Debate

Caso Lázaro expõe racismo crônico com associação de religiões negras ao satanismo

Karol Gomes - 18/06/2021

Enquanto o Brasil presencia uma perseguição contra um criminoso digna de filmes policiais, a Polícia Civil do Distrito Federal (PC-DF) e parte da mídia parecem estar seguindo uma pista cega, construída com base em preconceitos ao invés de fatos. 

Fotos de um assentamento de Candomblé foram associadas, de forma preconceituosa, com rituais satânicos e o argumento agora determina uma suposta característica do baiano Lázaro Barbosa, de 32 anos, que está sendo procurado por ser suspeito da chacina que vitimou uma família em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal. 

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Em nota ao G1 emitida na segunda-feira (14), a PC-DF afirma que Lázaro é “satanista”, mas não explica os indícios que os levaram a tal conclusão. Já na quarta-feira (16), o órgão afirmou que uma das vítimas teria sido assassinada por Lázaro em um “ritual satânico” – como provas, fotos de objetos utilizados em cerimônias demoníacas, encontrados perto de um riacho e também no imóvel em que morava a mãe do suspeito, no interior de Goiás.

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Uma das imagens divulgadas pela PC-DF, da casa da mãe do suspeito

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Não precisou muito tempo para que as pessoas notassem que as fotos divulgadas nas redes sociais eram de um assentamento de Candomblé. O Bahia Notícias aponta para o racismo religioso presente em muitos comentários e na abordagem de alguns veículos de imprensa. 

Professor de direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Samuel Vida, que também é ogã de Xangô em um terreiro de Candomblé de Salvador, analisou as imagens a convite do Bahia Notícias.

“Algumas das fotos remetem a alguns elementos da ritualística e da simbologia das religiosidades de matrizes africanas. Se de fato foram encontradas na casa da mãe dele, pode ser um indicativo de que a mãe de Lázaro tem alguma conexão religiosa com esse campo. O que não implica que ele tenha. Não dá para imediatamente estender essa relação e ele”, disse o advogado.

Samuel Vida explicou que os riachos e cachoeiras são locais tradicionais de oferenda praticados pela religião de matriz africana. O advogado ainda levantou a hipótese de que as oferendas encontradas podem não ter qualquer relação com o crime, visto que esses locais são considerados sagrados pelo Candomblé e seria natural encontrar os objetos nas proximidades.

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Como saiu na Imprensa 

O jornal O Globo publicou uma reportagem inteira para esclarecer a confusão da polícia de Brasília, contudo, ainda usou a palavra “satanismo” no título, ainda que entre aspas. Já o G1, inicialmente, publicou a suspeita da polícia sobre o envolvimento do suspeito com o satanismo.

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O G1 emitiu nota se retratando sobre a reprodução de estigmas preconceituosos contra religiões negras brasileiras. A apuração não foi feita previamente, indicando falta de conhecimento sobre o que supostamente seria satanismo ou mesmo a ausência de repórteres que entendam e identifiquem simbologias de religiões africanas. Confira a nota do G1 ao final da desta matéria. 

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Como anda o caso 

Lázaro teria atirado em cães farejadores para conseguir fugir do último confronto

O suspeito conseguiu fugir mais uma vez após um tiroteio ocorrido nesta quinta-feira (17), em Cocalzinho de Goiás. O secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, acredita que ele pode estar ferido. Este novo confronto aconteceu dois dias depois de policiais trocarem tiros contra Lázaro durante o resgate de uma família feita refém.

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Segundo Miranda, mais de 200 policiais estão no 9ª dia de buscas por Lázaro, com a presença inclusive de equipes da Força Nacional nas buscas. Entretanto, os policiais ainda não chegaram. “Possivelmente chegam amanhã. Está sendo organizada a logística”, explicou.

A íntegra da nota emitida pelo G1:

“NOTA DA REDAÇÃO: ao ser publicada, esta reportagem divulgou imagens de objetos que, segundo o delegado Raphael Barboza, foram encontrados na casa de Lázaro Barbosa e que, segundo o policial, indicariam práticas de bruxaria e rituais. Com a reportagem no ar e destacada no portal e nas redes sociais, o G1 foi criticado sobre o conteúdo.

A crítica principal é que, embora seja possível identificar nas imagens elementos de algumas religiões, não é possível associá-los a nenhuma crença ou culto, muito menos aos crimes cometidos por Lázaro. Após esse alerta, o G1 apagou os posts em suas redes sociais, tirou os destaques no portal e atualizou esta reportagem para modificar o título e o texto. Também ouviu lideranças religiosas sobre as afirmações do delegado e sobre as imagens divulgadas pela polícia.

O pai de santo candomblecista Kenio Oliveira diz que é possível identificar, nas imagens, elementos de religiões de matriz africana, mas não é possível identificar exatamente qual a crença de Lázaro ou se tinha um culto próprio. O religioso ressalta ainda que não há qualquer relação entre as crenças e os crimes atribuídos a Lázaro. “Quanto à forma que cultua, a atitude dele como ser humano não tem nenhum vínculo com espiritualidade”, afirma Oliveira.

“Essa prática não tem a ver com nenhum culto da umbanda nem do candomblé que nós conhecemos, não tem a ver com sacrifício humano, nada a ver conosco, isso está longe”, diz o professor doutor Babalawô Ivanir dos Santos.

“Satanismo não faz parte da pauta das religiões de matriz africana. Nós cultuamos a natureza e as representações que existem tem a ver com isso, com as forças da natureza: água, ar, terra e fogo, que são os elementos simbolizados pelos orixás, Oxum, de acordo com a tradição que temos, e a nossa ancestralidade. Não tem a ver com esse tipo de atrocidade que se apresenta nesse momento.”

Pelos erros no processo de publicação desta reportagem, pedimos desculpas”.

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Fotos: Divulgação / PC-DF


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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