Diversidade

Parada LGBT+ por quem a acompanha desde os 11 anos: ‘Meu camarote era a banca do meu pai’

Gabriela Rassy - 01/06/2021 | Atualizada em - 04/06/2021

O ano era 1997 e eu tinha ali meus 11 anos incompletos quando meu pai me levou para passar o dia em seu trabalho. A Banca Mansão não era um ambiente novo para mim. Seus poucos metros quadrados, uma imponência para meu tamanho comedido de criança – ainda que espichada -, ocupavam a esquina entre a Avenida Paulista e a Pamplona. Foi deste modesto camarote que acompanhei a primeira Parada do orgulho LGBT de São Paulo.

O que era a Parada Gay em seu tempo passou a fazer parte do meu calendário anual. Fazia questão de estar com meu pai neste dia de trabalho todos os anos. Ainda que Seu Rassy seja um típico homem heterossexual dos anos 1960, não pensou “como eu vou explicar isso para minha filha?”, até por que, isso não é nem de perto um problema dele. Eu, por outro lado, sigo com a comorbidade seríssima do apreço ao homem hétero. Ir à Parada não tirou esse mal de mim, mas mas consolidou como uma aliada do movimento.

Enquanto eu crescia, ela cresceu também. E bote tamanho nisso! Deste encontro de cerca de 2 mil pessoas que desfilavam sob o tema “Somos muitos, estamos em várias profissões”, ela se tornou nada menos que a maior parada do gênero no mundo todo.

Amadureceu. Mudou de status social e por duas vezes de nome. Virou ONG e passou a abraçar em seu título outras letras que hoje compõe a sigla LGBT+. Assim, dá espaço causas ligadas à comunidade o ano todo e inclui toda a gama de subjetividades que podemos ter.

“A Associação da Parada é mais conhecida pelo evento que acontece na Avenida Paulista, mas costumamos falar que a filha se tornou maior do que a mãe”, brinca Diego Ribeiro Oliveira, Primeiro secretário da Associação da Parada do Orgulho LGBT.

Essa caminhada fez com que a relevância do evento só aumentasse. Uma festa, sim, mas uma festa política. Um espaço amplo e aberto para falar sobre amor. Sobre inclusão, representatividade, sobre respeito. Só em 2019, o evento reuniu 3 milhões de pessoas na avenida Paulista.

“A Parada LGBT da cidade de São Paulo mostra ao mundo que somos muitos, relevantes, criativos, cabeças pensantes e continuaremos resistindo a qualquer tipo de ameaça do conservador principalmente nos dias atuais”, resume Tchaka Drag Queen, apresentadora da Parada.

A luta contra a LGBTfobia é de toda a sociedade – seja você ou não pertencente à bolha LGBT. Sim, nós podemos conviver se misturar viver crescemos enquanto sociedade e com grandes oportunidades para todes.

Thcaka fala em toda a sociedade mesmo. Fala como um chamamento para que todes juntes possamos enfrentar o preconceito e construir uma forma de convívio mais igualitária.

Segundo ano de pandemia

Neste ano, mais uma vez, infelizmente, devido aos acontecimentos do mundo inteiro com a Covid-19 e à má gestão da crise pelo nosso governo, a Parada LGBT+ será online. Mas se em 2020 a organização foi pega de surpresa e armou uma programação virtual em 30 dias, neste ano tiveram tempo para estruturar as 8 horas seguidas de programação.

Como o momento pede, o reforço é na saúde com o tema “HIV/Aids: Ame + Cuide + Viva +”. Ainda que pareça um assunto antigo a se tratar, nunca foi tão importante discutir o cuidado. Afinal, o tema faz um contraponto dos 40 anos de luta do movimento HIV/Aids e também do movimento LGBT+.

“Com a pandemia, nós tivemos um resumo do que é essa luta de 40 anos dentro da questão de saúde. Você vê pessoas queridas morrerem por falta de assistência, por não ter medicamento, vacinas, não ter políticas públicas. A gente traz esse tema num momento oportuno, para que as pessoas possam refletir e quebrar estigmas que em 40 anos não foram e ainda precisam ser quebrados”, reflete Diego.

“Neste ano, nós vamos atingir pessoas que nunca puderam vir aqui em São Paulo e presenciar a parada ao vivo. Adentraremos rincões do Brasil, porque o mundo virtual tem essa magia”, comenta animada Dindry Buck, ativista LGBTQI+ e associada da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

“A parada vai acontecer online e nós estamos celebrando juntos para depois soltarmos esse grito entalado na garganta na Avenida Paulista, quando for permitido, e mostrar que fervo também é luta e que estamos ali para colorir, para levar amor e para respeitar quem está do nosso lado”, diz Dindry.

O evento traz ainda debates sobre a diversidade dentro da própria comunidade LGBT+. Vai desde a representatividade política até as pessoas da própria comunidade que são invisibilizadas, como pessoas com deficiência, pessoas negras, indígenas, e da terceira idade. “São muitos temas e muitos assuntos que nós precisamos dialogar no dia a dia e não somente no Mês do Orgulho ou quando acontece alguma tragédia”, aponta Diego.

A Associação da Parada desenvolve uma série de atividades ao longo do ano. No último, por conta da pandemia, o grupo fez uma ação de assistência social através do projeto Parada pela Solidariedade para  captar recursos e cuidar da higiene de primeiras necessidades para pessoas em situação de vulnerabilidade.

O grupo ainda promove ciclos de debate, encontros de saúde, capacitação em discursos, e uma série de ações anuais para dar visibilidade à comunidade LGBT+, tudo pautado pelo ativismo e pelos Direitos Humanos.

25ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo
6 de junho de 2021, a partir das 14h
No YouTube, nos canais da APOLGBT-SP, Dia Estúdio e dos apresentadores
Acesse o Manifesto oficial da 25ª edição da Parada.

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Fotos:
Arquivo
Gabriela Rassy
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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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