Criatividade

Curiosidades sobre a história da festa junina – uma festa originalmente camponesa e pagã

Vitor Paiva - 15/06/2021 | Atualizada em - 17/06/2021

Se hoje as festas juninas parecem parte da própria identidade brasileira com conexão direta com a tradição cristã do país – especialmente ligada à simbologia de Santo Antônio, São Pedro e, claro, São João – em sua origem tais celebrações são, em verdade, comemorações pagãs, que contrariavam as premissas católicas ao comemorar deuses da natureza e da fertilidade. Tais festividades foram trazidas ao Brasil no processo de colonização portuguesa, ainda no século XVI e XVII. Suas origens europeias, no entanto, são ainda mais antigas, e remontam ao século XI e XII, quando os povos da antiguidade celebravam a deusa Juno, protetora do casamento, do parto e da mulher, para pedir por colheitas fartas para o período.

Decoração de São João

Cidades de todo o Brasil são cobertas pelas bandeirinhas típicas para as festas © Getty Images

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Pois na Europa as festividades ocorriam no período do solstício de verão, quando da passagem da primavera para a estação mais quente do ano, e tinham como sentido não só o pedido por uma boa colheita, como também por afastar pragas e maus espíritos de período tão importante para a própria sobrevivência de um povo. E a ideário de que é melhor se juntar a quem não se pode vencer moveu a Igreja Católica durante o período em que se consolidou como principal religião do continente europeu – e, assim, incorporou diversas festas pagãs ao seu calendário oficial, “aculturando” determinadas festas, acrescentando temas e elementos cristãos às comemorações.

comida de São João

Os alimentos típicos se referem também à bonança das colheitas, tema original da festa © Getty Images

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Assim os santos hoje típicos das festas juninas – também popularmente conhecidas como “Festas de São João” – passaram a fazer parte das celebrações, especialmente no Brasil. As fogueiras faziam parte das festas desde sua origem pagã – especialmente nos ritos do Beltane, ancestral festival celta, realizado na Europa em 1º de maio – mas até hoje sua conexão com as regiões, povos e culturas rurais não é por acaso: a festa da colheita ganhou maior importância justamente nas áreas camponesas, festa onde as plantações estavam, e os alimentos à base de milho ou amendoim, que se tornaram parte dos temas das festas juninas, também celebram justamente a abundância dessas culturas agrícolas.

Fogueira de São João

A fogueira também tem origem em festas pagãs © Wikimedia Commons

Versão da festa celta Beltane em 2006

Versão da festa celta Beltane em 2006 © Wikimedia Commons

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O sincretismo e a mistura, portanto, são elementos determinantes no estabelecimento das festas como hoje conhecemos: a origem da dança da quadrilha, por exemplo, teria se dado entre camponeses ingleses do século XIII, se popularizado ao longo dos séculos entre as populações, até chegar aos salões aristocratas da França por volta do século XVIII até o final do século XIX (A expressão “anarriê”, por exemplo, vem do francês “en arrière”, que sinalizava que os casais deveriam ir para trás na dança). Em solo brasileiro, tais apropriações se ampliam e aprofundam, diante das festas que os povos originários já realizavam também no período e pelo mesmo motivo: em pedido por colheitas abundantes – os povos indígenas também festejavam em junho.

Dança de quadrilha

Dança de quadrilha é de origem francesa © CC

Desenho de Lebas, de 1820, mostrando as origens da dança de quadrilha nos salões da França

Desenho de Lebas, de 1820, mostrando as origens da dança de quadrilha nos salões da França © Wikimedia Commons

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Mesmo a conclusão oficial das festividades no dia 29 de junho, consagrado a São Pedro e São Paulo pelo martírio de ambos, em verdade teria sido uma maneira da igreja se apropriar de uma antiga e popular celebração romana: um culto pagão em tributo a Rômulo e Remo, fundadores de Roma. No caso de São Pedro, no contexto do Nordeste do Brasil, o sentido ganha caráter especial: em pedido ou agradecimento às chuvas, elemento determinante para colheita na seca região do Brasil.

Bandeirinhas de São João

A festa de origem pagã se tornou símbolo nacional © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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