Diversidade

‘Prosa’ discute inclusão de travestis e transexuais no mercado de trabalho

Gabryella Garcia - 01/04/2021 | Atualizada em - 05/04/2021

No dia 31 de março é comemorado o Dia Internacional da Visibilidade Trans e, um dia após a data, o ‘Prosa’ propôs o debate sobre a inclusão de pessoas transgêneros e travestis no mercado de trabalho. No quarto episódio do podcast convidamos Gabriela Augusto, fundadora da Transcendemos Consultoria, e Maite Schneider, co-fundadora da Transempregos, para discutir a importância e necessidade da inclusão dentro do mercado de trabalho.

Um levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) estima que 90% das mulheres trans e travestis tem a prostituição como única fonte de subsistência no Brasil e apenas 4% possuem um emprego formal. Outros 6% possuem um emprego informal. Esses dados evidenciam uma exclusão e marginalização por grande parte da sociedade. Sendo assim, são raras as oportunidades de emprego para essa parcela da sociedade no Brasil.

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Falta de dados e de conhecimento

A falta de dados oficiais sobre a população dificulta ainda mais a criação de políticas públicas e programas sociais voltados para uma real inclusão dessas pessoas. O IBGE, por exemplo, não possui estatísticas sobre travestis e transexuais em seu censo.

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Para Maite, além da dificuldade provocada pela falta de dados, a falta de conhecimento também é uma grande barreira para que essas pessoas possam se inserir no mercado de trabalho. “A maior barreira é o não conhecimento. Nossa sociedade cria uma série de regras que em vez de nos unir acabam nos separando e colocando brancos contra negros, homens contra mulheres e cisgêneros contra transgêneros. (…) São criadas hierarquias extremamente agressivas que resultam em um não acesso á educação e consequentemente ao mercado de trabalho. As pessoas não tem conhecimento de como agir e como lidar com pessoas trans e isso dificulta na inclusão. Cerca de 90% do preconceito acaba quando levamos a informação. talento não tem nada a ver com identidade”.

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Essa falta de conhecimento também acaba gerando um medo nas pessoas de acordo com Gabriela Augusto. Ela afirma que “é um grande desafio porque a gente tem medo daquilo que não conhece e o medo afasta. Vejo muitas pessoas com um profundo desconhecimento em relação à nossa existência que relacionam travestis a confusões, brigas, prostituição e criminalidade. É uma série de preconceitos e estigmas que precisamos superar”.

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Para mudar o cenário, e combater o desconhecimento e a desinformação, a Transcendemos Consultoria atua em duas frentes que são ajudar outras empresas a se tornarem mais inclusivas e também apoiar grupos sub representados a se prepararem para conquistar uma boa posição no mercado de trabalho.

Já a Transempregos existe desde 2013 e é o maior portal de empregabilidade trans do mundo, fazendo o anúncio de vagas de empresas que desejam contar com profissionais trans. Apesar de sua importância e de já ter empregado 24 mil profissionais trans no Brasil inteiro, em 824 empresas diferentes, Maite tem o sonho de acabar com a empresa. “Já temos sete anos e o sonho é em 15 anos acabar com a Transempregos. A gente quer falir esse projeto e nós só vamos ter sucesso quando a Transempregos não for mais necessária. Queremos crescer cada vez mais para poder acabar”.

Outra questão abordada durante a prosa, foi a importância de se falar sobre transversalidade. Se faz necessário incluir na discussão questões de raça e também recortes sociais. Maite pontuou que as empresas buscam contratações higienistas e que pessoas trans com qualquer outro recorte de excludência acabam encontrando ainda mais dificuldades na inserção, chegando ao ponto de empresas solicitarem “pessoas trans que não se pareçam trans”.

Gabriela também pontuou que muitas empresas não estão abertas para recortes e vivências que fogem do padrão. “As pessoas buscam pessoas trans mas que sejam brancas, formadas em universidades de renome e que falem inglês fluente. Na verdade elas querem uma bonequinha”.

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Importância para as empresas

Pelo lado das empresas, Gabriela e Maite destacaram que empresas que têm compromisso com a diversidade comprovadamente apresentam uma performance financeira melhor. “Equipes com pessoas com diferentes visões e experiências são mais criativas e inovadoras e, naturalmente, vão atrair os melhores talentos”, pontuou Gabriela.

Por fim, Maite também destacou que uma diversidade maior dentro da empresa resulta em um produto mais abrangente, que atinja todos os públicos, e também cria um ambiente de segurança. “Ambiente diverso cria um ambiente de segurança e de mais empatia. O maior ganho das empresas é quando as pessoas tem um olhar mais humano”.

O episódio também detalhou a forma de atuação das duas empresas, discutiu questões como passabilidade de pessoas trans e a normalização de sua existência, apresentou a atuação do Projeto Transpor, que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas trans e muito mais!

Ficou curiosa para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Getty Images/foto 3: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.

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