Diversidade

Dia do Orgulho: masculinidades negras e trans na pauta de podcast que estreia hoje

Kauê Vieira - 28/06/2021 | Atualizada em - 29/06/2021

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é um bom momento para debater as masculinidades negras. A pluralidade é um dos caminhos percorridos pelo “Okó: Makulinidades Transatlânticas”, que estreia podcast neste importante 28 de junho para discutir noções de masculinidades a partir de olhares diferentes, inclusive de homens trans. 

O projeto de masculinidades negras foi desenvolvido por Flip Couto, com direção de Malu Avelar. O “Okó” aposta na performance como um dos instrumentos para causar reflexões sobre a construção identitária do homem. 

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Masculinidades negras em pauta em novo projeto

O Hypeness conversou com Flip Couto, formado em dança e que pesquisa as masculinidades negras LGBTQIA+ e corpos em diáspora, além de  Preto Téo, produtor cultural membro da organização Slam Marginália. Os dois destacaram o olhar diversificado do “Okó: Makulinidades Transatlânticas”. 

Quando falamos sobre comunidade LGBTQIA+, estamos falando de uma diversidade de pessoas que questionam performances do gênero – tanto masculino quanto feminino. Ao discutir masculinidades negras, estamos falando sobre experiências ancestrais de viver e enxergar o mundo. E é por isso que ignorar experiências de bixas, trans masculinos, sapatões e outras identidades que fogem da cis heteronormatividade, reduz o campo de discussão e possibilidades de pensar raça, gênero e sexualidade de uma forma ampla para que possamos construir novos imaginários de masculinidades e formas de afetividade. 

O projeto nasce em meados de 2018 e se intensifica em 2019, quando Flip se debruça em estudos sobre masculinidades e elementos do hip hop e da poesia para refletir sobre sexualidades, racialidade, pertencimentos, emoções, ancestralidade, corporeidade e tabus. 

Para isso, Couto bebe na fonte de escritores e pensadores importantes dos movimentos negros, como o baiano Osmundo Pinho, além de Beatriz Nascimento e das norte-americanas Bell Hooks e Audre Lorde. Os conceitos propagados pelos intelectuais citados dão ao “Okó” a chance de pensar as masculinidades negras a partir de pontos de vista plurais. 

“Okó” pensa as masculinidades negras a partir de pontos de vista plurais

“A forma que cada pessoa experiencia a masculinidade é repleta de subjetividades que deslocam nossas identidade constantemente. É comum que a masculinidade seja vista pela sociedade como uma identidade fixa e unificada, mas ela é plural e diversa, como tudo na natureza. Todas as relações íntimas e interpessoais interferem nestes deslocamentos, interagindo diretamente com o ambiente, território, geração e outras dinâmicas sociais. Observando Malu Avelar, diretora do trabalho, nos anos de convivência e durante o processo de criação, eu via a forma com que ela transitava de uma figura masculina e feminina com fluidez e naturalidade. O mesmo acontece com outras pessoas de diferentes identidades de gênero e orientação sexual. Nos entender como seres plurais, é, na minha opinião, uma maneira de descolonizar nosso gênero e quebrar padrões eurocêntricos”, explicam Flip Couto e Preto Teo. 

A construção do pensamento sobre as masculinidades trans é feita com a presença dos protagonistas de suas histórias. O time conta com Rudá Terra Boa, afroindígena, transmasculino, binário e pesquisador de linguagens artísticas como poesia e colagem. Há também a presença de Afrop, multiartista transmasculinodo negro da periferia de São Paulo e que atua como fotógrafo de moda e produtor audiovisual. 

Compreendo que refletir masculinidade a partir da vivência trans é entender o conceito de empatia na prática, porque conceito de empatia é se colocar no lugar do outro. E, na sociedade machista e patriarcal em que vivemos, estar no lugar de representação masculina, do homem cuja performatividade é muitas vezes considerada até heterossexual, compreendo que eu experiencio a empatia na prática, porque sei o local da experiência das mulheridades na nossa sociedade. Eu realmente sei, eu realmente passei por isso

Preto Téo, que utiliza o slam como forma de analisar, com poesia, as vivências de pessoas trans, continua. 

