Arte

Samba: 6 gigantes do samba que não podem faltar na sua playlist ou coleção de vinil

Vitor Paiva - 08/04/2021 | Atualizada em - 12/04/2021

O samba é um gênero musical, um tipo de dança, um fenômeno cultural emblemático da cultura brasileira – mas é, acima de tudo, muito mais. A história do samba é de tal forma uma síntese do que é, para o bem e o mal, nosso país, que não seria exagero afirmar que o ritmo ajudou a inventar o Brasil como conhecemos – e por isso selecionar 6 grandes nomes do samba que todo apaixonado pelo ritmo ou pela música brasileira deve conhecer e ter em sua coleção de vinil não é tarefa simples. Gerido na Bahia e nascido no Rio de Janeiro, com suas raízes fincadas na história de dor e força, de luta e trabalho da população negra brasileira, o samba em suas tantas vertentes é o ritmo essencial nacional, e um dos pontos mais altos e reluzentes da nossa música.

surdo de samba

O surdo marca o coração pulsante do samba © Getty Images

-Como o Rio de Janeiro fez um dos maiores carnavais da história após a gripe espanhola

A lista de gigantes do samba é também gigante, e qualquer seleção cometerá injustiças inafiançáveis. Como deixar de fora artistas do quilate de Noel Rosa, Pixinguinha, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra, Candeia, Wilson Batista, Lupcínio Rodrigues, Adoniran Barbosa, Teresa Cristina, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Martinho da Vila e tantos – tantos! – mais? A seleção aqui apresentada, portanto, é somente um recorte possível dos gigantes incontornáveis do estilo, e outra lista igualmente justa e também inquestionável poderia ser feita a partir somente dos exemplos que ficaram de fora: o samba, afinal, é imenso como é imensa a cultura brasileira.

Ala das baianas

Ala das baianas: as escolas de samba são parte importante da cultura do samba © Getty Images

-Carnaval do Rio já pode comemorar sua 1ª mulher mestre de bateria

Os nomes aqui selecionados, de todo modo, representam de forma incontestável a excelência, a importância, o sucesso e a profundidade do ritmo no país. São homens e mulheres que, com suas vidas e obras, criaram e refinaram uma das expressões culturais que melhor traduzem o melhor do Brasil. Dos recônditos baianos e dos morros cariocas, o violão, o cavaquinho, o bandolim, o surdo, o tamborim, a percussão, as vozes e os corações do samba hoje se espalham por todo o território brasileiro – como uma espécie de verdadeiro e maior tesouro nacional.

Beth Carvalho

Beth Carvalho

Beth Carvalho se apresentando em 2007 no festival de Montreux, na Suíça © Getty Images

A importância de Beth Carvalho para o desenvolvimento do samba no Brasil é tamanha que, ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira, ela se tornou sinônimo do ritmo com justiça. Não bastasse sua carreira de imenso sucesso imortalizando clássicos como “Vou Fertejar”, “Coisinha do Pai”, “Folhas Secas”, “Acreditar” e “Andança”, a alcunha de madrinha do samba oferece a completude do seu legado – não só como uma das maiores cantoras do Brasil, mas também como artista e militante.

Cartola e Beth Carvalho

Cartola e Beth Carvalho © reprodução/Youtube

Beth abriu caminho para tantos outros nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Almir Guineto, e também pela redescoberta e a solidificação de gênios como Cartola e Nelson Cavaquinho – compositores que, ao serem gravados por Beth, ganharam enfim reconhecimento e sustento. Beth Carvalho é um perfeito exemplo do sentido elevado que o samba pode ter: para além de uma grande forma de arte, uma parte importante da história de um povo.

Cartola

Cartola

Para muitos o mangueirense Cartola é o maior sambista da história © Wikimedia Commons

Apesar de ter sido gravado ainda nos anos 1930 por grandes artistas como Carmem Miranda, Araci de Almeida, Francisco Alves e Silvio Caldas, Cartola só viria a gravar um disco seu em meados dos anos 1970, quando já tinha passado dos 66 anos, depois de trabalhar como vigia, guardador de carros, zelador, enfrentar o alcoolismo e a pobreza. Sua esposa, Zica, o salvou, e também o salvou o samba: levado por Beth Carvalho, seu primeiro disco, de 1974, reúne um repertório de obras-primas sem exceção: “Disfarça e Chora”, “Sim”, “Corra e Olha o Céu”, “Acontece”, “Tive Sim”, “O Sol Nascerá” – e esse é somente o lado A do LP, que também traz “Alvorada”, “Alegria”, e mais.

