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Gali Galó lança nova música, ‘Aceita’, e fala sobre transformação pessoal ao assumir sua identidade de gênero

Veronica Raner - 21/06/2021 | Atualizada em - 06/08/2021

Meu Pé de Laranja Lima” é um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira que conta a história de Zezé, um garoto com uma imaginação enorme que se vê obrigado a mudar de casa quando o pai perde o emprego. Na nova residência da família, o quintal abriga apenas uma única árvore, que dá título ao livro. O menino então batiza o pé de Minguinho (ou Xururuca) e passa a viver um monte de aventuras com ela – todas fruto de sua imaginação. 

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Foi na obra de José Mauro de Vasconcelos que Gali Galó buscou, no fundo de seu inconsciente, as referências que pautaram a criação da música e do clipe de “Aceita”, seu mais novo single, uma sofrência que passa ao largo do mero sofrimento romântico e fala sobre aceitar a própria identidade de gênero

Eu sinto que cada música minha tem uma cor e eu senti muito isso desde os primeiros singles”, conta, em entrevista ao Hypeness. “Com ‘Aceita’, a gente estava sem cor para definir. Foi quando a gente foi editar as fotos e a Mari Rosa, que é a editora de fotografia, mandou uma opção que tinha esse laranja puxado, daquela única planta colorida que tinha no meio do clipe de ‘Aceita’, como se fosse a única coisa que sobrou daquele espaço”, explica Gali sobre a ligação da música com a cor laranja. 

A escolha da cor a fez pensar sobre o livro, algo que percebeu durante nosso papo, pelo telefone. Gali explica que o personagem principal, Zezé, tinha uma relação muito forte com o quintal e principalmente com esse pé de laranja lima, com quem dividia suas histórias e pensamentos, algo semelhante ao que é feito por Gali em “Aceita”.  

Apesar do mundo estar ali no seu quintal, é um mundo que é só seu. É um mundo solitário. Era um mundo da imaginação dele, apesar de estar ali naquele movimento, naquele conhecimento do que ele era, de tudo que formava ele, de tudo que fazia as lembranças dele, era algo que também ele não dividia com ninguém. Acho que tem a ver com isso também ‘Aceita’”, reflete. 

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A música foi escrita há cerca de três anos. Veio “do nada”, durante uma conversa com as amigas com quem Gali morava em São Paulo, na época. No meio da confusão (“Estava todo mundo falando junto! Uma falava uma coisa, outra falava outra e todo mundo falava alto para caralho!”), Gali pegou a viola caipira, que começava a aprender, e tocou dois acordes. As palavras logo vieram à mente e não demorou até que a música estivesse pronta. 

Para a gravação, este ano, elu mudou apenas um verso. Um pequeno detalhe que representa um grande processo de transformação e aceitação na vida dilu. “Antes a música falava ‘eu queria ser aceita de uma vez’. E agora eu fiz uma pequena mudança na hora de gravar e eu disse: ‘eu diria então ‘aceita’ de uma vez. Eu não quis usar o pronome feminino para se referir a mim. Acho que foi a única mudança que eu fiz de três anos para cá.”

“‘Aceita’ veio no nascimento de Gali. Foi quando eu comecei a deixar de ser Camila (seu nome de batismo) e comecei a encontrar a persona de Gali. Eu estava entendendo essa linguagem e do nada veio essa música. Foi uma forma de sair do armário. É muito louco porque a música fala tanto de aceitação de sexualidade, que me remete à minha infância, quando eu me entendi como uma criança lésbica, e ao longo da minha vida eu tenho descoberto e me posicionado como uma pessoa não binárie, e na música você já vê esse reflexo. Na música eu digo: ‘me vestiram de um jeito que eu penso que não quero’. Então tem também a questão da identidade de gênero, que foi quando Gali estava se assumindo também uma pessoa não binárie e tudo mais.

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Gali conta que tem recebido mensagens positivas de pessoas da comunidade LGBTQIA+, mas não só delas. “Até quem é hétero me mandou mensagem falando que sentiu e chorou. Gente, foi mal!”, brinca. 

Para os próximos trabalhos, Gali promete se transformar mais uma vez. “Eu juro que depois dessa música vocês vão ver outro Gali. Essa é uma promessa. Vai ser só alegria nas pistas. Se eu sofrer, vai ser de deboche. Eu acho que ‘Aceita’ marca esse momento. É o último pingo de seriedade que restou em Gali. agora vai ser só zueira.” 

 

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Fotos: Mari Rosa/Divulgação


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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