Decoração

Três reis e uma rainha. Como seriam as casas dos monarcas se eles vivessem em 2021?

Redação Hypeness - 17/05/2021

Às vezes não parece, mas reis e rainhas são gente (quase) como a gente. A crise entre Harry e Meghan Markle e a família real inglesa foi só mais uma prova disso. Os monarcas vivem num mundo paralelo, mas têm as dúvidas, os medos, os desejos e os gostos de qualquer ser humano.

Tanto a governação como a personalidade dos monarcas são profundamente marcadas pelo momento histórico que tiveram a sorte ou o azar de enfrentar. E se todas as casas refletem a personalidade de quem lá vive, com os reis e as rainhas não é diferente. É isso que queremos mostrar aqui, mas fazendo o caminho inverso: primeiro olhamos para a personalidade dos monarcas, depois imaginamos como seriam as suas casas e palácios se tivessem nascido uns séculos mais tarde.

Pedimos ajuda ao investigador e historiador João Ferreira, autor de vários livros sobre estas figuras, como o “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”. E escolhemos quatro monarcas: três reis e uma rainha, para ter as doses certas e equilibradas de poder, importância histórica, coragem, superação, traição e gritaria.

Criado pelo Imovirtual, cada detalhe e objeto de decoração nas imagens representa um traço de personalidade, uma tara ou mania dos reis. É como um Big Brother da família real, em que eles não nos veem, mas nós estamos sempre a espreitar pelo buraco da fechadura. Vamos a isso:

1. AFONSO HENRIQUES: O guerreiro das pernas finas

É o primeiro rei de Portugal, o mais conhecido entre os conhecidos, o nome que vem logo à cabeça de qualquer português sempre que se fala em monarquia. O “Pai da Pátria”, “Rei dos Portugueses”, o homem que ninguém sabe bem quando e como nasceu, mas de quem todos conhecem o legado: a criação de um país no ponto mais ocidental da Europa.

Mas quem era, afinal, esse tal Afonso Henriques? Que personalidade se escondia por trás das armaduras de ferro? E como é que essa personalidade seria se o rei tivesse nascido uns séculos mais tarde?

Ouvimos o investigador e historiador João Ferreira, autor de vários livros sobre a monarquia portuguesa, para tentar imaginar onde e como gostaria de viver em 2021 esta figura tão afamada e desconhecida ao mesmo tempo. O Imovirtual fez o resto, imaginando a casa, os objetos, os detalhes. Este artigo faz parte de uma série maior, que inclui outros três monarcas marcantes da história de Portugal, e até do Brasil: D. Dinis, D. João V e D. Maria II (essa mesmo, nascida lá no Rio de Janeiro).

A tarefa com D. Afonso Henriques não é simples. Se todas as histórias se vestem de lendas, crenças e mitologias, a vida deste rei está ainda mais cheia delas. A começar pelos dias depois de ter nascido.

Conta-se que o menino Afonso brotou “muito fraquinho” do ventre da mãe, D. Teresa de Leão. “Tinha as pernas tortas, coladas, empecidas, como se dizia na altura”, explica o historiador João Ferreira. Ora, “um bebé que nascesse assim nunca poderia andar a cavalo, o que fez com que D. Teresa e o conde D. Henrique [de Borgonha, o pai] chorassem e rezassem muito”. No Portugal medieval daquela época, não havia mal que a religião e a fé não resolvessem.

Os pais decidiram pedir ajuda ao aio Egas Moniz, “guerreiro muito respeitado”, que levou o menino com orações e promessas à Nossa Senhora de Cárquere, em Resende, não muito longe do lugar onde Afonso Henriques nasceu (tema polémico, já lá vamos).

Certo é que, quando voltou para os pais, na casa-castelo onde viviam em Guimarães, Afonso Henriques veio “um menino ótimo, saudável”, que em breve cresceria e se tornaria “um matagão, capaz de manejar enormes e pesadas armas”. Onde está então o mito? “Diz-se que o menino pode ter sido trocado”, confidencia João Ferreira.

A devoção de Egas Moniz a D. Afonso Henriques ao longo da vida foi tão grande que se adensou a desconfiança de que aquele fosse, afinal, o seu filho biológico, e que, na verdade, Egas Moniz tenha ficado com o rebento dos condes, o tal das pernas tortas, para evitar problemas à família.

Com ou sem trocas no berço, com ou sem intervenção divina, a força, a coragem e a bravura marcaram a vida e o reinado de D. Afonso Henriques. De outra forma não poderia ser: na Europa do século XII, só chegava a chefe militar quem reunisse todas essas características. E D. Afonso Henriques foi um dos mais destacados chefes militares da época.

Entre as várias batalhas, destacam-se os momentos em que as suas tropas cercaram duas cidades — um resultou em vitória, o outro nem tanto:

  • Cerco de Lisboa. Aconteceu em 1147 e significou a reconquista cristã da Península Ibérica aos mouros. Graças a essa vitória, Afonso Henriques passou a ter um amor especial pelo Castelo de São Jorge, na capital. “Foi uma acção militar muito importante, quer do ponto de vista político e diplomático, quer logístico, que durou semanas e contou com a participação do numeroso exército internacional de participantes na 2ª Cruzada, que o ‘lobby’ diplomático convenceu a combater em Portugal antes de seguirem viagem para a Terra Santa”, detalha João Ferreira. 
  • Cerco de Badajoz. Já mais velho, em 1169, D. Afonso Henriques entra por Badajoz para conquistar o coração da Andaluzia, mas pouco tempo depois, as tropas portuguesas são cercadas. O rei ordena a retirada e, no momento em que foge, cai do cavalo, batendo com a perna direita (que a lenda também diz que era a perna fraca do rei) e é apanhado pelas tropas de Fernando II de Leão, seu genro (tinha casado com D. Urraca, filha de Afonso Henriques). Para sair dessa, D. Afonso Henriques teve de restituir as praças conquistadas aos leoneses, Trujillo, Cáceres e Montánchez. Foi o princípio do fim de um dos maiores militares do seu tempo.

