Empreendedorismo

Faxina Boa: ‘Fiz TEDx, 3 filhos, escrevi livro e esqueci de plantar a porra da árvore’, diz Verônica Oliveira

Gabriela Rassy - 10/05/2021 | Atualizada em - 12/05/2021

“Fiz TEDx, 3 filhos, escrevi livro e esqueci de plantar a porra da árvore”. É assim que a empresária e comunicadora Verônica Oliveira, a mente e os braços por trás do Faxina Boa, canal de conteúdo diverso, empoderador e inspirador no Instagram, se descreve em sua bio.

Ela começou a trabalhar como telemarketing até que, na falência da empresa, perdeu a casa onde morava e foi para um cortiço no Tatuapé, dividindo o espaço com 40 pessoas. Ali, acabou desenvolvendo síndrome do pânico e foi internada em uma clínica psiquiátrica.

Passado o tratamento e se sentindo melhor, foi dormir na casa de uma amiga e, incomodada com a bagunça, deu um trato na casa. A amiga retribuiu pagando pelo serviço e isso acendeu uma ideia na cabeça de Verônica. Se ela ganhasse R$ 150 todo dia, não precisaria mais atender telefone na vida.

Ela passou a entrar em grupos de meninas que ofereciam serviços de faxina, mas em vez de tratar seu trabalho como uma função feita exclusivamente por necessidade, ela falava com humor e orgulho. Montagens com a cara dela em pôsteres de filmes e séries ofereciam o trabalho que ela, sim, gostava de fazer. A repercussão foi boa, o post viralizou e ela decidiu criar a página Faxina Boa para contar do trabalho e do dia a dia, usando do humor para falar de situações por pior que elas fossem.

Ela manja de um monte de assuntos, fala duas línguas, escreveu um livro e chegou, neste ano, a apresentar sua visão otimista – e deliciosa de ouvir – sobre o valor dos trabalhos e serviços no TEDx Talks. Lá ela começa falando sobre como as pessoas se definem pela carreira e como não existe subemprego quando você está fazendo uma coisa que outra pessoa não sabe (ou não quer ou não pode) fazer.

Além de tudo isso, Verônica é mãe. Outra função – uma carreira todinha, por que não? – fatalmente desvalorizada, com livre demanda de comentários e pitacos vindos de pessoas que muitas vezes nem a conhecem.

Falei com essa mulher maravilhosa sobre maternidade, redes sociais e, claro, sobre faxina:

Gabriela Rassy | Você teve sua primeira gravidez aos 17, a segunda aos 28 e agora na reta final de mais uma, aos 39 anos. Como estava sua vida em cada momento?

Veronica Oliveira | É uma diferença muito grande passar por gestações em tantas épocas: uma em 1999, a outra em 2008 e essa, agora, em 2021. Na primeira eu ainda estava na escola e não existiam leis que amparassem as gestantes. Eu me lembro de que era proibido que o pai ficasse na sala de parto junto com a mãe, então fiquei sozinha nesse processo, menor de idade, 26 horas de trabalho de parto normal. Na época a gente não entendia, mas foram coisas super violentas. Eu não fazia ideia dos procedimentos que estavam sendo feitos, nada era explicado. Foi muito, muito, muito assustador. Mas por outro lado, eu ainda tinha o amparo da família, morava com a minha mãe, ganhava mesada, era outra coisa. Na segunda gestação, já entendia melhor as coisas. O pai do meu filho acompanhou o parto, estava junto comigo o tempo todo. Eu já trabalhava, já ganhava mal para caramba, algumas coisas faltavam, algumas coisas vinham com dificuldade. Agora é super diferente. Vou fazer 40 anos mês que vem e o corpo, a cabeça, é tudo muito diferente. A saúde é outra. Não sou a mesma pessoa que pulava na escola, jogava vôlei e fazia uma maior bagunça enquanto estava com o barrigão. Agora tenho que fazer muito repouso e muito mais consultas médicas também. Mas a questão financeira também com certeza é outra. Sabendo da gravidez, me mudei para um apartamento maior, então tenho uma tranquilidade nessa gestação que talvez eu nunca tenha experimentado nas outras. A médica passa um remédio, eu desço do consultório com a receita, entro na farmácia e compro. Quando eu me liguei da facilidade de fazer isso, foi um choque. Das outras vezes eu tinha que pedir para a mãe, para um amigo ajudar. São situações muito diferentes.

GR | Qual sua expectativa para esta última etapa da gravidez, em meio à pandemia?

VO | A gravidez, além de não ter sido planejada, por ter acontecido nesse contexto louco da pandemia, fez com que muitas coisas também fossem diferentes e não pudessem ser curtidas da mesma forma. Não teve nem uma visita de amigas, não teve chá de bebê e não teve a mesma proximidade do pai, que trabalha com atendimento ao público, daí fica cada um na sua casa. Em consultas médicas, a gente mantém um certo distanciamento porque ele já se contaminou, então rolou um baita de um medo. Eu tive a sorte de até agora não ter sido contaminada nenhuma vez, então a gente fica bem assustado. Não teve aquela emoção de experimentar roupa e olhar as coisas. É comprar tudo pela internet e torcer pra chegar a uma coisa boa. Agora, tenho medo. Tem a questão da vacinação, a ansiedade de saber se vai poder vacinar ou não; tem a questão da mortalidade enorme de gestantes e recém nascidos; a escolha do hospital, escolher um que não atenda casos de covid, que seja só a maternidade; pesquisar se tem casos de contaminação. É muito doido pensar em tudo isso. É uma situação completamente atípica, estranha, mas que a gente vai tentando levar e pensando “tomara aqui no primeiro ano dela, a gente possa ver pessoas”. E é uma maluquice pensar em mais um ano vivendo isso.

