Inspiração

‘Desejo que a Maria enfrente um mundo menos cruel com as mulheres’, diz Fabi Alvim sobre filha

Rafael Oliver - 10/05/2021

Fabi Alvim é bicampeã olímpica de vôlei pela seleção brasileira. Saiu de um bairro humilde na Zona Norte do Rio e chegou ao lugar mais alto do pódio. Levou para casa a cobiçada medalha de ouro nas edições de Pequim 2008 e Londres 2012. Ganhou dezenas de outros títulos pela seleção e pelos clubes em que atuou. É considerada por muitos a melhor líbero da história do vôlei feminino de todos os tempos. Aposentada em 2018, depois de 20 anos dedicados ao esporte, a ex-jogadora mudou os rumos de sua carreira e agora encara um novo desafio: foi contratada como comentarista esportiva da Globo e está escalada para o time que fará a cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Mas apesar de tantas conquistas no vôlei e agora na TV, o maior orgulho de Fabi está em casa, longe das quadras e das câmeras: é sua filha, Maria Luiza, fruto do relacionamento com sua esposa, a gerente de seleções da Confederação Brasileira de Vôlei Julia Silva. 

Fabi e Julia estão juntas há sete anos e sempre tiveram o sonho da maternidade. Foi através da ciência que ele se concretizou. Julia  ficou grávida após um tratamento de fertilização in vitro feito numa clínica brasileira. Fabi então conquistou o único título que ainda faltava: o de ser mãe. Para falar sobre essa nova fase da sua vida familiar e profissional, ela bateu um papo com o Hypeness, que você confere a seguir. 

Hypeness: Como é sua rotina de mãe junto com a Júlia? Formam um bom time para cuidar da Maria?

Fabi: A nossa rotina no meio da pandemia acabou sendo muito dentro de casa. Saímos pontualmente para trabalhar e quando estamos em home office tentamos nos organizar e revezar quando é necessário um pouco de silêncio. Conseguimos enfrentar os desafios e imprevistos com muita parceria e companheirismo. Nunca vivemos um momento como esse, então estamos nos adaptando e aprendendo na criação da Maria. Acho que o mais importante é compartilhar nossas dificuldades, entendendo que a pandemia é algo novo para todo mundo e que vamos conseguir passar por isso juntas. 

Hypeness: Com a pandemia, você está acompanhando de pertinho os primeiros grandes momentos da Maria Luiza. Por outro lado, tem que lidar com o confinamento e precisa ter cuidados redobrados. Afinal, como é ser mãe durante um período tão caótico?  

Fabi: Com certeza é um dos momentos mais tristes da nossa história. Lembro de ter visto algo sobre pandemia só em livros. Nunca imaginei que pudesse viver uma catástrofe deste tamanho. Fazendo as coisas com receio, sentindo muito a ausência de pessoas que a gente gosta, a troca de afeto e a saudade de um abraço. Tivemos de rever muitas coisas, compartilhar tudo virtualmente, se solidarizando com as inúmeras famílias que perderam parentes. Estamos emocionalmente muito abalados, mas ao mesmo tempo, com essa necessidade de se confinar e estar em casa, acabamos vivendo momentos que, sem a pandemia, talvez não estivéssemos tendo. Tive a oportunidade de acompanhar os primeiros passos, estava ao lado no primeiro dia em que a Maria andou, as primeiras palavras, acompanhamos a evolução com uma riqueza grande de detalhes. Mas ao mesmo tempo tivemos que nos reinventar, já que a Maria é uma criança em desenvolvimento e tem pouco ou nenhum contato com outras crianças. Temos aprendido muito dentro de casa, e vivendo esses momentos inesquecíveis, que no dia a dia, talvez a gente não tivesse a oportunidade de viver.  

Hypeness: O tratamento de fertilização in vitro foi o grande aliado para a realização de um sonho seu e da Júlia? Espera que outras mulheres se inspirem e realizem o sonho de serem mães através da ciência?  

Fabi: Sempre tive o sonho de ser mãe e não tinha definida a forma como seria, se eu engravidaria ou nós adotaríamos. Mas sempre quis muito, passar por essa experiência, esse sonho, de dividir as coisas com a Júlia, aumentar a nossa família e ter alguém que representasse a extensão do nosso amor. A ciência veio para ser uma aliada e ajudar muito neste sentido. Não só aos casais homoafetivos, mas também os heteronormativos, que tem dificuldade de engravidar e realizar esse sonho. Espero sim que as pessoas se inspirem a passar por essa experiência, acompanhar tudo desde o nascimento, uma história muito bonita de cumplicidade e, claro, todos os medos e anseios. Falar da ciência, neste momento de gratidão, por tudo que tem sido feito no meio desta pandemia, é um reconhecimento enorme da contribuição que a medicina e a ciência tem feito na realização dos nossos sonhos e na contenção do avanço da doença também. 

