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O samba de roda do Recôncavo em 3 vozes femininas negras

Vitor Paiva - 19/04/2021 | Atualizada em - 22/04/2021

O samba de roda é mãe e pai do samba moderno, e as três artistas aqui celebradas carregaram e carregam essa história essencial brasileira, desde o passado, até hoje, para o amanhã.

Se o samba é o ritmo característico do Brasil por excelência, e dele nasceram seus tantos desdobramentos como o pagode, o samba-canção, o samba-jazz, o samba-enredo, de terreiro, sambalanço, samba-rock, a Bossa Nova, e mais, a origem do próprio samba como conhecemos, o chamado samba carioca, se responde pela letra do clássico “Samba da Benção”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes: o samba nasceu lá na Bahia – mais precisamente do samba de roda do Recôncavo baiano.

Foto de samba de roda

Da Bahia para o Rio, o samba de roda se tornaria origem do samba moderno © Ministério do Turismo

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O ritmo e dança que formaram o samba de roda nasceram em meados do século XIX, e seriam importados para o Rio para se tornar a base da modernização do chamado “samba carioca”.

Com suas raízes fincadas na cultura africana e diretamente ligado ao coco pernambucano e principalmente ao candomblé e à capoeira, o samba de roda é tocado com instrumentos de percussão como o pandeiro e o atabaque, o chocalho junto de uma viola ou um machete – as canções também são acompanhadas por palmas – e desde 2005 é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade,

Em 2005 o samba de roda do Recôncavo se tornou Patrimônio da Humanidade © IPHAN/reprodução

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Outro elemento tradicional nas rodas de samba do recôncavo é o uso do prato, batucado com uma faca, como instrumento de percussão – não por acaso ele batiza uma das personagens aqui apontadas.

O nome do ritmo se refere à roda que normalmente se forma para que as pessoas entrem para dançar – o samba dançado é miúdo, em um ir e vir para frente e para trás dos pés. As canções do repertório do samba de roda nasceram dos escravizados, ao redor de cantos de trabalho, sobre os orixás e a cultura afro, mas também sobre temas marítimos e praieiros, acontecimentos históricos, causos corriqueiros da sabedoria popular, assim como o próprio samba, a Bahia, as rodas e festas no conteúdo dos cantos.

Foto de samba de roda

As palmas são parte do instrumental dos sambas de roda © Luiz Santos/IPHAN

Dona Edith do Prato

Reza a lenda que Dona Edith do Prato foi ama de leite de Caetano Veloso © reprodução

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Natural de Santo Amaro da Purificação e nascida em 1916, Edith Oliveira Nogueira ficou conhecida como Dona Edith do Prato como uma das principais cantoras do samba de roda do recôncavo, mas principalmente por sua habilidade como percussionista. Tocava o prato com uma faca e o tornava em verdadeiro instrumento, interpretando normalmente temas de domínio público da região, principalmente em festas populares – Dona Edith do Prato só foi subir em um palco oficialmente em 1970.

Preferia os pratos de louça mais baratos, e as facas tinham de ser inox e sem cabo de madeira – e o som que tirava era tão original e forte quanto seu canto, profundo e popular. Amiga pessoal de Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, Dona Edith participaria tanto do disco Araçá Azul, de Caetano e lançado em 1973, com a canção “Viola Meu Bem”, quanto do disco Ciclo, lançado por Bethânia em 1983, com a chula “Filosofia Pura”. Ela viria a falecer em 2009 aos 93 anos e, ainda que dissesse que não se via como artista, era uma das mais importantes artistas do recôncavo – e do samba de roda.

Dona Nicinha

Dona Nicinha é fundadora do grupo Nicinha Raiz de Santo Amaro

Nicinha dançando com seu grupo © divulgação

Maria Eunice Martins Luz tornou-se em Santo Amaro da Purificação um símbolo do ritmo e da dança tradicional do Recôncavo. Fundadora do grupo Nicinha Raiz de Santo Amaro, Dona Nicinha tem como missão, enquanto referência entre as sambadeiras, tocadores e tocadoras do grupo e do próprio samba, a manutenção e popularização do ritmo e da dança, da manifestação cultural peculiar do recôncavo – vendo o samba de roda como um verdadeiro baú de saberes e culturas locais, assim como um disseminador da história do Recôncavo em suas raízes negras, e do próprio ritmo.

