Debate

Prisão de jornalista pró-democracia mostra como a China vem acabando com a liberdade de imprensa em Hong Kong

Vitor Paiva - 29/06/2021

Foi detido em Hong Kong no último domingo o jornalista Fung Wai-long, editor do jornal pró-democracia “Apple Daily”. A prisão aconteceu no momento em que o jornalista de 57 anos pretendia deixar o território chinês, e se baseou na lei de segurança nacional imposta pela China sobre o território há cerca de um ano. Opositor do governo chinês e defensor da autonomia política de Hong Kong, o jornal editado por Wai-long encerrou suas atividades e publicou sua última edição na semana passada após 26 anos de circulação.

o jornalista Fung Wai-long sendo preso

Fung Wai-long sendo transportado em carro da polícia © TVB via AP

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A polícia chinesa confirmou a prisão de um homem de 57 anos no aeroporto por, segundo dados, “conluio com forças e potências estrangeiras para prejudicar a segurança nacional”, mas sem confirmar o nome do jornalista. Na mesma semana em que o “Apple Daily” encerrasse suas publicações, outro colunista do jornal, Yeung Ching-kee, foi também preso, libertado em seguida após pagamento de fiança – antes disso, porém, uma operação policial realizada em 17 de junho envolvendo 500 policiais prendeu cinco diretores na redação do jornal.

A distribuição do último número do "Apple Daily"

A distribuição do último número do “Apple Daily” teve cobertura da imprensa e manifestações

A distribuição do último número do "Apple Daily"

O fechamento do jornal foi justificado por questões financeiras na última edição

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Segundo afirmou em comunicado, para a Associação de Jornalistas de Hong Kong, as últimas prisões e perseguições, e em especial o fechamento do jornal praticamente “acabaram com a liberdade de imprensa” em Hong Kong. Outras operações anteriores já vinham perseguindo o “Apple Daily”, mas foi a primeira vez que a lei de segurança nacional foi usada como motivador para realizar uma prisão a partir do conteúdo do jornal. Fung Wai-long trabalhava como editor de opinião do jornal, e se tornou o sétimo integrante do jornal detido com base na lei.

O último número do "Apple Daily"

Funcionários do “Apple Daily” se comunicando com luzes com os manifestantes no último dia 

O último número do "Apple Daily"

Os funcionários foram fotografados com o número diante da redação

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Wai-long estaria saindo do território na direção do Reino Unido e, segundo a polícia, as investigações a respeito dos alegados conluios permanecem, no contexto em que as principais lideranças pró-democracia estão sendo presas. Jimmy Lai, empresário e proprietário do “Apple Daily”, está mantido há meses em prisão preventiva por ter participado de manifestações pela democracia em 2019 – a lei de segurança nacional foi imposta em 2020 sem passar pelo parlamento de Hong Kong e incorporado como “Lei Fundamental” sobre o território.

Parte dos policiais durante a operação que prendeu 5 diretores do jornal no dia 17

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Hong Kong era reconhecida como território britânico até 1997, quando foi devolvida à China sob acordo de que a região teria sua autonomia mantida e respeitada – tal acordo, porém, jamais foi inteiramente respeitado e, a partir dos protestos de 2018 por maior liberdade política, o quadro de intervenção chinesa se agravou consideravelmente. “A Associação de Jornalistas de Hong Kong reitera que a liberdade de expressão e de imprensa são valores fundamentais de Hong Kong”, afirmou a associação, no comunicado supracitado. “Se até mesmo a escrita de intelectuais não é tolerada, será difícil para Hong Kong ser reconhecida como uma cidade internacional”.

O diretor Chow Tat Keun sendo preso durante a operação contra o jornal

O diretor Chow Tat Keun sendo preso durante a operação contra o jornal

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© fotos: Getty Images/créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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