 

Além das batalhas físicas, há uma batalha narrativa e histórica com séculos de existência: onde nasceu Afonso Henriques? A historiografia tradicional foi sempre apontando Guimarães como berço da pátria e do próprio Afonso, mas a contemporânea, confirmada nos anos mais recentes pelo trabalho do reputado historiador José Mattoso, dizem que o local de nascimento poderá ter sido Viseu. João Ferreira arruma a polémica assim: “Afonso Henriques é certamente um minhoto de Guimarães ou um beirão de Viseu”.

No seu enorme peito cabem duas cidades. Porém, a primeira é a que ocupa mais espaço. Se fosse hoje, Afonso Henriques não seria rei, mas também não teria dúvidas em regressar ao castelo da sua vida e ter uma morada com paredes de pedra no centro de Guimarães. Não seria estranho vê-lo a exercitar o corpo na muralha ou a organizar maratonas com passagem pelos principais espaços da cidade, como o Largo da Oliveira, sem medo de ser notado (é, ele também teria lá o seu ego). Mais difícil seria ver o rapazinho das pernas finas de copo da mão numa discoteca. Afonso Henriques é um homem ocupado, sem tempo a perder e sem calorias a mais para queimar.

Se fosse em 2021, Afonso Henriques não seria rei, mas continuaria a querer viver numa casa na sua cidade de sempre: Guimarães. Gostaria de ser vizinho de Afonso Henriques? Então veja opções de moradias à venda em Guimarães

É importante lembrar que Afonso Henriques ficou órfão de pai ainda em criança. Não se sabe exatamente com que idade, porque a data de nascimento do rei ainda é disputada pelos historiadores (1106, 1109, 1111?). E isso é importante também: há muita informação incerta acerca de D. Afonso Henriques, inclusive as mais básicas, como a data de nascimento ou a aparência física. Sabemos, porém, que teve sete filhos, um deles futuro rei, D. Sancho I (havia um herdeiro varão mais velho, mas morreu em criança).

Também sobre a família, há uma lenda que nunca larga a vida deste rei: a de que bateu na mãe. Há até versões que dizem mesmo que a matou, embora não seja bem esse o caso. Na tarde de 24 de junho de 1128, deu-se a famosa Batalha de São Mamede (em Guimarães, mais uma vez), que João Ferreira lembra que não foi bem uma batalha, “pelo número relativamente reduzido de efetivos que mobilizou”. De um lado, “portugueses”, do outro lado, “galegos”, a disputar o território que haveria de ser Portugal. De facto, Afonso Henriques e a mãe estavam em barricadas opostas, já que D. Teresa não só apoiava as tropas do Conde galego Fernão Peres de Trava como era sua amante, namorada, o que quisermos — lembrando que o marido, pai de D. Afonso Henriques, já estava morto.

O fim da história todos sabem sem erro: D. Afonso Henriques liderou as tropas vencedoras, o Condado Portucalense não passou para as mãos dos galegos e o homem que haveria de ser coroado primeiro rei de Portugal ficou para sempre como o “Pai da Pátria”. E Guimarães como o berço dessa pátria.

Ter tido essa relação sui generis com os pais não significa que ele hoje não fosse um homem de família. Pelo contrário, Afonso Henriques seria do tipo leal, para a família e para os amigos, mesmo que isso implicasse dizer-lhes coisas pouco simpáticas — “ele nunca levava desaforos para casa”, nota João Ferreira. No fundo, Afonso seria um jovem de boas famílias, com uma educação centrada nos valores militares e um irreprimível culto e paixão pelo corpo. “Sempre cioso dos seus pergaminhos”, sempre apaixonado pelo país e pelos portugueses, vendendo a todos os turistas em Guimarães a ideia de um país único.

Se o ginásio não fosse a sua grande paixão, o jovem Afonso escolheria o rugby, o desporto que melhor combina a dureza com a lealdade. Só que a vontade de treinar sozinho e de depender só de si próprio e das suas capacidades é mais forte para alguém que cresceu com o estigma da “perna fina”. Se Afonso Henriques, o rei, tinha mais espadas do que cavalos, Afonso Henriques, o vimaranense de 2021, também teria mais halteres do que carros. E faria da garagem um ginásio, especialmente útil para os dias de quarentena.

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A fechar, deixamos mais uma história pitoresca, que dá conta da personalidade do primeiro monarca português. A história do famoso “Bispo Negro”. Numa atitude “quase progressista”, graceja João Ferreira, D. Afonso Henriques, depois de uma disputa com a Igreja e “por querer afirmar a importância e o primado da arquidiocese de Braga contra Toledo e Compostela [Espanha] na Península Ibérica”, despede um bispo de Coimbra e nomeia outro, com uma particularidade: era um homem negro, o que, como recorda João Ferreira, era naquele tempo associado a pessoas escravas e aos próprios mouros que Afonso Henriques tinha combatido.

Mas desengane-se quem pensa que isso é um sinal de que hoje o primeiro rei de Portugal estaria numa marcha Black Lives Matter. “A preocupação era sempre de poder e afirmação, mostrar que quem mandava era ele. Fazia o que quisesse.”

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Fotos: Divulgação


Redação Hypeness
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