Debate

Covid: somente agora domésticas são incluídas como prioridade de vacinação, e isso diz muito sobre o Brasil

Vitor Paiva - 21/06/2021 | Atualizada em - 22/06/2021

Passados mais de 15 meses da confirmação da pandemia e com os casos e óbitos em alta completa no Brasil, somente agora uma das categorias mais expostas e afetadas pela Covid-19 finalmente foi incluído entre as prioridades de vacinação: a partir de emenda proposta pela deputada federal Benedita da Silva, do PT, as trabalhadoras domésticas enfim poderão se vacinar contra o novo coronavírus. A emenda à lei 1011/20 já foi aprovada pela câmara dos deputados na última quinta-feira, dia 17, e agora vai para votação no Senado. A aprovação é louvável, mas aponta para uma imensa e injustificável complicação do processo: os grupos profissionais mais afetados simplesmente não estão entre as prioridades atuais da vacinação.

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Segundo a deputada, a inclusão era urgente, e corrigia um erro e mesmo uma injustiça no processo de priorização da vacinação. Elas estão todos os dias indo e vindo, estão vulneráveis a cada momento, estão sujeitas a contágios”, afirmou Benedita antes da votação. “Essas mulheres estão sujeitas também aos abusos que temos visto por aí, já altamente identificados não só na minha fala como na fala de muitas outras Parlamentares desta Casa, pela bancada feminina e por outros Parlamentares que, em casa, cuidam bem da sua trabalhadora, são empregadores conscientes, mas nem todos são”, completou a deputada.

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O projeto de emenda lembra que, das 6,2 milhões de trabalhadoras e trabalhadores domésticos no país registradas até 2019, 92% são mulheres, e dessas, 66% são mulheres negras – um abismal recorte de classe e raça, portanto, também excluiu trabalhadoras domésticas da vacinação até aqui, assim com outros grupos especialmente afetados. “As trabalhadoras domésticas deveriam ter sido as primeiras a entrar na lista de prioridade junto com as profissionais de saúde. Elas são as mais vulneráveis e precisam se deslocar pela cidade em condições precárias para garantir o pão de cada dia”, afirmou Anne Karolyne, secretária nacional de mulheres do PT.

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As trabalhadoras domésticas e a minoria de trabalhadores domésticos não são, no entanto, de forma alguma a única categoria especialmente exposta e afetada pelo Covid-19 que não foi incluída até aqui entre as prioridades de vacinação. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Pólis a partir de dados da Secretaria Municipal de Saúde mostra que a maioria dos mais de 30 mil óbitos ocorridos em São Paulo por Covid-19 entre março do ano passado e março desse ano, é de motoristas e pedreiros – grupos também não contemplados com a vacinação prioritária.

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A maioria dos mortos, segundo a pesquisa, não completou o ciclo de educação básica, indicador também determinante sobre o rendimento das vítimas. “Considerando a escolaridade das vítimas como um indicador indireto sobre seu padrão de renda, os dados demonstram que a mortalidade de Covid-19 é maior entre trabalhadores e trabalhadoras mais pobres, que, em muitos casos, são caracterizados pela informalidade e pela impossibilidade do trabalho remoto”, diz o texto de estudo. A categoria mais afetada, porém, foi a de operários da construção civil, com 4,1% do total. Os dados completos da pesquisa “Trabalho, território e Covid no município de São Paulo”, do Instituto Pólis, estão disponíveis em reportagem no caderno Agora, da Folha de São Paulo.

Enterro de vítima da Covid no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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