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Kathlen Romeu não morreu de bala perdida, jornalistas do Brasil

Kauê Vieira - 09/06/2021

A fotografia de Kathlen Romeu inundou as redes sociais nas últimas 24 horas. A mulher negra, usando uma trança nagô rasteira projetada assimétricamente, aparece sorridente, com um blazer branco não menos bonito do que seu rosto e penteado. 

Este jornalista que vos escreve chegou a pensar que se tratava de mais uma mulher negra capa de revista. Você já viu o trabalho maravilhoso de gente como Suyane Ynaya? Você chegou a notar a exuberância de Camilla de Lucas na capa da Elle? 

Não era uma capa de revista. Era, na verdade, o último registro de mais uma jovem negra assassinada no Brasil. Kathlen Romeu foi morta numa suposta troca de tiros entre policiais e traficantes numa favela do Rio de Janeiro. 

O sorriso de Kathlen tinha motivo. A jovem de apenas 25 anos estava grávida do primeiro filho. O ensaio era justamente para celebrar o crescimento da barriga, símbolo do amor de Kathlen e Marcelo Ramos, seu companheiro. 

Kathlen Romeu tinha 25 anos

É semana de Dia dos Namorados no Brasil, nada mais natural do que uma overdose de pessoas celebrando o amor, tão necessário em tempos onde o autoritarismo parece sufocar. Não parece, pois os desmandos de um Estado que se lixa para sua população sufocam mesmo, vide a covid-19, que atinge principalmente os que não concluíram o ensino médio e trabalham em profissões desprezadas socialmente. 

São Paulo, que tem 40% de sua população formada por pessoas negras, registrou aumento de 20% nos óbitos de afro-brasileiros desde o início da pandemia que matou quase 500 mil brasileiros e brasileiras até aqui. O acréscimo entre brancos não passou dos 11%. 

Kathlen não morreu de covid. Ela foi assassinada por outra chaga brasileira, a violência racista do braço armado do Estado: a polícia. E, antes que venham dizer que a polícia cometeu um equívoco ou não deu certo, reflitam. A corporação segue à risca os objetivos propostos pelo Estado brasileiro desde a escravidão: o extermínio da maior quantidade de pessoas pretas possível. 

Se nem em uma pandemia os corpos de negros são poupados. Caro leitor, cara leitora, não faz nem um mês que as redes sociais foram tomadas por imagens de outros sonhos negros interrompidos.

Bala perdida, caro jornalista? 

O esculacho da polícia comandada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro no Jacarezinho ainda está fresco na memória – pelo menos na do pai que teve o quarto de sua filha banhado pelo sangue. Como faz pra viver? 

A tal operação policial no Jacarezinho matou 28 pessoas. Todos bandidos ou com antecedentes criminais, tenta vender o Estado. Como se isso justificasse. Pior é que cola. Grande parte da imprensa brasileira tem culpa no cartório. 

O genocídio negro tem rosto, CPF e endereço. Você já leu os jornais hoje? Operação policial, bala perdida, o choro da família que fica órfã, duas ou três falas burocráticas do poder público e vida que segue. Será que teremos outro jornal apenas com jornalistas negros? 

Jacarezinho foi alvo de chacina com 28 mortos

Bala perdida não existe. A bala não é perdida, ela tem alvo. A bala do fuzil do PM sempre acerta um corpo negro. O Monitor da Violência mostra que, em 2020 no Brasil, 78% dos mortos pela polícia eram negros. Isso quer dizer que quatro a cada cinco pessoas mortas pelas polícias civil e militar em 2020 eram pretas ou pardas

O levantamento é do G1, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Núcleo de Estudos da Violência da USP, que se baseou em conflitos com civis ou lesões não naturais com participação de policiais em atividade.

Leia também: Miguel e João Pedro: a morte pelo racismo que você, branco, finge não ver

Kathlen Romeu, 25 anos, morreu depois de uma suposta troca de tiros entre a polícia militar do Rio de Janeiro e traficantes da comunidade do Barro Vermelho, em Lins de Vasconcelos, na zona norte da cidade maravilhosa. Kathlen estava grávida de 14 semanas do primeiro filho. 

Até quando nós, jornalistas, vamos nos acovardar? Até quando iremos chamar o que aconteceu com Kathlen de operação policial? Vale tudo em nome de meia dúzia de fuzis apreendidos e algumas gramas de maconha ou cocaína? A tal guerra às drogas é justificativa para levar uma jovem cheia de sonhos junto de um bebê que sequer viu a luz do dia? 

O nome disso é GENOCÍDIO. Kathlen foi assassinada pelo Estado brasileiro, que segue sem nos dizer quem são os autores da morte da vereadora Marielle Franco. O pequeno Miguel, filho de Mirtes, morreu por negligência da patroa, Sari Corte Real, há exatamente um ano. Miguel tinha cinco anos e caiu de um prédio de luxo por causa da impaciência da patroa, que não acudiu o menino com saudades da mãe. E aí, qual o parecer definitivo da Justiça? Há Justiça para uma mãe negra? 

Grande parte da imprensa brasileira vai comprar essa versão de novo? Qual o interesse dos grandes veículos de comunicação deste país em não encarar o racismo de frente? 

A polícia militar tem que acabar. Não é possível que assistamos, todos os dias, o extermínio de vidas negras no país mais inseguro para um sujeito preto viver. A sociedade está doente, mas quem paga a conta somos nós. 

Até quando? 

“Uma amiga de infância, que sempre batalhou desde nova, que era orgulho dos pais e estava esperando uma criança. Ninguém aguenta mais essa matança, temos que acabar com essa palhaçada. Mataram uma trabalhadora, uma menina doce e que estava realizada por ser mãe”, disse ao UOL uma amiga de Kathlen Romeu.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Instagram/foto 2: Roberto Parizotti/Fotos Públicas


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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