Arte

Nelson Sargento se foi aos 96 anos com história entrelaçada ao samba e Mangueira

Vitor Paiva - 28/05/2021 às 09:47

Morreu aos 96 anos no Rio de Janeiro o cantor e compositor Nelson Sargento, e com ele se vai um tanto da história do mais importante gênero musical da cultura brasileira. Presidente honorário da Estação Primeira de Mangueira e personificação do samba em sua elegância, força e beleza, Nelson Sargento era também pesquisador, artista plástico e escritor, e foi internado no Instituto Nacional do Câncer (Inca) no último dia 21, quando foi diagnosticado com a Covid-19 – além da idade, o artista sofreu com um câncer de próstata poucos anos atrás.

Nelson Sargento

“Seu Nelson” foi sinônimo da elegância e da força do samba © Wikimedia Commons

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Nascido em 25 de julho de 1924, Nelson Mattos ganhou o apelido de Sargento após uma passagem pelo exército. Em 1942 começou a escrever sua história de sucesso e brilho dentro do mundo do samba – e da Mangueira – ao passar a fazer parte da ala de compositores da escola. Aos 31 anos compôs o samba-enredo “Primavera”, também conhecido como “As Quatro Estações ou Cânticos à natureza”: Considerado por muitos um dos mais bonitos da história dos desfiles, o samba feito em parceria com Alfredo Português levou a tradicional escola carioca ao vice-campeonato, em 1955.

Nelson Sargento

Nelson Sargento nasceu somente quatro anos antes de sua Mangueira do coração 

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Autor do clássico “Agoniza, Mas não Morre”, Nelson Sargento se engajou por toda sua vida na causa da arte popular e na importância do samba no país, tendo participado do musical “Rosa de Ouro” e do conjunto “A Voz do Morro”, a partir de 1965, ao lado de outros gigantes como Elton Medeiros, Zé Keti, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e outros. Sargento compôs com nomes como Cartola, Carlos Cachaça, João de Aquino, Daniel Gonzaga e tantos outros, e trabalhou também como ator em filmes de Walter Salles, Cacá Diegues e Daniela Thomas.

Elenco do espetáculo 'Rosa de Ouro', de 1965

Elenco do espetáculo ‘Rosa de Ouro’, de 1965: Elton Medeiros, Turíbio Santos, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida e Aracy Cortes

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O falecimento de Nelson Sargento por conta da Covid-19 se deu apesar do artista ter tomado as duas doses da vacina: vale esclarecer, porém, que se trata de um evento raro porém possível, já que cada corpo reage de forma diferente a medicamentos, que as comorbidades influenciam diretamente em cada quadro, e que a vacina não impede a infecção, mas age pela redução da gravidade dos efeitos da doença na absoluta maioria dos casos. A última aparição pública do artista foi em fevereiro, no Museu do Samba, na assinatura de um manifesto em defesa do carnaval.

Nelson Sargento

A última aparição de Nelson, no Museu do Samba, em fevereiro © Raphael Perucci/Museu do Samba

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Nelson Sargento é também autor dos livros “Prisioneiro do mundo” e “Um certo Geraldo Pereira”, e sua história de vida se confunde com a história da Mangueira e do próprio samba, que perde muito com a partida do artista, mas ganha ao infinito com herança do trabalho e da vida de um dos mais importantes artistas do gênero no Brasil.

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© fotos: Instagram Nelson Sargento/créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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