Debate

Fala racista de Alberto Fernández sobre Brasil expõe apagamento da diversidade na Argentina

Redação Hypeness - 10/06/2021

O Presidente da Argentina Alberto Fernández fez um comentário racista durante uma entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. O chefe de estado platino afirmou que “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos nos barcos, e eram barcos que vinham da Europa, assim construímos nossa sociedade”. 

A fala de Fernández corrobora o pensamento racista que domina a sociedade argentina e reforça estereótipos terríveis sobre outros povos latinoamericanos. E a chave para compreender o pensamento do presidente peronista está na formação daquele país.

Alberto Fernandez afirmou que ‘argentinos vieram dos barcos da Europa’; não, não vieram. Muitos vieram dos navios negreiros e outros estavam lá desde antes de a Espanha sonhar em ser um país

A Argentina, assim como Brasil, Colômbia e Uruguai, teve mão de obra escravizada em sua período colonial. Entre os séculos XVII e XVIII, um terço da população de Buenos Aires – mais populosa cidade do país – era habitada por negros. Mas hoje, quando pensamos em famosos argentinos, pensamos em pessoas com fenótipos brancos e, em alguns casos raros, pessoas com traços indígenas (como Diego Maradona, Mercedes Sosa e algumas outras figuras relevantes do outro lado da fronteira).

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No século XVIII, o estado argentino deflagrou um plano institucional para embranquecer a população negra do país. Enquanto boa parte dos negros argentinos foram colocados na bucha de canhão para lutar em guerras como a Guerra do Paraguai e a independência Argentina, outra parte foi dizimada em uma epidemia de febre amarela.

Mas boa parte dos negros foram embranquecidos. O estado argentino promoveu uma miscigenação em massa entre negros e a maioria branca do país. O plano deu certo: ao fim do século XXVIII, apenas 1,8% da população do país era negra.

Alberto Fernandez sorri ao lado do primeiro-ministro Espanhol Pedro Sánchez

O censo estatal da argentina celebrou a informação. “Não demorará muito para que a população seja completamente unificada em uma bela nova raça branca”, afirmou o estado argentino no censo de 1887.

Estudos genéticos feitos recentemente em diversas cidades argentinas mostram que cerca algo entre 5% e 20% dos argentinos são descendentes de escravizados, mas essa história foi apagada.

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Isso sem falar nos indígenas: mais de 30% da população argentina tem ascendência dos nativos. Os povos originários argentinos foram alvos da ‘Campanha do Deserto’, um genocídio comandado pelo estado argentino no ano de 1875 em que os colonizadores forçaram povos indígenas a se deslocarem para a região do deserto do Atacama.

Na Villa 31, uma das mais famosas favelas argentinas, a população não parece lá muito branca, né?

Foram mais de 18 mil indígenas massacrados no combate. As consequências de viver uma região sem água e sem solo apropriado para agricultura se alastraram: milhares de indígenas morreram graças ao genocídio promovido pela já República da Argentina.

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Enquanto Fernández se gaba da branquitude dos imigrantes brancos que vieram para seu país ao lado do líder da colonizadora Espanha, os pobres argentinos de Villa Fiorito, Forte Apache, Villa 31 e das outras quebradas hermanas não vieram dos barcos; sua extensa maioria foi roubada e explorada pelos colonizadores dos barcos.

 

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Fotos: © Getty Images


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