Inspiração

Suécia atingiu desenvolvimento através do olhar social de Alva Myrdal, vencedora do Nobel da Paz

Vitor Paiva - 22/06/2021 | Atualizada em - 25/06/2021

Se a Suécia hoje é exemplo de país tocado por políticas de combate à desigualdade e em nome da justiça social, como uma das mais bem-sucedidas sociais-democracias do planeta, é preciso agradecer especialmente a uma pessoa: Alva Myrdal, uma das reformadoras sociais mais importantes de todos os tempos e vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 1982. Nascida na cidade de Uppsala em 1902, a Suécia na qual Alva cresceu vivia uma realidade radicalmente diferente da atual – como um país agrícola, desigual e um dos mais pobres da Europa: o trabalho da socióloga e diplomata foi determinante para a superação de tal quadro – como mostra reportagem da BBC.

Alva Myrdal em 1977

Alva Myrdal em 1977 © Getty Images

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Além da pobreza, um determinante patriarcal e machista marcaria diretamente a trajetória de uma mulher como Alva: no campo, onde vivia, as meninas não podiam frequentar a escola primária. Sua formação, portanto, foi feita de forma autônoma e pelo esforço e mérito próprio, a partir da vasta biblioteca de seu pai, Albert Reimer, um homem sem formação mas especialmente culto e membro do Partido Social-Democrata sueco. O estudo de filósofos diversos e autores e pensadores socialistas formou o ideário da jovem Alva, que viria assim a convencer o pai a contratar professores particulares para seu estudo formal.

Alva Myrdal caminhando em 1945

A jovem Alva começou seus estudos por conta própria, já que não lhe era permitido estudar © Wikimedia Commons 

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Ainda jovem ela conheceria Gunnar Myrdal, então estudante de direito e, mais tarde, economia – campo pelo qual viria a também ganhar um Prêmio Nobel. Alva se formaria em biblioteconomia, e os dois se casariam em 1924, quando ela tinha 22 anos. Cinco anos depois, em 1929, foram passar um ano nos Estados Unidos para cumprir uma bolsa de estudos – a experiência de visitar o país norte-americano durante o período da Grande Depressão foi determinante para se repensar a política sueca de forma direta e objetiva: ao enxergarem tanta pobreza no país mais rico do mundo, voltaram à Suécia seguros de que não poderia deixar algo assim acontecer em seu país.

Alva e Gunner Myrdal

Alva e Gunner Myrdal: viagem aos EUA em 1929 mudou o pensamento do casal – e a realidade sueca © Wikimedia Commons

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O fruto da experiência veio em forma de um livro, que impactou toda a sociedade sueca: Crise na Questão da População foi publicado por Alva e Gunner Myrdal em 1934, defendendo a ajuda estatal para a população, oferendo assistência médica, métodos contraceptivos, alimentação escolar gratuita, moradias melhores e acessíveis e benefícios sociais universais garantidos pelo estado, a fim inclusive de incentivar as pessoas a terem mais filhos. Da mesma forma, a obra defende que a liberdade para as mulheres trabalharem ou estudarem, e por isso era fundamental o estabelecimento de locais onde os filhos pudessem ficar durante o dia.

Alva Myrdal

Livro de Alva e seu marido causou furor na sociedade sueca – e mudou a maneira de se endereçar as questões sociais no país © Getty Images

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Apesar de ter sido submetida ao longo de toda sua vida às exigências da carreira do marido – que inicialmente se sobrepuseram ao seu próprio caminho –, Alva foi sendo reconhecida e trilhando um caminho luminoso: em 1949 se tornou a primeira mulher a ocupar um cargo de alto escalão na ONU, como chefe do Departamento de Assuntos Sociais. Em seguida, em 1951, chefiou o Departamento de Ciência Sociais da Unesco; em 1956 publicou o livro Os Dois Papéis das Mulheres, influente obra que antecipava o debate feminista de então, junto da socióloga austríaca Viola Klein. Eleita para o parlamento sueca como deputada social-democrata, planejou e presidiu o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.

Alva e Gunner Myrdal

A relação de Gunner e Alva se revelaria também movida pelo machismo e o sexismo da época © Getty Images

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Alva se tornaria a única Ministra do Desarmamento do mundo, e sua atuação por duas décadas pelo desarmamento nuclear, como principal negociadora sueca no Comitê das Dezoito Nações sobre Desarmamento seria o compromisso pela qual seria reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz, em 1982 – junto do mexicano Alfonso García Robles. Alva tinha 80 anos quando ganhou o prêmio, e viria a falecer quatro anos depois, em 1986, como uma das personagens mais influentes do século XX e a fundadora da Suécia moderna – após uma luta de vida inteira pela justiça social, o combate à desigualdade e pela paz.

Alva Myrdal

Alva Myrdal dedicou mais de duas décadas ao desarmamento nuclear como causa © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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