Arte

‘Oscar’: contra-ataque feminista é destaque de ‘Bela Vingança’

Redação Hypeness - 06/04/2021 | Atualizada em - 08/04/2021

Era natural que uma onda de filmes independentes voltados para mulheres com temas em torno da misoginia cultural e do empoderamento feminino seguisse a evolução do movimento feminista. Neste contexto, “Bela Vingança” surge certeiro, arrancando elogios e indicações a importantes prêmios.

Indicado a quatro Globos de Ouro – direção, filme dramático, atriz e roteiro original – e ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção para Emerald Fennell, Melhor Atriz para Carey Mulligan e Melhor Roteiro Original, o longa faz uma bela estreia.

Carey Mulligan pune falsos bons moços em ‘Bela Vingança’

Esta boa onda de filmes independentes criados por mulheres vem como um efeito colateral de movimentos como #MeToo e da tomada de consciência pelo respeito às mulheres.

Filmes como “A Assistente”, “Nunca Raramente Às vezes Sempre” e “A Versão dos Quarenta Anos” são todos ótimos exemplos de filmes que discutem como a sociedade vê as mulheres, lançados a partir de 2020.

Mas é “Bela Vingança”, o filme de estreia da escritora e diretora Emerald Fennell – que já escreveu episódios de “Killing Eve” e estrela como Camilla Parker-Bowles em “The Crown” – que se destaca por ter trilhado um novo caminho à frente para o cinema moderno.

'Bela vingança'

‘Bela vingança’ mistura terror e sarcasmo em uma abordagem feminista perfeita

Já se foram os dias da mãe solteira à la “Erin Brockovich” e da corajosa empreendedora de “Legalmente Loira”; Fennell deu início a uma nova geração de filmes feministas – um com um protagonista vigilante, aplicações astutas de raiva justificada e um mundo de predadores e espectadores trazidos à vida com inspirações clássicas mais do que suficientes e reviravoltas ambiciosas na trama para permitir manter a atenção nas próximas décadas.

“Bela Vingança” acompanha a história de Cassie Thomas (Carey Mulligan), uma jovem ex-estudante de medicina, que vive uma vida dupla fingindo estar bêbada, deixando os homens levá-la para seus apartamentos, buscando potenciais assediadores.

Ela mantém esse estilo de vida até que um encontro fatídico com um velho amigo de faculdade (Bo Burnham) a chama à ação e enquanto ela trama atos sociopatas para vingar sua melhor amiga que se suicidou após um estupro.

A principal inovação de “Bela Vingança” está nos fluxos e refluxos entre os conflitos “internos” e “externos” que definem a direção do filme. Emerald Fennell tece entre a narração interna de Cassie e a percepção daqueles que a cercam – seja vendo-a como uma mulher pelo olhar masculino ou como uma psicopata.

Dá gosto ver a vingança aos cidadãos de bem que não perdem a oportunidade de mostrar as garras ao primeiro sinal de vulnerabilidade feminina.

O filme também se diferencia por sua abordagem artística, que traz à mente tanto o cool cinematográfico da new wave francesa quanto a cobertura maximalista da cultura pop dos videoclipes de Lady Gaga.

A sequência dos créditos de abertura observa Cassie enquanto ela caminha por uma calçada – câmera tremendo, hambúrguer em sua mão, ketchup escorrendo pela manga de sua camisa social de botões. Ali, Fennell salva o diálogo para um momento posterior e permite a imagem para falar.

Emerald Fennell

Emerald Fennell

Depois disso, quando mais acontecimentos surgem e Cassie se envolve em seus atos vingativos, letras romanas rosas aparecem no meio da tela, sugerindo que cada ato é parte de um plano ou ordem elaborada.

Não vamos dar spoillers sobre a natureza dos atos vingativos de Cassie para que todes possam ter a chance de entrar no filme às cegas, com o mínimo de contexto possível sobre a história. A forma como a história se desenrola não só faz com que o universo do filme pareça um mundo vivo e que respira, mas também dá a cada um dos personagens uma postura complexa e plenamente realizada em relação ao seu tema central, que é a vontade da sociedade de varrer a violência contra as mulheres para debaixo do tapete.

Experimentar o filme por si mesmo (junto com a atuação perfeita de Carey Mulligan) é essencial para se envolver com o discurso central do filme.

Talvez de todos os filmes de 2020, “Bela Vingança” seja o que parece mais preparado para inspirar gerações de cineastas além do momento atual. A declaração cinematográfica de Fennell existe não apenas como uma carta de amor ao cinema, mas também como uma resposta atrasada aos abusos sofridos por mulheres nas escolas, locais de trabalho, em Hollywood e na sociedade como um todo. Não perca este.

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Fotos: Reprodução


Redação Hypeness
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