 Hypeness: Como líbero, você observava muito as jogadas, precisava antever o que iria acontecer. E como mãe, também utiliza essas suas habilidades? É aquela mãe atenta, protetora?  

Fabi: É muito difícil desconectar a líbero da Fabiana no dia a dia. As minhas vivências dentro do esporte certamente se estendem, e mesmo tendo encerrado um ciclo dentro das quadras, o esporte moldou o meu caráter e ensinou muita coisa. Mas tento não ser exigente, não só com a Maria, mas de uma maneira geral. Digamos que eu ‘baixei o sarrafo’, e agora quero aprender com ela, estar junto nos desafios. Naturalmente sou uma pessoa atenta, então fico observando cada detalhe, como é a personalidade dela. Tenho muita curiosidade de saber como ela vai ser, mas tudo com muito afeto, amor, sem pressão e diminuindo as expectativas, para que as coisas sejam naturais. Sou uma mãe alerta, mas ao mesmo tempo, deixo as coisas acontecerem. Acho que essa liberdade é importante para o aprendizado e desenvolvimento. Se caiu, pode se levantar algumas vezes sozinha ou comigo do lado. É importante essa troca e ela ter as experiências de desafiar e desbravar as coisas. 

Hypeness: Acredita que a geração da Maria Luiza terá menos resistência do que a sua com relação às mulheres no esporte?  

Fabi: Talvez esse seja o meu maior desejo, que a Maria enfrente um mundo menos cruel com as mulheres. Torço para que ela seja uma menina contestadora, desbravadora e que vá à luta pelo que deseja. Mas ao mesmo tempo não tenha resistência, em um mundo menos careta e que o lugar da mulher é onde ela quiser. Especialmente na infância, quando as pessoas definem qual é o esporte para o menino e para a menina. Espero que ela encontre pessoas mais abertas neste sentido. Acho que se formos falar de evolução, precisamos encher essa nova geração de esperança e mostrar para eles, através da educação, que é possível viver em um mundo sem bullying, sem diminuir o outro, com uma convivência harmônica e com respeito entre as pessoas. Acredito muito nisso. 

Hypeness: Casais homoafetivos ainda têm dificuldades na hora de registrar os filhos. Como foi com vocês e o que falta para que a sociedade aceite as diferenças de uma vez por todas?  

Fabi: Acho que faço parte de uma camada que acaba sendo privilegiada neste sentido. Não tivemos nenhum problema durante todo o processo. Fizemos em uma clínica, onde já tínhamos informações prévias sobre o que era necessário para poder registrar a Maria com duas mães. Já tivemos um avanço significativo na sociedade, mas ainda tem muita coisa para acontecer. De um modo geral, escuto muitos relatos de mães e pais, sobre essa dificuldade, a ausência de informações e a invisibilidade das famílias homoafetivas. Apesar das coisas caminharem lentamente, precisamos avançar e acho que minha contribuição é tentar mostrar para as pessoas, com muita naturalidade, que nós somos uma família de duas mães, com uma filha e que vamos seguir no nosso lugar de luta, contribuindo para o debate e a inclusão dos casais homoafetivos. 

 Uma mulher batalhadora, que nunca escondeu sua orientação sexual, com tanto sucesso na carreira esportiva, com certeza já inspirou muita gente. Agora, como comunicadora, pretende inspirar ainda mais garotas a se inserirem no meio esportivo, a conquistarem posições de poder?

Fabi: Eu sempre tive esse incômodo. Era como se sentisse falta de ter uma mulher como treinadora. Nas categorias de base, tive o privilégio de trabalhar com a Heloisa Roese e com a Isabel Salgado, em duas oportunidades como comandante. Mas ainda é muito esporádica a presença feminina nestes cargos de comando. Logo que pensei na possibilidade de parar, pensei em estudar para ser treinadora, mas em seguida veio esse convite para me tornar comentarista e hoje, apesar de já termos ocupado um lugar muito legal, ainda somos minoria. Aceitei o desafio justamente por ter essa missão, de querer ser uma grande comentarista, fazer tudo bem-feito e inspirar novas gerações. Espero que a menina que esteja assistindo a um jogo, se inspire a jogar vôlei, mas que também queira muito mais, ocupar mais espaços, porque é ela quem vai decidir onde ocupar. Espero que, ao longo da minha carreira, e agora fora das quadras, tenha inspirado algumas gerações de mulheres.  

