Diversidade

Representatividade negra na comunicação é tema de debate no ‘Prosa’. Apenas isso basta?

Gabryella Garcia - 08/04/2021 | Atualizada em - 09/04/2021

O novo episódio do ‘Prosa’ traz para o debate um tema extremamente importante e urgente. No quinto episódio do podcast convidamos Gabi Coelho, jornalista no Estadão Verifica e editora no Favela em Pauta e Juarez Xavier, professor de jornalismo nos cursos de graduação e pós-graduação da Unesp, para falar sobre a representatividade negra na comunicação. Ela é suficiente?

Apesar de a população negra representar mais da metade da população brasileira, ela ainda é considerada uma minoria social. Ou seja, ela é maioria em quantidade mas minoria em representação. Na prática isso significa que a população negra não está representada na política, na televisão, no jornalismo e na comunicação como um todo.

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Prova disso é que na comunicação especificamente, é raro vermos pessoas negras ocupando cargos de destaque ou liderança. Para corroborar a realidade que nossos olhos veem, em sua pesquisa de doutorado o professor universitário Tiago Vinícius André dos Santos apontou que 70 anos depois da primeira transmissão televisiva no Brasil, apenas uma pessoa negra foi proprietária de uma concessão de TV. O cantor Netinho de Paula inaugurou a TV da Gente em novembro de 2005 e, menos de dois anos depois, encerrou as atividades por falta de apoio.

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Estrutura do jornalismo

Para o professor Juarez essa sub-representação negra, não apenas na comunicação, tem uma função política de assegurar a supremacia branca em todas as esferas possíveis. “Se você reduz essa representatividade você faz com que o negro seja uma realidade de percepção percebida e não a percepção real. O sistema de comunicação atua como um mecanismo de sustentação do racismo sistêmico, ele foi fundado pelo racismo sistêmico e foi estruturado a partir do supremacismo branco em toda a sua lógica organizacional. Ele acaba replicando em dimensão ampliada, quase industrial, o preconceito, a discriminação e o racismo”.

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Racializar as pautas do jornalismo se faz necessário e de extrema importância para se mudar a realidade da representatividade, mas Gabi destaca que apenas ela não basta. É importante também mexer nas estruturas do jornalismo tradicional.

“Tenho o receio que daqui algum tempo a gente comece a normalizar ter pretos ali na cara do jornal mas dentro da redação o sistema continuar a mesma coisa, sem mudar e avançar em nada. A escolha das pautas, a escolha dos títulos, os editores continuarem sendo os brancos e os mesmos que estão ali há anos pensando com a cabeça de mil anos atrás. Então me pergunto muito se só a representatividade importa. Acredito que potencializar essas pessoas é muito mais importante e efetivo do que só colocar um negro ali para dizer que está representando uma massa”.

Mídias independentes

Um dos caminhos para ao menos tentar mudar a realidade atual da representatividade é a valorização da mídia independente como alternativa aquela que é conhecida como a grande mídia. “É um momento de valorizar ainda mais quem tem construído outra narrativa de jornalismo que parta da perspectiva periférica, indígena, favelada, ribeirinha e quilombola”, destaca Gabi.

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Como representantes dessas mídias, a jornalista destaca veículos como Alma Preta, Favela em Pauta, Fala Roça, Agência Mural, Coletivo Niara, Voz das Comunidades, Revista AzMina e Amazônia Real, por exemplo.

Para Juarez, o fortalecimento dessas mídias é importante e contribui para uma certa influência dentro dos veículos mais tradicionais, mas as principais conquistas e aumento da representatividade se dão através de lutas e movimentos sociais. “Quando você pega a história da mídia negra no Brasil ela é fruto de uma luta social, acho que o que está mudando mesmo a percepção dessas questões na redação é a luta política do negro. A mídia negra é uma dimensão importante dessa possibilidade, que eu gosto de chamar de mídia radical. Em determinados momentos ela é tão intensa na sua ação política que a mídia coorporativa acaba absorvendo pautas, linguagens e até mesmo determinados conteúdos que são provocados pela mídia radical”.

O episódio também abordou questões sobre o sistema de concessões públicas dos meios de comunicação, a importância de ocupar os espaços dentro da mídia tradicional, as mudanças na estrutura das redações para pessoas negras ao longo dos anos e muito mais!

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Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: foto 1: Reprodução/TV Globo/foto 2: Reprodução/Globonews/Globoplay


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.


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