Arte

HQs no Brasil: uma ferramenta de transformação social

Gabryella Garcia - 24/06/2021 | Atualizada em - 28/06/2021

As HQs, ou histórias em quadrinhos, são conhecidas principalmente pelos grandes clássicos de heróis e vilões que também fizeram sucesso na tela dos cinemas, sobretudo com Marvel e DC. Porém, engana-se quem pensa que as histórias em quadrinhos se restringem a esse tipo de produção. Para entender o atual momento e as principais produções das histórias em quadrinho no Brasil, o ‘Prosa’ convidou o quadrinista e professor Robson Moura, o repórter e ilustrador Alexandre De Maio e a ilustradora e quadrinista Marília Marz para compreender as infinitas possibilidades que o gênero possibilita.

No Brasil, essa história já tem mais de 150 anos. Para Waldomiro Vergueiro, coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP,  a primeira HQ brasileira foi publicada em 1879, pelo artista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, com o título “Nhô Quim”.

Ganhando cada vez mais espaço, e consequentemente novos formatos, hoje as histórias em quadrinhos brasileiras conversam com questões de arte urbana e arte de rua, racismo, empoderamento e até mesmo denúncias, quando trazem uma pegada mais jornalística.

Para Alexandre De Maio, os quadrinhos são uma maneira de conseguir conversar com outras pessoas, se relacionar e também se expressar. Durante a prosa, ele contou que o que realmente o prendeu aos quadrinhos foi a possibilidade de falar dos problemas sociais através da arte.

HQ no Brasil

Casagrande. de Robson Moura, pega a temática do terror para trabalhar a questão do racismo

Sinto que sempre foi um jeito de me relacionar com o mundo, era o jeito de fazer alguma coisa e ter uma resposta. Pra mim a virada de chave foi muito grande quando eu estava crescendo e os Racionais e o rap estavam muito forte. Eu via quadrinho de super-herói, mas não me animava tanto o fato de desenhar prédios e heróis de Nova Iorque. Ao mesmo tempo eu estava vendo o rap de São Paulo e eu fiz um quadrinho sofre uma bala perdida na minha rua, era um período de muita violência e com o rap explodindo.

Críticas sociais e transformação

Marília também destacou durante a prosa que considera os quadrinhos uma forma incrível de democratizar o conteúdo. “Olhando para o meu TCC, que é algo acadêmico e eu fiz em quadrinhos, com certeza se tivesse feito de outra forma o trabalho não teria ido tão longe como foi. O alcance dele faz com que os assuntos vão mais longe, é uma ferramenta poderosa e rápida de passar um conteúdo e uma informação. Acho que o conjunto entre palavra e imagem tem um poder de disseminação  e pode até acarretar em mudanças sociais”.

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Robson, que recentemente lançou a HQ “A Casagrande”, que traz a temática do terror para trabalhar a questão do racismo, afirmou que esse é exatamente o fio condutor de suas histórias em quadrinho.

“Eu acho que a HQ pode ser um agente de transformação social porque quando você observa os quadrinhos tem vários temas diferentes e eu vejo pelo retorno que a minha própria HQ tem. Na última Comic Con Experience (CCXP) uma senhora começou a folhear minha HQ e começou a chorar, emocionada. Então acho que tem sim esse poder”.

HQ no Brasil

Alexandre De Maio utiliza os quadrinhos para fazer críticas sociais

Mercado brasileiro

Atualmente, até mesmo como um efeito da pandemia, estamos em meio a um processo de migração dos quadrinhos do impresso para o digital. Robson, inclusive, destacou um primeiro momento de mudança quando passamos “do nada”, para a realização de feiras como a CCXP.

Para De Maio, a possibilidade dos financiamento coletivo também foi um passo importante para o atual momento. “Com a facilidade do financiamento digital muitos artistas conseguem viver da sua arte, mas também são vários quadrinhistas que não tem emprego. A base de muitos artistas também eram as feiras que agora não são possíveis na pandemia, então estamos criando um novo mercado”.

Marília também criticou uma forte influência norte-americana no mercado brasileiro. “Eu via na CCXP narrativas de índios e cowboys norte-americanos e me questionava porque falar de uma história que não é nossa. Você vai desenhar uma lixeira, e desenha uma lixeira de Nova Iorque sem nunca nem ter ido para Nova Iorque”.

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Hipersexualização de mulheres na HQ

O número de mulheres quadrinhistas no Brasil têm crescido e, para Marília, é uma preocupação começar a mulheres reais, uma vez que aquelas representações de muitas HQs não existem e são um reflexo da indústria pornô.

HQ no Brasil

Ainda hoje as HQs de super-heróis exercem grande influência no mercado brasileiro

“Vamos chegar na voadora nesses caras que desenham mulheres peladas e hipersexualizadas. Acho isso um horror, inclusive, desde sempre como mulher você não encontra seu lugar na HQ, nem como autora e muito menos nos quadrinhos, a não ser que você seja branca, magra e norte-americana”.

Além disso, de acordo com Robson, também há uma resistência muito forte de parte desse público em verem mulheres reais como protagonistas das histórias. “O geek é um público resistente que não gosta que mexa nos seus super-heróis. Nós vimos no último Star Wars a discussão. Quando percebemos a mulher como protagonista esse público começou a brigar e xingar o produtor. É uma resistência muito grande”.

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O episódio também abordou questões como os rap em quadrinhos, jornalismo em quadrinhos, a relação do audiovisual com os quadrinhos e trouxe muitos detalhes incríveis dos trabalhos dos nossos convidados!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: foto 1: Divulgação/foto 2: Divulgação/foto 3: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.

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