Arte

Cores de Almodóvar: a força das cores na estética da obra do diretor espanhol

Vitor Paiva - 11/06/2021 às 14:46 | Atualizada em 03/02/2022 às 21:16

Não é por acaso que na canção Esquadros, Adriana Calcanhoto se vale das tais “cores de Almodóvar” como uma espécie de filtro para ver o mundo. A obra do grande diretor espanhol Pedro Almodóvar parece ter em suas cores fortes e vibrantes nas telas de cinema um de seus elementos mais marcantes, além da sexualidade, da paixão, do drama, da música e, é claro, da própria narrativa.

A fotografia inconfundível do cineasta faz com que cada quadro de seus filmes pareça uma pintura feita por um grande artista. Isso se dá pela escolha das tonalidades que determinam a estética e a sentimentalidade de cada obra. Outros elementos também importantes dentro da expressão final de um filme se somam às cores intensas, também conhecidas como “chillones”, ou cores que “gritam” em espanhol. O olhar apurado para a moda, as influências marcantes da pop art e do kitsch, as direções de arte extravagantes e os ângulos escolhidos para cada cena estão presentes em todas as obras do diretor.

Para entender ainda mais o estilo da filmografia de Almodóvar, selecionamos três filmes assinados por ele que estão disponíveis no streaming do Telecine. Eles são exemplos perfeitos de como saber usar as cores é importante para fazer cinema.

O diretor espanhol Pedro Almodóvar.

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Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988): o início das cores

Cores em cena em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos.

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Em 1988, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos foi o filme que levou Almodóvar ao reconhecimento internacional. Ele conta a história de Pepa Marcos, uma mulher que, após ser abandonada pelo amante, vê seu caminho se cruzar intensamente com a vida de outras mulheres. As cores no longa ainda são quase tímidas perto da importância que tomariam na carreira do diretor dali em diante, mas o aspecto kitsch da direção de arte, da cenografia e da fotografia marcam a obra com graça e força.

A estética kitsch é parte essencial do filme.

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Tudo Sobre Minha Mãe (1999): o contraste de cores

A paixão materna em vermelho em Tudo Sobre Minha Mãe.

Quando Tudo Sobre Minha Mãe foi lançado, em 1999, Almodóvar já era um dos gigantes da história do cinema. A jornada de Manuela em busca do pai de seu filho levou às telas a força do contraste em cores – principalmente entre o calor do vermelho, que parece significar a presença apaixonada da mãe, e a frieza do azul, que aponta simbolicamente para a ausência do pai na vida do garoto Esteban. Foi com esse filme que Almodóvar ganhou seu primeiro Oscar, o de Melhor Filme Estrangeiro, e também o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes.

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As cores contrastantes no guarda-chuva que a personagem do filme segura.

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Fale Com Ela (2002): cores opostas

 

A atriz Rosario Flores em cena de Fale com Ela.

Três anos depois, em 2002, a explosiva e controversa estética das touradas espanholas foi posta em contraposição com a palidez dos hospitais em Fale Com Ela. No filme, a obsessiva trajetória do personagem Benigno, cuidando de Alicia após ela sofrer um acidente, se cruza com a de Marco, jornalista que também frequenta o hospital para cuidar de sua namorada, a toureira Lydia. A coreografia de Pina Bausch e a participação de Caetano Veloso cantando “Cucurucucu Paloma” abrilhantam ainda mais a estética da obra, que conquistaria o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Cores vibrantes e opostas nas roupas de cada um dos personagens.

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As três películas citadas são exemplos precisos da força das cores, das sentimentalidades e das narrativas na filmografia de Almodóvar – e estão disponíveis para serem devidamente saboreadas no aplicativo de filmes do Telecine, assim como diversos outros trabalhos do diretor espanhol. Os filmes do cineasta disponíveis na plataforma podem ser acessados aqui. Vale lembrar que novos assinantes do serviço de streaming ganham os primeiros 30 dias de acesso. 

Almodóvar em 1988.

 

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Foto 1: Rafael Pavarotti/The New York Times

Fotos 2, 4, 5, 6, 7: Reprodução/Divulgação

Foto 3: Reprodução/Mubi

Foto 8: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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