A preocupação com a história e a memória da cultura do Recôncavo, matéria-prima profunda do trabalho do grupo Nicinha Raiz de Santo Amaro, vem de casa e da própria família: Dona Nicinha é nora do grande Popó do Maculelê, responsável pelo resgate e a imortalização do Maculelê, dança que se mistura com luta em sua origem, na região. Hoje, Dona Nicinha é uma das grandes matriarcas do samba de roda e da cultura popular do recôncavo – e trabalha pela recuperação, preservação e, assim, renovação dessa história e suas formas de arte e conhecimento.

Mariene de Castro

Mariene de Castro

Mariene de Castro cantando no Prêmio da Música Brasileira © Wiki Commons

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A cantora Mariene de Castro é a mais jovem artista aqui apresentada, e nisso também está sua força e significado. Nascida em Salvador, ela celebra a cultura afro-brasileira e a profunda forma de arte histórica do recôncavo em sua música contemporânea, como uma forma de preservação hoje. No início de sua carreira, Mariene cantou com nomes como Carlinhos Brown e Timbalada, mas rapidamente encontrou na mistura das raízes afro com o atual seu lugar – para se tornar cantora principal do Bloco Cortejo Afro no carnaval, e fazer acontecer sua própria carreira solo.

Mariene de Castro

Mariene trouxe o samba de roda para o hoje © Wiki Commons

Sem nunca perder o samba de roda como base, Mariene vem ganhando o Brasil e o mundo tangenciando com o Jongo e outros ritmos afro-brasileiros. Indicada ao Grammy Latino em 2020 na categoria “Melhor Álbum de Músicas de Raízes Em Língua Portuguesa”, pelo disco “Acaso Casa Ao Vivo”, feito em parceria com o cantor pernambucano Almério, a cantora ganhou ainda maior projeção internacional após se apresentar na cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio, em 2016, no Estádio do Maracanã.

O recôncavo e a origem do samba moderno

A Baia de Todos-os-Santos

A Baia de Todos-os-Santos © Wiki Commons

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Compreendendo a região ao redor da Baia de Todos-os-Santos, o Recôncavo é formado atualmente por 33 municípios, e tecnicamente inclui a região metropolitana de Salvador, mas culturalmente só as cidades do interior se reconhecem como parte. O nome se refere ao formato côncavo da baia, e a região é uma partes do Brasil com mais forte presença da cultura africana, oriunda da escravidão e da produção principalmente de cana.

O porto da cidade de Cachoeiro, no Recôncavo

O porto da cidade de Cachoeira, no Recôncavo © Getty Images

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Fosse somente o berço do samba de roda, e o Recôncavo já seria região de inestimável valor cultural para o Brasil. Só de Santo Amaro, porém, saíram, além de Dona Nicinha e Dona Edith do Prato, também Caetano Veloso e Maria Bethânia, o grande compositor Assis Valente, e o cantor Baiano, que lançou pela Casa Edison o primeiro disco gravado no Brasil, “Isto é Bom”, em 1902.

Dança em Samba de Roda

O samba de roda é uma espécie de síntese da importância cultural da música do Recôncavo © Luiz Santos/IPHAN

Quem também veio de Santo Amaro para o Rio foi Tia Ciata, pilar fundamental da migração do samba de roda do Recôncavo para o Rio de Janeiro – para dele nascer o samba carioca: o samba moderno da primeira metade do século XX. Foi na casa de Tia Ciata, no Estácio, que o samba de roda se transformou, para ganhar os traços e contornos que fariam do samba carioca o ritmo mais popular do país. Não é por acaso, portanto, que em 2005 a Unesco reconheceu o samba de roda do Recôncavo como como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade: dali, direta ou indiretamente sairiam as escolas de samba, os ranchos, os blocos, e o próprio carnaval: saiu o Brasil.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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