Diversidade

Travesti pioneira na adoção no Brasil é mãe de 2 meninas trans

Karol Gomes - 13/04/2021

Alexya Salvador é uma pioneira. No país que é o primeiro no ranking mundial de ataques contra LGBTs, segundo a ONG Transgender Europe, ela aposta no amor e na família. Ao lado do marido, a jovem pastora de 37 anos é a primeira mulher trans a conseguir finalizar o processo de adoção no Brasil

Em entrevista a Mariana Gonzalez, do portal UOL Universa, Alexya falou sobre como foi adotar os três filhos – dois deles são crianças trans.

“Sempre tive o sonho de ter filhos. Vim de uma família muito grande e, desde muito jovem, dizia que queria ter pelo menos três. Mas não imaginava que eu seria mãe, muito menos que eu seria a mulher que eu sou hoje. Quando me casei com o Roberto, há 12 anos, fomos nutrindo esse desejo, até que nos sentimos prontos para ser pais”, explicou. 

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Afeto no país da transfobia 

Alexya diz que ficou assustada quando decidiu buscar por histórias de mulheres trans ou travestis qque a primeira busca por histórias de mulheres trans ou travestis que tinham passado por um processo de adoção. Ela não encontrou nada relacionado. Sua advogada, Cecília Coimbra, é especialista em adoção há mais de 18 anos, confirmou que ela poderia ser a primeira a alcançar este sonho. 

E assim aconteceu. Em 2015, Gabriel, que é um menino com necessidades especiais, foi o primeiro a chegar na família por meio do Cadastro Nacional de Adoção. Alexya comemorou também o cuidado da juíza, que usou seu nome social nos documentos de adoção. 

Enquanto Alexya e Rodrigo curtiam a chegada de Gabriel, o telefone tocou. Era a juíza da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes (PE), Christiana Caribé, falando sobre uma criança trans que buscava uma família.

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Depois de meses no processo de adoção, a pedido da menina, o casal foi buscá-la no abrigo com “roupas de menina” para que ela saísse de lá do jeito que se sentia bem. Segundo Alexya, tudo foi como um nascimento.

“Quando eu desci do carro e vi aquele muro alto do abrigo, me deu a sensação de que ela ia nascer. Perguntei para ela qual nome queria usar, e ela pediu que eu escolhesse, afinal, eu já era mãe dela. Eu sempre quis que minha primeira filha tivesse o nome da minha mãe, então escolhi Ana Maria”, contou Alexya ao Universa. 

Alexya estudou teologia e ajuda quem precisa em irgeja de SP

Em 2019, a história se repetiu: o telefone tocou novamente, dessa vez uma menina trans, Dayse, estava à espera de adoção em Santos, no litoral de São Paulo. Uma semana depois, a decisão do juiz deu a guarda dela para Alexya e Rodrigo. Hoje, Dayse e Ana são pacientes no ambulatório de crianças trans do Hospital das Clínicas de São Paulo. 

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Pioneirismo 

Alexya já tinha feito história em sua atuação. A jovem é a primeira reverenda trans da América Latina  e foi pioneira ao estar à frente de celebração da ICM (Igreja da Comunidade Metropolitana) considerada a primeira igreja LGBT do mundo. Com essa premissa, Alexya mantém a porta da igreja onde prega, em São Paulo, sempre aberta para o público que pede ajuda. 

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Alexya foi convidada para ser diaconisa em 2011, na época, ainda como diácono. Depois da ordenação, Alexya formou-se em Teologia. Fez um curso da própria ICM, com duração de quatro anos, e apresentou seu trabalho de conclusão na área da teologia queer — o termo em inglês refere-se aos estudos sobre questões LGBTs. Em 2017, virou pastora.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.