Arte

Aziza: uma editora que só publica autores negros criada por quem entende do mercado

Redação Hypeness - 10/05/2021

A Aziza Editora chegou ao mercado editorial para dar espaço para autores e ilustradores negros. Fundada pela jornalista e editora Luciana Soares da Silva, que trabalha com livros há mais de duas décadas, a empresa recebeu um nome que quer dizer “preciosa” em suaíli, língua banta da família nigero-congolesa, falada como primeira língua na costa oriental e em ilhas do continente africano.

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Livros da Aziza Editora expostos na loja colaborativa Endossa, em São Paulo.

O projeto nasceu no fim de 2019 a partir da percepção de Luciana de como o racismo e o preconceito impediam escritores e ilustradores negros de serem reconhecidos. Hoje, a editora é um espaço para que artistas pretos se sintam à vontade para contar suas histórias de forma digna..

É uma área que ainda guarda um consenso coletivo de que fazer livros é coisa de homem, branco, europeu. Mas se é sempre o outro que conta as nossas histórias, não temos diversidade e a realidade é menos fiel. Acabamos entrando na ‘história única’, como bem avaliou Chimamanda Ngozi Adichie”, contou a editora em entrevista à revista “Conexão Literatura”. 

É a própria Luciana quem seleciona os originais escolhidos para publicação. Alguns deles, ela recebe em um e-mail dedicado exclusivamente para receber material de quem desejar ser avaliado pela editora. O endereço é originais@azizaeditora.com.br

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A fundadora e proprietária da Aziza Editora, Luciana Soares da Silva.

O primeiro lançamento da Aziza aconteceu em dezembro de 2019, quando foi publicada a Coleção “Griôs da Tapera”, da escritora Sinara Rubia. A autora se dedicou a repassar histórias contadas por griôs em quatro volumes voltados ao público infantil. Outro trabalho já publicado é “Do Órun ao Áiyé — a criação do mundo”, de Waldete Tristão com ilustrações de Rodrigo Andrade, sobre o começo do universo sob a perspectiva iorubá. 

Há tantos anos no mercado editorial, Luciana ficou inconformada ao perceber que, mesmo em quase 20 anos, nunca havia editado ou coordenado a produção de um livro de autoria preta. No blog da editora, ela conta que teve experiências incríveis ao trabalhar com livros, mas não poderia ficar inerte ao fato de que a representatividade preta não estava em nenhum deles.

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A história do nascimento da Aziza Editora não é resultado de herança patrimonial nem de um dom ou sonho descoberto na mais tenra idade. É resultado de uma urgência. É urgente que as crianças pretas e não pretas e que os adultos pretos e não pretos tenham acesso às histórias e às culturas pretas, formadoras, sim, da nossa sociedade, por mais que muitos queiram apagá-las. Histórias e culturas riquíssimas e complexas, que não começaram com a escravização de nossos corpos e não se restringem a isso”, escreve.

Ela observa que, de acordo com uma pesquisa publicada no livro “Literatura Brasileira Contemporânea: um território contestado”, de Regina Dalcastagnè, 93,8% dos autores publicados à época do lançamento, no país, eram brancos, e 72% eram do sexo masculino.

Se isso não é um completo e revoltante absurdo, eu não sei o que é. Não há interesse em diversificar as narrativas. E, quando há (os 6,2% restantes, destinados a todos os não brancos), uma boa parcela parece estar de olho apenas em um filão de mercado, e não em uma sociedade verdadeiramente antirracista e diversa”, conclui. 

 

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Fotos: Luciana Soares da Silva/Aziza Editora


Redação Hypeness
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