Cartola e Dona Zica

Cartola e Dona Zica na capa do segundo disco do compositor © reprodução

Dois anos depois, seu segundo disco – igualmente genial, com canções como “O Mundo é um Moinho”, “Sala de Recepção”, “Preciso me Encontrar”, “Ensaboa” e “As Rosas Não Falam” – confirmaria a obra desse que, para muitos, é o maior sambista de todos os tempos. Se a Mangueira é hoje uma instituição do samba, isso se deve em muito a Cartola – e se podemos dizer que os gênios existem, Cartola é definitivamente um deles.

Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a compor um samba-enredo para uma escola © Getty Images

Por muito tempo Dona Ivone Lara dividiu o ofício de enfermeira com o ofício de ser pioneira em tudo que fez dentro do samba – para se tornar uma das grandes compositoras e cantoras brasileiras, e firmar o samba como uma história não somente negra, mas também feminina – desde as “Tias” que fundaram o ritmo no Rio, até a coroação de Ivone Lara ao se tornar, em 1965, a primeira mulher a compor um samba enredo e compor a ala de compositores de uma escola. O samba-enredo era “Os Cinco Bailes da História do Rio”, e a escola era sua Império Serrano, que se sagraria vice-campeã naquele ano.

Dona Ivone Lara em desfile do Império Serrano

A compositora em desfile do Império Serrano em 1990 © Wikimedia Commons

Canções de sua lavra, como “Sonho Meu”, “Alguém me avisou”, “Acreditar”, “Sorriso Negro” e “Nasci para Sofrer”, entre outras, se tornariam joias do tesouro musical nacional, regravadas por artistas como Maria Bethânia, Clara Nunes, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Gal Costa e mais. Em 2012 foi homenageada pela Império Serrano como uma rainha – dessas que elevam a qualidade não só da música mas do próprio país.

Nelson Cavaquinho

Se o carioca Nelson Antônio da Silva tivesse composto somente o samba “Juízo Final”, ele ainda assim mereceria estar presente nessa ou em qualquer outra lista – mas Nelson Cavaquinho fez muito mais. A mesma afirmação, afinal, poderia ser feita de forma justa e incontestável a partir de sambas como “A Flor e o Espinho”, “Folhas Secas”, “Eu e as Flores”, e tantos mais. O trágico se impõe sobre o mundano na obra de Nelson, que transforma o simples e o mundano no substrato das profundezas da vida através de sua poética.

Nelson Cavaquinho dividindo o palco com Clementina de Jesus

Nelson dividindo o palco com Clementina de Jesus © Wikimedia Commons

Nelson Cavaquinho era um dos frequentadores do Zicartola, bar fundado por Cartola e Zica que durou somente um ano e meio mas se tornou ponto de encontro histórico – lá Paulinho da Viola lançou sua carreira, e Nelson se apresentou diversas vezes. Seu jeito singular de cantar e tocar o violão ajudou a solidificar a força de seu estilo – que ri mas principalmente chora enquanto explora os pontos luminosos mas também sombrios da sentimentalidade humana em uma obra verdadeiramente brilhante.

Clementina de Jesus

Clementina de Jesus tocando cuíca

Clementina tocando cuíca © Wikimedia Commons

Nascida na cidade de Valença, no interior do estado do Rio, em 1901, Clementina de Jesus é mais um dos tantos casos de artistas que só encontrariam o reconhecimento ou mesmo uma carreira sequer já na segunda metade de sua vida. Dona de um timbre único e inconfundível, e misturando cantos folclóricos e de trabalho, cantigas dos tempos dos escravos, jongo e cantos em iorubá em seu samba, Clementina se tornaria uma das mais importantes artistas no gênero, e também a sublinhar e celebrar a força da negritude no samba e no Brasil.

