Arte

Gato Sem Rabo: livraria quer ‘desmistificar noção de que a narrativa masculina é universal’

Veronica Raner - 10/06/2021 | Atualizada em - 14/06/2021

O nome da livraria Gato Sem Rabo vem de um compilado de palestras proferidas por Virginia Wolf em 1928, publicado com o nome ‘Um Teto Todo Seu’ ou ‘Um Quarto só Seu’. Falar sobre um animal desprovido de um de seus principais membros é falar sobre falta. Nesse caso, a escritora britânica usava de uma metáfora para falar sobre falta de legitimidade, tempo, dinheiro e espaço imputada às mulheres ao longo da História. Um ciclo ao qual Johanna Stein, criadora da loja que vende apenas títulos escritos por autoras, pretende ajudar a colocar um ponto final.

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A livraria Gato Sem Rabo vende livros apenas de autoras mulheres.

Aos 30 anos, a pesquisadora de Artes Visuais mergulhou em uma empreitada corajosa: abrir uma livraria em uma época em que muitos negócios parecidos estão fechando as portas. O projeto surgiu quando Johanna percebeu que as referências bibliográficas utilizadas no meio acadêmico pouco valorizavam a escrita feminina. Com isso, durante a própria pesquisa, ela foi reunindo referências que despertavam seu interesse. Em março deste ano, deu início à Gato Sem Rabo, que fica em um pequeno prédio na Vila Buarque e já conta com quase dois mil títulos de 680 autoras diferentes disponíveis em suas estantes. A equipe de curadoria é formada por Johanna e duas livreiras, Yala Araújo e Ticiane Lis

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A livraria tem organizado circuitos de debate online, uma espécie de clube do livro. A iniciativa acontece a cada 15 dias e tem tido um retorno muito positivo aos olhos de Johanna. “Um livro parado na estante é um livro morto. Ele precisa ser discutido e a gente encara isso com muita seriedade. Os circuitos têm acontecido virtualmente por enquanto, mas as pessoas têm se engajado muito e as discussões têm sido profundas”, comemora. 

O endereço da Gato Sem Rabo é Rua Amaral Gurgel, 338, Vila Buarque. A loja estava funcionando de quinta a sábado, das 11h às 17h. Por conta da grande procura, ela passa a abrir também aos domingos, a partir do próximo dia 13 de junho. 

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A pesquisadora e livreira Johanna Stein, idealizadora da livraria.

Leia a entrevista com Johanna Stein, da Gato Sem Rabo, abaixo:

De onde veio a ideia de criar a Gato Sem Rabo?
Veio a partir de uma constatação que eu tive enquanto fazia minha pesquisa em 2018: que era muito mais difícil eu me deparar com escritoras mulheres em termos de referências bibliográficas. Com isso, durante a minha pesquisa, eu fui fazendo um levantamento para mim mesma, entre amigas e outras pesquisadoras, nomes e obras que me interessavam e começou a surgir uma vontade de reunir esses nomes, esses livros, essa produção textual, de alguma maneira. Em 2019, eu comecei a me aproximar de algumas pessoas que trabalham no mercado editorial, porque eu sou pesquisadora em Artes, e fui conversando com editoras, tradutoras e me aproximando um pouco desse universo. Foi quando a gente entendeu que faria sentido essa pesquisa ter um espaço físico dedicado a ela. Assim surgiu o formato de uma pequena livraria de rua com esse recorte editorial, em que os escritos de mulheres estivessem no centro do debate literário. 

Eu me pergunto ainda se a gente é uma livraria de nicho, porque, em termos de seções, nós somos uma livraria tradicional, nós temos livros de todas as áreas do conhecimento — ficção, poesia, contos, romances, infantil, uma área dedicada à geração Z. Tem uma parte de estética, arquitetura, arte e uma parte de humanidades, considerando teoria política econômica, de exatas e filosofia. A gente tenta, nessa curadoria, fazer um recorte e trazer para o centro do debate essas escritoras mulheres.

A livraria só tem títulos escritos por mulheres mesmo? Ela é totalmente feminina?
Em alguns casos, como no infantil, por exemplo, a gente compreende a ilustração como uma linguagem tão importante quanto o texto na construção da narrativa. Então você tem alguns livros que podem ser escritos por homens, mas são ilustrados por mulheres. Também temos alguns casos de biografias, por exemplo, que são pesquisadores que contribuem para o conhecimento da obra de determinadas autoras ou pensadoras. 

Qual é o grande objetivo da Gato Sem Rabo?
Eu acho que talvez o principal objetivo seja desmistificar essa noção de que a narrativa masculina é universal. De que os clássicos são escritos por homens, a voz universal, a voz neutra é masculina. A gente tem essa questão com a própria língua portuguesa. Então, eu acho que é importante a gente olhar para essa produção e desmistificar certos paradigmas. A mulher produz clássicos, ela escreve sobre filosofia, ela produz uma infinidade de conhecimentos e ela escreve sobre todos os assuntos. É para mostrar que essa produção existe e trazer visibilidade para ela. Porque a gente tem falado muito sobre isso. Hoje a questão não é mais a gente questionar se as mulheres escrevem ou não porque está mais do que claro que elas escrevem. Isso era uma pergunta que a própria Virginia (Wolf) fazia em 1928 quando ela escreve “Um Quarto Só Seu”. Lá, realmente, há 100 anos, as mulheres tinham uma dificuldade de ter um espaço para si, diante das obrigações sociais que a mulher tinha naquele momento. Hoje a gente sabe que a realidade mudou e as mulheres escreveram muito, mesmo no meio de guerras, mesmo no meio das situações mais precárias, elas escreveram. 

