Debate

Brasil é o país onde 81% veem racismo, mas apenas 4% admitem discriminação contra negros

Karol Gomes - 13/05/2021

Neste dia, há 133 anos, a princesa Isabel, da monarquia ainda regente no Brasil, assinou a Lei Áurea, permitindo assim a abolição do trabalho escravo no país. Parece simples a história contada na educação básica até hoje e repassada pela mídia, mas não foi bem assim. Ainda vivemos, em pleno século 21, sequelas de uma decisão que não foi tomada pelos motivos esperados.

O então império português não foi foi gentil ao supostamente libertar os negros. A abolição foi uma decisão tomada após pressão de movimentos negros, concentrados em quilombos e que tinham Zumbi dos Palmares como principal liderança. 

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Intervenção na Avenida Paulista, SP, como protesto a morte de João Alberto do Carrefour de Porto Alegre

Os ancestrair negros ajudaram a construir um Brasil com maioria negra – 54% da população segundo dados de 2020 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – mas ainda é preciso lutar contra a mentalidade escravocrata deixada pelos monarcas há mais de cem anos e que coloca esta porcentagem como “minoria”. 

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pelo Carrefour, mostrou que o Brasil é um país que se reconhece como racista. Ao mesmo tempo, apenas 4% dos 1630 entrevistados em 72 cidades do país admitiram que já praticaram atos racistas. A mesma pesquisa indica que 61% dos entrevistados já presenciaram uma pessoa negra (preta ou parda) sendo humilhada e discriminada devido à sua raça/cor em lojas, shoppings, restaurantes ou supermercados. 

Mea culpa racista

Os resultados fazem com que o Carrefour, que encomendou a pesquisa, olhe para dentro de suas práticas diárias no varejo. A atitude de mapear o racismo institucional no Brasil parte do caso de João Alberto, assassinado num linchamento dentro de uma unidade do supermercado em Porto Alegre, em novembro do ano passado, em pleno Dia da Consciência Negra

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Protestos contra a morte de João Alberto em frente ao Carrefour de Niterói, RJ

João Alberto foi linchado e assassinado por Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva – dois seguranças do Carrefour em Porto Alegre, que o identificaram como uma ameaça. Em abril deste ano, a rede internacional informou, por meio de nota, que ofereceu à viúva da vítima, Milena Borges, uma indenização de mais de R$ 1 milhão, que foi recusada. 

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Protestos em Belo Horizonte também foram incentivados pela morte de João Alberto

Desde então, o Carrefour vem tomando ações com o intuito de limpar sua imagem com o público, que demonstrou revolta diante do caso de João Alberto. Além da pesquisa do Locomotiva, o CEO da rede no Brasil, Noel Prioux, gravou um vídeo publicitário em que se desculpou publicamente.

Exsite ainda o site da campanha #NãoVamosEsquecer, que tem como proposta dar transparência à atuação da empresa diante do caso. A atrocidade cometida por funcionários do Carrefour contra um homem negro é cruel demais para ser esqucida. E a Justiça por João Alberto?  

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Fotos: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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