Clementina ao lado da cantora franco-italiana Caterina Valente

Clementina ao lado da cantora franco-italiana Caterina Valente © Getty Images

Antes de se tornar a “Rainha do Partido Alto”, Clementina por décadas trabalhou como empregada doméstica, até receber o incentivo do compositor Hermínio Belo de Carvalho em 1963. O respeito que rapidamente conquistou entre todos os grandes da música brasileira era não só à grande cantora que surgia para o público aos 63 anos, mas também pelo que representava: a história do povo negro, da cultura africana, da própria música enquanto elemento essencial da expressão humana. Clementina foi homenageada por diversas escolas de samba, e reconhecida como realeza: seu apelido não era “Rainha Ginga” por acaso.

Paulinho da Viola

Paulinho da Viola

Paulinho da Viola é um dos maiores compositores do Brasil © Getty Images

Assim como Beth Carvalho, Paulinho da Viola é um artista “jovem” dentro dessa lista: sua carreira começou “somente” nos anos 1960, mais precisamente no palco do lendário Zicartola. Sua pouca idade então era inversamente proporcional, porém, à dimensão do seu talento e de sua elegância enquanto cantor, violonista e principalmente compositor. Em 1970 o imenso sucesso de “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida” – canção mais tocada nas rádios do país naquele ano – projetaria Paulinho para todo país como um artista que mantinha acesa em alta intensidade a luz do samba.

Paulinho da Viola e Martinho da Vila

Paulinho e Martinho da Vila no início dos anos 1970 © Wikimedia Commons

O repertório de Paulinho da Viola e inteiro irrepreensível e brilhante, e joias de gênio como “Timoneiro”, “Coração Leviano”, “Pecado Capital”, “Dança da Solidão”, “Sinal Fechado” e “Argumento” se juntam à “Foi um Rio…” para oferecer não só a beleza da sua obra como também do próprio ritmo. Paulinho da Viola é verdadeiro poeta: como se imprimisse em suas canções a sabedoria essencial e a beleza total das palavras dos grandes mestres que ele tanto admirou – e dos quais passou a fazer parte.

-Odoyá, Iemanjá: 16 músicas que homenageiam a rainha do mar

História do Samba

A origem do samba é disputada: há quem diga que ele nasceu no recôncavo baiano no século XIX, enquanto outros afirmam que o ritmo foi criado no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, nos anos 1920 – e provavelmente todos estão imprecisamente certos. As “Tias” baianas vieram do recôncavo e ajudaram a sedimentar o ritmo em solo carioca, que viria a se modernizar e ganhar a cara que se tornaria popular já no Rio de Janeiro. O ritmo chegou a ser criminalizado e sofrer repressão policial – contra os sambistas do Estácio e seus violões – mas em seguida se tornaria símbolo nacional.

O sambista Ismael Silva

 Ismael Silva, um dos criadores das escolas de samba no bairro do Estácio © Wikimedia Commons

-Os 100 anos da divina Elizeth Cardoso: a batalha de uma mulher por uma carreira artística nos anos 1940

Os desfiles das escolas de samba

Oficialmente o primeiro samba gravado é “Pelo Telefone”, de Donga, mas esse título é também intensamente questionado e disputado. A associação com o carnaval, o surgimento dos blocos de rua e o desfile das escolas de samba ajudaria, principalmente a partir dos anos 1930, a tornar o ritmo ainda mais popular e aceito – a “Deixa Falar”, fundada pelos sambistas do Estácio como Ismael Silva, em 1928, é considerada a base para as escolas de samba atual. O primeiro desfile competitivo seria organizado pelo jornalista Mario Filho em 1932.

-Os 10 momentos mais politizados da história dos desfiles de escolas de samba do Rio

Influência e sucesso – até hoje

Zeca Pagodinho

Zeca Pagodinho se tornou um dos compositores de maior sucesso no Brasil © Wikimedia Commons

-Gilberto Gil e Jorge Ben Jor voltam a gravar juntos, 44 anos depois de disco histórico

Ritmos de grande sucesso e importância como o pagode e a bossa nova se desdobrariam do samba, e também ajudariam a ampliar a importância dessa expressão cultural no Brasil e em sua história. O samba é até hoje um estilo extremamente popular e celebrado – não só no carnaval e no desfile, mas também na carreira de nomes como Diogo Nogueira, Teresa Cristina, Xande de Pilares, Péricles, Moyses Marques, Dudu Nobre e tantos outros.

Jorge Aragão e Teresa Cristina

Jorge Aragão e Teresa Cristina © reprodução/Instagram

Publicidade

© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.