosa.

“Meu corpo é político porque ele é um corpo coletivo, ele passa por vivências que abarcam todos os corpos que são gordos e de diferentes recortes, mas são vivências plurais. A gordofobia é um problema estrutural e a gente tá falando sobre o coletivo de toda uma sociedade que é atingida por isso. (…) então meu corpo é político por uma necessidade, e também por vários atravessamentos que a estrutura coloca para a gente”.

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Flávia Durante também destacou que ser militante muitas vezes não é uma opção, e sim uma necessidade, pois muitos dos diferentes preconceitos existentes em nossa sociedade afetam vivências de diferentes grupos.

“Eu preferia falar de outras coisas nas minhas redes sociais em vez de falar que sou uma pessoa normal e mereço respeito e dignidade como qualquer outra pessoa. Isso seria o mínimo e básico para qualquer pessoa, sejam negras, gordas, trans. Mas, infelizmente, a gente não é militante porque quer, a gente é militante por uma necessidade de algo que incomoda”.

Jupi77er Rap Plus Size

Jupi77er leva a militância para suas letras para combater a gordofobia, a transfobia e brigar por outras pautas

Evidenciando problemas estruturais de nossa sociedade em suas músicas, Jupi77er também destacou a importância do rap em seu processo de desconstrução e também aceitação do próprio corpo. “Eu cresci sendo uma pessoa gorda desde a infância e isso acumulou vários traumas, meu processo de aceitação veio com o rap, falando de emponderamento gordo e aquilo abriu minha mente. Através da militância do rap e do hip hop eu fui conhecendo também outras pautas que me levaram a entender meu corpo como gordo e político, e também a necessidade de brigar por várias outras questões”.

Questão de saúde

Nossos convidados também prosearam sobre a falta de representatividade em todos os espaços, seja na mídia ou no campo político, destacando que ainda estamos longe de “furar bolhas”, normalizando os corpos gordos, e Mari também alertou para a relação que é feita erroneamente entre magreza e saúde.

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“A indústria da beleza e da moda ainda lucra muito com o padrão de beleza magro, associando até como uma questão de saúde onde muitas pessoas associam ser gorda a ser doente. Grande parte da mídia e até mesmo médicos estão constante corroborando com todo esse sistema, e se escorando na questão da saúde, as pessoas veem uma liberdade para serem gordofóbicas”.

O episódio também abordou questões como o impactos na saúde mental, por essa busca constante por um padrão inatingível, projetos de qualificação de pessoas gordas para o mercado de trabalho, interseccionalidade, projetos de lei, representatividade na mídia e muito mais!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Arquivo Pessoal


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.