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Crivella embaixador na África do Sul? O que se sabe sobre movimento de Bolsonaro

Vitor Paiva - 15/06/2021

Mesmo preso preventivamente e afastado do cargo de prefeito do Rio de Janeiro por acusação de chefiar um esquema de corrupção e propina, o bispo Marcelo Crivella foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro à embaixada do Brasil na África do Sul. Para além da troca de favores e influências, uma reportagem da BBC levantou possíveis motivações por trás da indicação de Crivella, que precisa ainda ser aprovada pelo Senado brasileiro, e que pode em verdade tentar em um só golpe amenizar crises do governo com a Igreja Universal, e da própria Igreja no continente africano.

Marcelo Crivella

Crivella à época que era Senador da República © Wikimedia Commons

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A reportagem entrevistou especialistas, a fim de buscar compreender possíveis motivações veladas na indicação – e essa possível dupla função foi levantada na movimentação governamental na direção de Crivella. O ex-prefeito do Rio de Janeiro é sobrinho de Edir Macedo, dono da Igreja e da Rede Record de TV, e alto quadro na instituição: a Universal vem enfrentando diversas acusações de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e associação criminosa a partir da atuação da igreja em Angola – uma página intitulada “Exposing the UCKG” (Expondo a Igreja Universal do Reino de Deus, em tradução livre) foi criada no Facebook para denunciar as práticas da igreja em todo o mundo.

Marcelo Crivella sendo preso

O ex-prefeito e bispo da Universal sendo preso no Rio de Janeiro © Getty Images

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Crivella, por sua vez, morou e trabalhou na África do Sul nos anos 1990, e liderou a expansão da Universal pela África a partir do país – e, assim, o gesto funcionaria como um caminho para a igreja tentar conter tal crise no continente, e com isso manter a Universal em sua base de apoio para enfrentar as crises atuais e contar com o voto evangélico para as eleições de 2022. Só na África do Sul, segundo site oficial, são 309 templos da Igreja Universal em atividade, e ainda no que diz respeito a Crivella propriamente, a aprovação de sua indicação lhe daria foro privilegiado, e seu julgamento migraria para o STF.

Uma das igrejas fechadas em Angola

Uma das igrejas fechadas em Angola © Facebook/reprodução

Crivella atuando durante período em que trabalhou na África do Sul, nos anos 90

Crivella atuando durante período em que trabalhou na África do Sul, nos anos 90 © Facebook/reprodução

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A crise da igreja em Angola se tornou em uma crise interna sobre o apoio da Universal ao governo Bolsonaro, cobrado por ter mantido o Itamaraty fora das acusações contra a instituição em Angola – a indicação à embaixada sul-africana, portanto, colocaria Crivella, que é especialmente popular na região, como nova liderança da Igreja no continente. Além das investigações, os templos em Angola vão sendo fechados e, segundo os especialistas ouvidos pela BBC, a jogada visa, portanto, fazer vale para a Universal o apoio oferecido a Bolsonaro – que, na atual conjuntura e por conta da suposta “omissão” diante da crise angolana, estaria bastante abalada internamente.

Bolsonaro e Crivella

Bolsonaro e Crivella: um atuou na campanha e pela eleição do outro © CC/Flickr

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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