O nome Gato Sem Rabo vem de um ensaio escrito pela Virginia Wolf. O que ele significa?
Ele suscita uma imagem muito potente, essa metáfora, do gato sem rabo, da qual a Virginia se utiliza, ela pressupõe uma falta. Esse animal que falta um pedaço dele, que seria o membro que lhe daria o equilíbrio… O que ela traz com essa imagem é que justamente essa falta é uma potência. Isso significa que, às vezes, a gente tem que olhar para essas faltas e assumi-las. Essas mulheres que sempre lhe faltaram tempo, espaço, legitimidade, elas têm aqui esse espaço dedicado a elas. Que mesmo com todas essas faltas ou barreiras, elas possam ter um espaço para se colocar. 

A falta é mais no sentido da gente olhar o que é essa falta, na verdade. Se a gente mudar a nossa perspectiva e parar de olhar com o olhar do homem branco, europeu, privilegiado do norte, se a gente parar de olhar com essa ótica, a gente vai entender que existem mil outras perspectivas que não é a do cânone. É um pouco dessa necessidade da gente se perguntar que falta é essa. Ela propõe um olhar a partir de uma perspectiva que não é a do cânone. que é justamente periférica, do sul global, das mulheres latinas africanas, sexo dissidente… Tudo que esta sendo produzido a partir dessas outras perspectivas.  

Como é feita a curadoria para escolher o que entra no catálogo da livraria?
A gente procura olhar para a produção, para a escrita das mulheres, dando ênfase para o sul global. É claro que nós temos os clássicos das americanas, das inglesas, das francesas que foram importantes para a gente entender o percurso e as conquistas que a gente teve diante do pensamento mesmo até aqui. Mas a gente tem olhado muito para a produção textual e intelectual de mulheres do sul global — como as latinoamericanas e as africanas —, e a gente tem tentado fazer uma negociação entre os temas urgentes do momento, leituras importantes para entender o presente, ao mesmo tempo que a gente não deixa de ter na nossa estante os clássicos, as leituras mais históricas para a gente compreender também o caminho que a gente percorreu. 

Vocês abriram uma livraria em um momento em que muitas outras estão fechando as portas. Como foi esse processo?
A gente precisou de coragem no início, mas agora o que a gente recebe é uma força tão grande do movimento, que nós estamos nos sentindo muito acolhidas e também sentimos que acolhemos muitas pessoas. A gente tem passado por um momento de bastante surpresa até com o engajamento aqui, com as pessoas na nossa livraria. A gente abriu por quatro dias só e foi um fenômeno. Nós abrimos num sábado e na semana passada a gente abriu quinta, sexta e sábado. Tivemos quatro dias de vendas, na verdade, que a gente abriu para o público e tem sido surpreendente. Tem fila na porta para comprar livros. A gente tem ficado muito grata por essa recepção toda e eu acho que também muito felizes de poder trazer uma notícia boa para a cultura em um país como o Brasil, porque só louco trabalha com cultura no Brasil, porque, realmente, a elite financeira não é a elite intelectual, não é a elite cultural. É muito complicado trabalhar com cultura em um país que tem esse histórico, a gente sabe disso. Mas eu acho que a gente se conecta muito mais com o movimento que nasce do público leitor — do qual a gente já fazia parte individualmente — que demanda por leitura de outras narrativas, outras perspectivas de escritoras mulheres e escritores pretos, a gente se aproxima muito mais de um movimento do que de um próprio modelo de livraria. Eu acho que as pessoas têm olhado para a gente também dessa maneira, o que é bem incrível.  

E o que vocês têm ouvido das pessoas que têm ido até à livraria?
Emoção. O que mais me impressionou foi receber as pessoas e vê-las emocionadas. No sábado, aconteceu da gente ficar com os olhos marejados da alegria de entrar num espaço dedicado a essas mulheres, sabendo que todos os livros dessas estantes foram produzidos por elas, escritos por elas, tem uma magia, uma emoção de poder olhar para uma notícia boa dessas. Um brilhinho no meio de tanta tristeza, raiva, ódio que a gente está sentindo no momento. É, talvez, um respiro. 

Algo mais que você gostaria de acrescentar?
Tem uma coisa que você não perguntou, mas que para a gente é super importante. A gente está no bairro da Vila Buarque, em frente ao Parque Minhocão, que é um símbolo da conquista do espaço público pela força da população. O parque já existe e ele tem um fluxo que é muito legal de fim de semana. O elevado fecha para o trânsito e as pessoas podem transitar e isso é muito legal. Algumas pessoas falam que o desafio é justamente o Baixio, onde a gente está, porque é realmente residual, tem muito barulho, é muito dedicado aos carros, mas é um espaço de trânsito muito grande. Uma questão que a gente enxerga aqui como uma super vantagem é que é um bairro com muita infraestrutura e com uma qualidade arquitetônica incrível. O próprio prédio onde a gente está é um predinho que estava abandonado há 20 anos e foi recentemente reformado. Há vários amigos da indústria criativa que ocuparam todas as salas, tem quatro faculdades no entorno, então é um bairro que a gente acredita muito e a cidade que a gente quer ajudar a construir. 

A livraria acaba sendo um meio de transformação social em múltiplas portas, né?
Sim, sem dúvida. Porque já existe muita infraestrutura, a questão é que as pessoas precisam ocupar esses espaços. E é impressionante o que uma livraria faz com a região porque as pessoas ficam, vira um ponto de destino e não tem nada melhor para a cidade do que as próprias pessoas utilizando esses espaços. Então é lindo a gente ver a calçada de quinta a domingo cheia de gente. 

 

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Fotos: Instagram/@gato.sem.rabo


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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