GR | Tem muita gente que dá pitaco nas suas decisões em relação à maternidade? Como você lida com essas (tentativas de) interferência?

VO | A partir do momento que a gente topa expor a vida nas redes sociais tem que saber que as pessoas vão se sentir tão próximas que acabam se sentindo no direito de dar pitaco ou de falar coisas – que às vezes são desnecessárias ou rudes. Tem muita gente sem noção. A partir do momento que eu tenho ali 300 mil seguidores olhando o que eu estou fazendo, tem muito pitaco, muita opinião, todo mundo sabe tudo. Às vezes leio e dou risada. Hoje, eu que já sou mãe há 21 anos, sei que tem muita coisa diferente, mas o instinto materno não muda e a gente sabe o que é melhor para a gente e para os nossos filhos. Da mesma forma como a minha mãe lavou fralda de pano, eu usei fralda descartável e hoje tem a moda da fralda ecológica. Tem uma cobrança de como eu vou fazer as coisas. Eu fico imaginando o quanto eu vou expor, a partir do nascimento da Olívia, justamente por medo de tudo virar um motivo de discussão, porque claramente não é o tipo de coisa que eu vou precisar ou querer no puerpério – que já é um período difícil pra caramba. A gente sabe que qualquer escolha que a mãe fizer, ela vai ser julgada. Quanto menos eu puder expor, menos o julgamento vai ter e menos dor de cabeça, por consequência, eu vou sentir.

GR | Qual o maior desafio em conciliar trabalho e maternidade? Como você sentiu isso com seus 2 primeiros filhos e como se sente agora?

VO | Na minha primeira gestação eu tive que conciliar com a escola, porque eu ainda estava no ensino médio, e não foi difícil porque eu morava com a minha mãe, nós dividimos ali as tarefas e ela me ajudava muito. E, até uma curiosidade, porque a minha irmã e a minha filha tinham idades muito próximas. Assim que minha mãe teve o bebê, eu descobri que estava grávida. Quando uma precisava fazer alguma coisa, a outra cuidava das duas meninas. Foi um apoio muito bom que uma deu para a outra. Quando meu filho nasceu, algum tempo depois eu já comecei a trabalhar e é uma coisa muito complicada isso de precisar de apoio. Ter alguém que te ajude, que você confie para deixar o seu filho. Meus filhos não chegaram a ir para a creche, mas eu sempre dependi de algum familiar para poder cuidar deles. E nesse momento eu estou tão tranquila porque fazendo produção de conteúdo para as redes sociais, eu trabalho em casa. Todas as palestras que eu faço são online. Estou em casa e estou tranquila. Vai ser uma situação totalmente diferente de quando eu tive o Panda e eu precisava sair da periferia com um carrinho de bebê, entrar no ônibus lotado, deixar ele na casa da minha tia no centro, ir trabalhar num call center no Vale do Anhangabaú, para depois buscar ele e voltar pra casa. Era uma loucura. Tenho uma noção tão grande de que agora vai ser muito mais tranquilo, mas ao mesmo tempo já estou preparada para que seja solitário justamente por não ter essa coisa das visitas, da ajuda dentro de casa. Essa parte vai ser um pouquinho mais triste, mas tem o pai que vai estar do lado pra para suprir essa parte.

GR | Por que você acha que os serviços mais essenciais ainda são desvalorizados? Você fala com seus filhos sobre esse tema? Como eles enxergam seu trabalho?

VO | Eu acho que as pessoas têm absoluta noção da necessidade e da importância desses trabalhos, que hoje até hoje são chamados de sub empregos, mas pela questão da não-necessidade de um diploma ou sei lá eu porque, pela cultura que a gente tem, pela herança da escravidão, que é tão recente pra gente ainda, tem essa coisa de achar que não é importante, que não precisa dar valor e esse valor não é só o valor de grana é um valor mesmo diante da consideração. Vem desde de não chamar a pessoa pelo nome, de não responder um ‘bom dia’, até pagar muito pouco e pedir desconto e às vezes nem pagar por trabalhos que são tão essenciais e importantes. Afinal de contas, se você está precisando é uma coisa importante. Ponto. É bem complicado ver o quanto as pessoas ainda conseguem dividir os outros entre “fulano tem um diploma e fulano não tem, logo o que tem diploma é melhor” e a gente sabe bem o quanto tem gente panaca com o diploma. Então é complicado fazer essa mudança de visão das pessoas e por isso mesmo eu converso muito, não só da minha produção de conteúdo, mas dentro da minha casa. Meus filhos são super orgulhosos do que eu faço. Hoje eu paro para pensar e acho que meus pais ficaram muito preocupados quando eu comecei e depois eles mesmos foram mudando essa visão. Hoje eles falam sobre isso com um baita de um orgulho. Só que é interessante como os meus pais rolou o medo e pros meus filhos não. Então a gente vê como a diferença na forma da criação. A diferença de geração faz com que essa visão vá mudando e aqui em casa não tem diferenciação na hora de dividir os trabalhos domésticos. Nunca é castigo, nunca é falado como se fosse uma coisa ruim. A questão aqui é a gente valorizar o lugar que a gente mora todo mundo ajudar todo mundo porque é todo mundo fazer a sua parte. Não é nem questão de ajudar. É importante que todo mundo fique muito ciente de que a manutenção do bem estar da casa é obrigação de todos. É assim que a gente consegue manter as coisas funcionando com a consciência da importância desse trabalho.

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Fotos: Cauê Paz/Divulgação e Reprodução @faxinaboa


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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