“Então, partindo de um movimento de reconhecimento de muitos sofrimentos na minha própria pele, consigo fazer um exercício de observação e vigilância persistente e constante com relação a como eu desconstruo essas noções coletivas sobre o que é isso e o que é aquilo nas discussões sobre os papeis de gênero na nossa sociedade. Todos nós estamos em desconstrução, mesmo as pessoas que têm mais propriedade de fala sobre determinado assunto. Acho que refletir masculinidade a partir da vivência trans é isso. Invariavelmente vou refletir sobre um lugar que eu vivi, INVARIAVELMENTE. A não ser que eu queira ignorar esse lugar, apagar ele. E então perpetuar a cultura macho cis patriarcal”, ressalta Preto Téo 

Masculinidades negras 

Pensar as masculinidades negras é, sobretudo, combater o racismo. A estrutura de uma sociedade patriarcal e que coloca o sujeito negro como cidadão de segunda classe, impede que o desembrutecimento se manifeste. 

Isso se dá de diferentes maneiras, como na percepção das injustiças sociais que atingem mais o dia a dia de pessoas negras. Seja na violência policial ou em crimes de homofobia e transfobia. Negros morrem mais vítimas de transfobia no Brasil.

O dossiê “Assassinatos e violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2019″mostrou que 82% das vítimas fatais do crime de transfobia eram pretas, sendo que quase 60% com 15 e 29 anos. 

O debate sobre masculinidades negras é amplo

O debate sobre masculinidades negras é amplo. Cada vez que sentamos para conversar sobre o tema, abrimos novos campos para entender a dinâmica da relação entre raça e gênero. Mas, na minha visão pessoal, o que almejamos com essa discussão é a humanização de corpos negros através da possibilidade de nossos acessar sentimentos, emoções e outras intimidades. Processos que nos foram roubados e não temos o direito de acessá-los no dia a dia, porque estamos preocupados em não morrer pela violência do Estado que tem o homem negro como seu principal alvo. Sendo assim, teremos que nos desdobrar para dialogar sobre assuntos urgentes como políticas de drogas, violência policial, encarceramento em massa, moradia, políticas de saúde, e ao mesmo tempo falar sobre erotismo, sexualidade, estratégias de cuidados e principalmente relações harmônicas em nossas comunidades. E a luta contra o racismo deveria ser tema central de debates de masculinidades brancas. 

 A preocupação do “Okó: Makulinidades Transatlânticas” em trazer a cultura e arte como pilares da conversa ajuda a evitar a disseminação em massa da masculinidade tóxica. Eles, aliás, explicam como o termo se manifesta. 

A masculinidade tóxica é um padrão de comportamento baseado no ideal hegemônico, ou seja, do homem branco, hétero e cisgenero. Padrão que constrói a imagem do homem com hábitos e costumes pré-estabelecidos, baseado na invulnerabilidade, insensibilidade, agressividade e, dentro de uma sociedade racista, lgbtfóbica e misógina, se coloca como detentor do poder, usando a violência para estar acima de mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+. Em um país colonial e escravocrata como o Brasil, fica nítido que o racismo estrutural é a maior ferramenta de manutenção de poder da masculinidade hegemônica.

O debate sobre masculinidades negras não é algo propriamente do tempo de hoje. Ele sempre existiu, mas há a percepção de movimentos de desconstrução de olhares engessados e excludentes sobre a masculinidade de uma geração, assim como seus ancestrais, em busca de humanização. 

“As possibilidades de humanização que eu vivo hoje tendo uma relação saudável com meu marido (também negro), podendo falar sobre minha sexualidade com família e amigues e tendo a possibilidade de refletir sobre minha existência no mundo através das artes, é fruto de lutas de meus antepassados, que resistiram às diversas violências e criaram estratégias de semear sonhos para as gerações futuras. E é nesse processo de continuidade que eu acredito. Mas, para avançarmos nesses processos, é necessário políticas públicas engajadas em ampliar o acesso à educação, cultura, lazer e saúde. Direitos humanos básicos necessários para a formação de uma nova geração de meninos e homens que poderão criar novos imaginários de masculinidades negras e plurais”, arremata Preto Téo. 

Serviço: 

Temporada de “Okó: Maskulinidades Transatlânticas”

Performance que utiliza o corpo como suporte para provocar reflexões sobre a masculinidade hegemônica 

Período exposição: De 28 de Junho a 04 de Julho

Período temporada podcast: De 28 de Junho a 26 de Julho

Dias: Segunda a domingo

Horário: 20h

Via Sympla: https://www.sympla.com.br/oko__1239060

 Temas e episódios do podcast:

28/06 – Viny Rodrigues: Falocracia e as Falácias do Homem

05/07 – Pedro Guimarães: Poéticas de um Corpo Negro Bixa  

12/07 – Formigão: Ser Sapatão Preto

19/07 – Caru de Paula: Trans masculinidades, Memória e Saúde mental

26/07 – Neon Cunha: Cissexismo e a Performance de Gênero  

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Fotos: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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