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Oscar 2021: por que todo mundo deveria assistir a ‘Meu Pai’, indicado a melhor filme

Veronica Raner - 20/04/2021 | Atualizada em - 23/04/2021

(Esta matéria contém spoilers do filme “Meu Pai”, indicado ao Oscar)

A lista dos indicados ao Oscar sempre tem surpresas. Há 93 anos, a Academia de Artes de Ciências Cinematográficas escolhe os filmes que, aos olhos de seus membros, foram os melhores do ano. Entre injustiças e preconceitos, cinéfilos que admiram toda a pompa do evento costumam correr contra o tempo para dar conta de assistir aos indicados. Foi assim que me deparei com “Meu Pai”, estreia do francês Florian Zeller no cinema baseada na peça que ele mesmo escreveu.

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Cena de ‘Meu Pai’: Imogen Poots, Olivia Colman e Anthony Hopkins.

Com o nome original de “Le Pére” (“O Pai”, em tradução livre), a obra foi escrita em 2012 para os palcos e estrelada em sua primeira versão por Isabelle Gélinas e Robert Hirsch. À época, foi chamada de “a maior peça da década” pelo “Guardian” e recebeu prêmios atrás de prêmios. Três anos depois, virou filme no cinema francês e, agora, ganha nova versão coproduzida por França e Reino Unido, com Florian na direção e roteiro, assinado ao lado de Christopher Hampton, que havia traduzido a peça para o inglês. 

Indicado a seis Oscars, incluindo melhor filme, “Meu Pai” conta a história de Anthony (Anthony Hopkins) um idoso com 83 anos diagnosticado com algum tipo de demência e que não entende ou aceita a doença. Do outro lado, sua filha, Anne (Olivia Colman), se esforça ao máximo para cuidar dele ao mesmo tempo em que tenta viver a própria vida.

Foi intenção do diretor que o filme fosse o mais próximo da realidade possível. Tanto que o personagem principal, interpretado por Anthony Hopkins, também se chama Anthony nas telas (nos palcos, seu nome era André). O objetivo era que o premiado ator não se sentisse protegido pelo roteiro, mas que sua vulnerabilidade, seus sentimentos, emoções e, principalmente, sua conexão com aquele “pai” fossem realistas.

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Em uma das cenas, ao ser levado pela filha a uma consulta médica, Anthony (o da ficção) é questionado sobre sua data de nascimento. “31 de dezembro de 1937”, ele responde, mesma data do aniversário de Anthony Hopkins, cuja performance tem sido chamada de a mais espetacular de sua carreira. . 

Eu não queria que ele se sentisse protegido pelo personagem ou pela ficção. Eu queria que ele estivesse conectado às suas emoções, aos seus sentimentos de mortalidade”, explicou o autor e diretor, em entrevista ao “The Times”. 

 

Doença de Alzheimer representa de 60% a 70% dos casos de demência

A linha temporal do filme não é cronológica, uma tentativa do diretor de fazer o espectador entender o que se passa na mente do protagonista. O recurso narrativo ajuda a explicar a confusão mental em que Anthony se encontra. Assim como os cenários: a maior parte do filme se passa dentro do apartamento de Anne, mas há cenas no consultório médico e em uma instituição de idosos, todos eles com uma decoração similar e corredores parecidos que às vezes deixam a dúvida: mas essa cena é na casa deles ou não?

De primeira, quem assiste ao longa pode se perder um pouco na ordem dos fatos — e até questionar a veracidade de alguns momentos: não há como saber exatamente o que é real (dentro da ficção) e o que é uma reprodução do que se passa na cabeça de Anthony.

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Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 47,5 milhões de pessoas são acometidas pela demência no mundo. Desse total, a doença de Alzheimer representa de 60 a 70% dos casos. A estimativa é que até 2050 mais de 152 milhões de pessoas tenham sido diagnosticadas com demência. 

Minha avó materna foi a única com quem convivi entre os pais dos meus pais. Em seus últimos anos de vida, ela foi diagnosticada com um princípio de Alzheimer que não chegou a fazê-la esquecer de seus parentes mais próximos, como Anthony no filme, mas provocava episódios de confusão ou esquecimento — processo que se intensificou nos meses anteriores à sua morte, em 2009. 

Ao assistir “Meu Pai”, lembrei dela muitas vezes irritada ao ser contrariada sobre algo que já havia feito e não se lembrava. O esquecimento causado pela doença provoca momentos de angústia para a pessoa que sofre com ele e para quem convive com ela. Não é fácil para a rede de apoio ver se perder no tempo a memória de quem ama. O próprio Hopkins admitiu, em entrevista, ter se lembrado do pai, Richard Hopkins, quando assistiu ao filme pela primeira vez. 

Ele ficou muito deprimido, beligerante e argumentativo”, contou o ator, em entrevista. “Eu dizia algo e ele dizia: ‘O que você quer dizer com isso?’ Havia uma espécie de apatia. E a dor, a dor que ele infligiu à minha própria mãe. “‘Quer outra xícara de chá?’ ‘SIM!’” Tudo isso veio do medo. E eu olhei para o pai (do filme) e o reconheci com grande carinho. Eu pensei: ‘Esse é o meu velho’”, completou. 

No filme, Anthony Hopkins interpreta Anthony, um idoso com demência.

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No filme, a personagem de Olivia Colman por vezes chora ao lidar com seu pai, que no meio da confusão mental, expõe feridas sobre a morte da outra filha, Lucy. Apesar de não se lembrar do acidente que a vitimou, Anthony manifesta a falta da filha repetidas vezes e acaba por ofender Anne, talvez como forma de aliviar a sensação de abandono deixada pela morte da qual não se recorda conscientemente. 

Na minha casa, aprendemos logo que deveríamos evitar perguntas como “você não se lembra?” ou “nós já falamos sobre isso, esqueceu?”. Além de não ajudar a pessoa com demência a se lembrar, os questionamentos a deixam com uma angústia sobre seu estado ou sobre certezas que ela tem, mas que não se comprovam diante dos fatos.

Assistir “Meu Pai” é um ato de empatia. A terceira idade e suas questões provocam diferentes sentimentos nos mais jovens. Alguns a avaliam com temor: a flacidez da pele, a falta de fôlego, a juventude que se vai diante do espelho… Questões que causam medo e incerteza. Outros a abraçam com liberdade e até mesmo desejo: chegar à velhice é sinal de que muito se viveu. Até porque, como sempre me disse o meu pai, a morte não olha data de nascimento na hora de escolher seus pretendidos. 

O escritor e diretor Florian Zeller, em foto de setembro de 2020.

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Florian Zeller fala sobre um tema complexo de forma delicada e tenta ensinar aos mais jovens, quase de forma didática, o que acontece quando a cabeça começa a falhar. “Sinto como se estivesse perdendo todas as minhas folhas. Os galhos, o vento e a chuva. Eu não sei mais o que está acontecendo”, diz Anthony ao perceber, por um instante, que algo não está certo. 

Apesar do filme não ter a palavra “demência” no roteiro, os ensinamentos sobre a doença estão todos na tela. “Meu Pai” é uma reflexão que precisa ser feita principalmente por aqueles que costumam não ter paciência quando os sinais do tempo se revelam no corpo do outro de forma tão complexa.  “O tempo não para”, diz a música. Enquanto ele corre, é preciso aprender.

Olivia Colman e Anthony Hopkins em cena.

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Fotos: Divulgação e Getty Images


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.