Em diversas ocasiões você faz questão de falar sobre suas origens, sobre Irajá, (bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde Fabi nasceu), seu pai taxista, sua mãe manicure. Sua mãe teve um papel fundamental para sua formação? Te inspirou a se tornar uma mulher forte, determinada?  

Fabi: Não tenho a menor dúvida. Meu pai abriu mão de um convívio diário para poder trabalhar e dar uma vida melhor para todos nós. Eles trabalharam muito, mas a minha mãe, por ser manicure, acabava trabalhando mais em casa, então tínhamos mais troca. Ela é um grande exemplo de uma mulher de fibra, determinada, que se multiplicava por mil para cuidar da família, dos nossos estudos, e ao mesmo tempo sempre foi uma grande incentivadora do esporte na minha vida. No início a gente não tinha ideia de que eu viraria uma jogadora profissional, mas era ela sempre quem ficava acordada, me esperando chegar dos treinamentos e fazia aquele lanche para levar. Depois se tornou minha fã, acompanhava todos os jogos, as finais, e sempre tinha uma palavra acolhedora amiga, não só nos momentos felizes, mas nos difíceis também. Era uma fã muito presente e com certeza a mais especial que tive na minha trajetória, além de ser uma mulher que me inspirou não só dentro das quadras, mas agora, também na função de mãe.

De todos esses, qual foi o maior desafio até hoje: ganhar as olimpíadas, virar comentarista esportiva ou ser mãe?  

Fabi: O atleta vive de desafios. Parei de jogar, mas continuo me desafiando agora dentro desta área de comentar e me comunicar com as pessoas. Tenho a mesma persistência, preparação e frio na barriga. Olho a minha escala semanal e dali já começa uma preparação, como se fosse de fato entrar em quadra. Gostaria, sim, de contribuir para a evolução do esporte, fazer com que cada vez mais as pessoas entendam as regras, difundir e alcançar aquelas crianças que estão na frente da TV, despertando o interesse. Mas não faço isso pensando em um reconhecimento, e sim como uma contribuição. Sigo até hoje me desafiando, querendo conhecer cada vez mais como funciona a dinâmica da TV, apresentar quadros, por exemplo. Tenho uma sede por aprendizado, de consumir cada vez mais conhecimento e isso é muito legal. 

Você é considerada por muitos a melhor líbero da história do vôlei feminino. Foi bicampeã olímpica. Você é referência no vôlei. E agora, na nova carreira como comentarista, também sonha em ser reconhecida como uma grande comunicadora? 

Fabi:  O meu objetivo sempre foi me doar por completo, fazer as coisas que me proponho sempre com o coração, com 100% de intensidade. E a minha ideia é poder, quem sabe, aproximar as pessoas deste esporte que eu tanto amo, passando um pouco das minhas vivências e experiências dentro da quadra. Trazer boas histórias, que possam tocar as pessoas, e me comunicar de fato, entender como é essa coisa de entrar na casa das pessoas e conversar com elas da forma mais natural possível. E neste momento, que está tão difícil para todo mundo, se a gente puder tocar e entrar de fato na vida delas, uma que seja, já é o suficiente. 

Crédito: João Cotta/O Globo

 Como está sendo a preparação de vocês para a cobertura do Esporte da Globo nos Jogos Olímpicos?  

Fabi: Comentar os Jogos Olímpicos é um marco, assim como poder jogar uma Olimpíada. Trata-se do auge da carreira de um atleta e de um comentarista. Tenho revisto jogos para estudar alguns adversários, procuro curiosidades das equipes, porque percebi que o público tem muito interesse neste “além da quadra”, como a história dos atletas, e outras coisas que possam agregar dentro de uma transmissão. É uma responsabilidade enorme pegar o microfone e se comunicar com as pessoas que estão assistindo em casa, ainda mais sabendo que os Jogos Olímpicos são um momento de maior audiência do esporte. Venho me preparando para contribuir e viver esse sonho, a caminhada olímpica das meninas, tanto na quadra, quanto na praia.

Adiado por 12 meses devido a pandemia de coronavírus, os Jogos Olímpicos de Tóquio começam a partir de 23 de julho. Fabi estará no time de comentaristas que acompanharão cada detalhe na cobertura multiplataforma da Globo, na TV Globo, no SporTV, no ge.globo e no Globoplay.

 

 

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Imagens: reprodução/Instagram

Agradecimentos: Fabi Alvim, Luiz Louback Junior, Comunicação Globo.

Dedicado a todas as mães, em especial à minha mãe, Lilian.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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