Ciência

A meteorologista de 98 anos cuja previsão do tempo mudou o curso da Segunda Guerra

Vitor Paiva - 29/06/2021 | Atualizada em - 01/07/2021

O famoso e celebrado dia do desembarque das tropas dos EUA na Normandia para a entrada do país na Segunda Guerra Mundial se deu em 6 de junho de 1944, conhecida como “Dia-D” e celebrada anualmente desde então. Tal feito, porém, estava marcado para ocorrer um dia antes e com possíveis resultados trágicos para os aliados, não fosse o trabalho de uma então jovem meteorologista irlandesa ao prever o tempo: foi Maureen Flavin Sweeney que aos 21 anos informou a chegada de uma forte tempestade ao Canal da Mancha, que separa a ilha da Grã-Bretanha ao norte da França.

Maureen Flavin Sweeney

Maureen recentemente, aos 96 anos © Irish Times

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Para um desembarque seguro e efetivo um céu aberto era elemento fundamental, e no dia 3 de junho Maureen trabalhava em estação meteorológica no Condado de Mayo, a oeste da Irlanda, quando reparou que o medidor em seu barômetro estava caindo rapidamente, indicando queda na pressão atmosférica e a chegada da tempestade. A estação enviava registros de hora em hora para Dublin, que os reenviava às Forças Aliadas Expedicionárias em Londres, e após ler e reler o barômetro, confirmou: uma tempestade iria atravessar o Canal da Mancha no dia 5. Curiosamente o relatório foi enviado no dia do aniversário de Maureen, quando completou 21 anos.

Maureen Flavin Sweeney

A jovem Maureen, pouco após seu feito durante a guerra © arquivo pessoal

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O relatório levaria o presidente estadunidense General Eisenhower a atrasar o desembarque em um dia, em decisão tomada a partir do trabalho de Maureen, que só tomaria conhecimento do impacto de seu relatório mais de uma década após o fim da guerra. Se muitas vidas se perderam no campo de batalha da Normandia com a chegada das tropas estadunidenses no Dia-D, o quadro seguramente seria muito mais grave, não fosse o trabalho de Maureen, que há pouco completou 98 anos recebendo uma honra oficial do congresso dos EUA pelas mãos do congressista e veterano do exército Jack Bergman.

A torre de onde a previsão foi realizada

A torre de onde a previsão foi realizada © RTE

Maureen Flavin Sweeney

Maureen Flavin Sweeney e seu marido, Ted © arquivo pessoal

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“Sua habilidade e seu profissionalismo foram cruciais para garantir a vitória dos Aliados, e seu legado viverá nas gerações por vir”, afirmou Bergman ao oferecer o prêmio em cerimônia no asilo em que hoje ela vive. A história de Maureen Flavin Sweeney, que no passado sobreviveu à Covid-19 quando estava com 96 anos, lembra a importância e a qualidade do trabalho humano na aplicação e utilização da ciência e da tecnologia, especialmente para fins humanitários – e como todo grande feito como a vitória em uma guerra também é alcançado pelo esforço e a dedicação de muitas pessoas.

Maureen e sua menção de honra pelo congresso dos EUA

Maureen e sua menção de honra pelo congresso dos EUA © Tom Reilly/Irish Times

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.