Debate

Morte de arquiteto negro após manifestações na Paulista levanta suspeita entre amigos e familiares

Veronica Raner - 02/06/2021 | Atualizada em - 04/06/2021

A morte do arquiteto Luiz Felipe Bernardes dos Santos, de 37 anos, conhecido como Macalé, é um mistério para seus amigos e familiares. Na noite do último sábado (29), ele teria saído de um bar já durante a madrugada para ir para casa em um carro de aplicativo. O celular, encontrado no imóvel, mostra que a corrida foi encerrada a 1h53 da manhã de domingo, mas o corpo de Macalé foi encontrado por volta de 3h20 no vão do Viaduto Sumaré, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. 

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Segundo familiares, o boletim de ocorrência dá conta de que um ciclista passava pelo local quando viu o corpo de Macalé caindo. A linha de investigação é de suicídio, o que tem causado revolta entre os que conheciam o arquiteto. 

Ele ficou a noite inteira me mandando mensagem. Ele estava feliz, falando que estava com um amigo, comemorando o nascimento do netinho de outra amiga… Me mandou várias fotos de momentos de felicidade”, contou a mulher, Patricia Brasil. Os dois estavam em um relacionamento há alguns meses e haviam celebrado a união recentemente de forma festiva, embora sem cumprir os trâmites tradicionais do estado. 

O Macalé é um poeta. A pessoa que vai se matar deixa carta, deixa vestígio, escreve, mas nenhum amigo vai te dizer que ele tinha essa inclinação”, ponderou Patricia.

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O amigo João Alves compartilha da indignação. Segundo ele, em entrevista ao Hypeness, Macalé “não tinha propensão suicida”. “Eu já tinha conversado com ele sobre suicídio por conta da morte de um amigo em comum. Nós ficamos conversando sobre isso e os dois chegaram à conclusão que não faria isso. O Macalé também não era uma pessoa que não pedia ajuda, ele pedia. Tanto que, quando a mãe dele faleceu, ele foi atrás de mim para pedir suporte. Se ele estivesse passando por algo assim, ele também recorreria a mim ou ao Sócrates”, diz, em referência a um outro amigo do arquiteto. 

Nas conversas com Patrícia, Felipe Macalé aparentava estar feliz e se divertindo.

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A casa em que Macalé vivia, em Água Branca, estava revirada e com sinais de arrombamento pela manhã. O arquiteto, que também era artista, morava em um imóvel próprio, herdado após o falecimento da mãe. O terreno tem uma segunda casa nos fundos, onde moram sua tia e dois primos. Foram eles que estranharam as luzes acesas na casa de Macalé pela manhã, quando ele normalmente deixava apenas a luminária da escada funcionando à noite. 

De acordo com os relatos de Patrícia, Macalé não estava nas manifestações contra o governo Bolsonaro, que aconteceram no último sábado, na Avenida Paulista. Porém, ela teme que o fato dele ser um homem negro e estar com uma camisa vermelha (da seleção da Colômbia) possam ter despertado a ira de algum grupo de ódio. 

Ela conta que o marido estava a caminho do bar, de ônibus, quando decidiu descer e seguir a pé por conta das interdições de trânsito provocadas pelo protesto. 

“Eu não acredito que ele estava militando na manifestação. Ele passou por ela e foi para o bar, mas eu acho que a gente nao pode descartar nenhuma possibilidade porque o Macalé era um homem negro e estava vestido de vermelho. Não sei se alguém, por maldade, identificou ele como um esquerdista mesmo ele não tendo participado como militante da manifestação. A gente não pode descartar nada”, lamenta.

Durante toda a noite, Macalé conversou com Patrícia pelo WhatsApp e chegou a enviar fotos dos momentos de diversão com os amigos. Em um delas, ele aparece usando uma bolsa que sempre estava com ele. O mesmo item foi encontrado mais tarde na casa de Macalé, mas artigos como um anel de formatura, um computador e um caderno de anotações pessoais desapareceram. 

Macalé e um amigo brindam em foto enviada à mulher dele, Patricia.

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Patricia pretende ir à delegacia ainda nesta quarta-feira para abrir uma queixa crime. A intenção é que a ideia de suicídio seja descartada.  “É impossível acreditar em suicídio. Não é nem questão de ser impossível, são fatos”, conclui. 

A investigação da morte de Macalé está em curso no 23º Distrito Policial de São Paulo, em Perdizes. Procurada, a delegada titular, Ancilla Vega, informou, por meio de um auxiliar, que o inquérito já foi instaurado, mas que maiores detalhes só poderiam ser compartilhados com a autorização da assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo.

A assessoria da SSP informou, em nota, que “o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pelo 23º DP (Perdizes). Todo trabalho de polícia judiciária  e técnico científica é realizado para esclarecer as circunstâncias dos fatos. Os familiares estiveram na unidade e foram ouvidos pela autoridade policial responsável pela investigação”.

Nas redes sociais, as hashtags #JustiçaPorMacalé e #QuemMatouFelipeMacalé cobram que o caso seja investigado a fundo pelas autoridades. 

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Fotos: Acervo pessoal/Reprodução


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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