Inspiração

Dr. Anonymous: o 1º psiquiatra a se levantar contra a patologização da homossexualidade nos EUA

Vitor Paiva - 11/06/2021

A luta por igualdade de direitos e contra o preconceito, a homofobia e a perseguição da população LGBTQIA+ exigiu (e ainda exige) coragem e determinação de muita gente ao longo dos anos – e em tal lista deve constar o nome do estadunidense John E .Fryer. Em 1972, Fryer apareceu disfarçado em um evento da Associação Americana de Psiquiatria (APA) para discursar e se tornar o primeiro psiquiatra no país a se posicionar contra o entendimento da homossexualidade como doença, posição até então na Associação e em publicações científicas oficiais.

John E. Fryer disfarçado como Dr. H. Anonymous

A foto mais famosa do médico disfarçado para seu histórico discurso © Wikimedia Commons

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O medo de represálias fez com que o médico vestisse uma máscara, uma peruca e utilizasse um microfone que alterou sua voz para fazer seu discurso na conferência anual da APA em 2 de maio de 1972 – Fryer já havia perdido trabalhos anteriormente pelo fato de ser homossexual e por sua posição contrária a tal criminalização, e para a aparição ele usou o pseudônimo Dr. H. Anonymous. “Eu sou homossexual e sou psiquiatra” foi a frase com que abriu seu discurso, que seguiu denunciando o preconceito entre as sociedades de psiquiatria e contra outros psiquiatras e pacientes homossexuais.

John E. Fryer disfarçado como Dr. H. Anonymous

Fryer se disfarçou por medo de perder seu emprego ou mesmo de violência © Twitter

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Segundo consta, mais de 100 psiquiatras homossexuais se fizeram presentes quando do discurso na plateia da convenção, que ocorreu na cidade de Dallas, no Texas, sob o título “Psiquiatria: amiga ou inimiga do homossexual? Um diálogo”. Desde 1952 que a APA classificava a homossexualidade como “desordem sociopata de personalidade”, em um diagnóstico baseado em preconceitos e premissas religiosas, mas sem base científica alguma, e o discurso orientava principalmente outros psiquiatras a como melhor tratar pacientes homossexuais – oferecendo empatia ao invés de propostas descabidas de “cura”.

O psiquiatra John E. Fryer

O psiquiatra John E. Fryer, anos depois, e sem máscara © APA/divulgação

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“Essa é a grande perda, nossa honesta humanidade, e essa perda leva todos ao nosso redor a perder um pouco de suas humanidades também”, afirmou, ao fim da fala. “Pois se eles estiverem confortáveis com suas homossexualidades, eles então poderão estar também com as nossas. Nós precisamos, portanto, usar nossas habilidades e sabedorias para ajudar os pacientes e a nós mesmos a estarmos confortáveis com essa parte da humanidade chamada ‘homossexualidade’”, conclui. Alguns membros do painel concordaram com a posição do doutor anônimo, e admitiram as orientações preconceituosas que moviam posições psiquiátricas até então.

Primeira página manuscrita lida por Fryer no discurso

Primeira página manuscrita lida por Fryer no discurso © Historical Society of Pennsylvania

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No ano seguinte, em 1973, a homossexualidade foi retirada do “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, livro desenvolvido pela APA para orientar profissionais da saúde mental no diagnóstico de doenças. Ser gay, portanto, deixava de ser oficialmente visto como uma doença, e o posicionamento de Fryer foi publicamente apontado como ponto fundamental para tal mudança.

Placa em homenagem a Fryer erguida na Filadélfia

Placa em homenagem a Fryer erguida na Filadélfia © HMDB

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Sua identidade só foi de fato confirmada pelo próprio em 1994, durante outra convenção da Associação, e Fryer seguiu trabalhando pela causa e ajudando pacientes, tendo recebido diversos prêmios e menções por sua coragem. Após sua morte, em 2003, a APA estabeleceu, em sua honra e memória, o Prêmio  John E. Fryer, M.D., oferecido a pessoas cujo o trabalho contribua para a saúde mental da população LGBTQIA+ – seu histórico discurso pode ser lido na íntegra em inglês aqui.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutor em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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