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‘Nota fiscal, RG e polícia no pé’: jovem negro vítima de racismo vira investigado no país sem limites

Kauê Vieira - 22/06/2021

A noção de que para tudo na vida há limite se transforma conforme a pessoa vai se aproximando da vida adulta. No Brasil, a lógica opera um pouco diferente e a vida pode ser um portal sem limites caso você tenha o privilégio de nascer branco ou branca. 

Cor de pele é coisa séria no país continental. O Brasil sempre se orgulhou de ser um lugar onde tudo planta, onde tudo dá. Um país onde negros e brancos convivem em paz e harmonia. Desde que você, pretinho ou pretinha, ande na linha. Não passe dos limites. Em qual mentira vou acreditar?

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Matheus Ribeiro foi vítima de racismo. E racismo é crime

O casal branco sem limites 

Certamente você ouviu falar sobre o episódio envolvendo um jovem negro em um bairro rico da zona sul do Rio de Janeiro. Aqui pra nós, você, se for for preto, nem precisa ler os jornais para entender a história que te assombra todos os dias. 

Seja sincero, quando você, negro ou negra, andou tranquilamente nas ruas de um bairro chique? Aposto R$ 10 que você não tem coragem de entrar em uma loja da Rua Oscar Freire, região de São Paulo especializada em comércio de luxo, usando um par de sandálias. 

Dá pra perceber que o caso de Matheus Ribeiro, 22 anos, não é lá uma novidade por essas bandas do mapa da cútis. O instrutor de surfe estava no Leblon, na porta de um shopping esperando a namorada sair do trabalho. Era sábado, Dia dos Namorados, mas o amor no ar não foi o bastante para impedir um casal branco de romper a barreira do limite. 

Quer dizer, que limite? O bonito ainda não entendeu que limite para branco não existe? Matheus foi vítima de racismo. Acusado, na cara dura, de ter roubado a bicicleta elétrica dos namorados Mariana Spinelli e Tomás Oliveira

Afinal, como um pretinho pode andar montado numa moderna bicicleta eletrificada? O casal abordou Matheus, que negou com veemência o absurdo. Eles só pararam quando não conseguiram abrir o cadeado. 

Eis que o responsável pelo furto da bicicleta de Mariana Spinelli e Tomás Oliveira apareceu. A ironia cresce, já que o rapaz detido pela polícia do Rio atende pelo apelido de ‘lorão’.

‘Lorão’ perto da bicicleta ainda presa no poste

Igor Martins Pinheiros mora em Botafogo, bairro de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro. Imagens de câmeras de segurança mostram ‘lorão’ próximo da bicicleta do casal, que estava presa em um poste. O homem branco de 22 anos possui 28 passagens na polícia, com sete prisões.

Ah, os limites. Os racistas agressores de Matheus Ribeiro, apesar de todos os elementos, estão sendo investigados pelo crime de calúnia. A delegada que recebeu o caso, Natacha Alves de Oliveira da 14ª DP (Leblon), disse o seguinte sobre não tipificar o episódio racista como injúria racial.

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“A gente sabe que existe racismo estrutural no Brasil, isso é inegável. Mas nem sempre é o suficiente para se enquadrar no tipo penal”, declarou a delegada Natacha Alves, responsável pelo caso.

Nota fiscal, RG e polícia no pé

O ápice da falta de limites é a notícia de que Matheus saiu de vítima para investigado. O instrutor de surfe, diz a polícia, terá que provar a origem da sua bicicleta. Sabe a máxima da nota fiscal na bolsa quando sair com o tênis novo na rua? 

Pois bem, a falta de limites do sistema em colocar o negro como suspeito ganha novo capítulo. A namorada do instrutor de surfe enviou para a polícia uma nota de pouco mais de R$ 3 mil para provar a compra da bike. Não adiantou muito. 

O casal Mariana Spinelli e Tomás Oliveira

A Folha de São Paulo ouviu o advogado criminal Guilherme Furniel, que não escondeu o espanto pela investigação considerada desproporcional por ele. O advogado lembrou que não existe nenhuma obrigação em lei para que as pessoas andem com nota fiscal dos produtos que compram. 

“Fazendo uma busca rápida na internet, achei dezenas de bicicletas por preço igual ou menor. Não acho que foi algo tão desproporcional”, declarou à Folha. 

O problema é que o mundo é diferente para aos que vivem no país onde o limite depende da cor da sua pele. “Se eu fosse um rapaz branco não teria sido abordado de tal forma”, Matheus Ribeiro ao jornal O Globo.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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