Debate

China tem o segundo maior número de bilionários do mundo e enfrenta geração cansada do excesso de trabalho

Yuri Ferreira - 05/07/2021

Enquanto o mundo todo tropicava por conta da pandemia de covid-19, a economia chinesa seguia a todo o vapor depois de controlar o vírus no começo de 2020. Entre 2010 e 2021, o PIB da China quase triplicou e, com isso, o país alcançou números absurdos em todos os parâmetros: detém o maior parque industrial do planeta, domina as exportações do mundo e é a maior parceira comercia de boa parte dos países do terceiro mundo.

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Entretanto, um dos dados da economia liderada por Pequim parece incongruente com o socialismo: é no país que se concentra o segundo maior número de bilionários do planeta. São 626. Só os EUA, com 724, superam os chineses.

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Para conseguir fazer o seu desenvolvimento industrial e sair da condição de país agrário, as reformas propostas por Deng Xiaoping em 1976 foram marcadas pela contradição com um modelo socialista per se, similar ao soviético ou ao cubano. A permissividade à propriedade privada e a redução dos direitos trabalhistas fizeram com que o país dominasse as fases produtivas de ponta à ponta: hoje a China possui uma produção agropecuária gigantesca, o maior parque industrial do mundo e uma indústria de tecnologia e pesquisa que avança a todo vapor.

Para financiar esse desenvolvimento nunca antes visto na história moderna, os custos foram altos. O principal deles, certamente, foi criar uma massa de trabalhadores com baixos salários nas maiores cidades do país, como Xangai, Pequim, Wuhan e Chengdu. Longas jornadas de trabalho e condições de trabalho precárias geraram muita riqueza ao país, afinal, como diz a cartilha marxista, é a mais-valia que gera acumulação de capital.

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O crescente número de bilionários chineses é uma contradição com o modelo socialista. Mas não é incomum que se veja nas manchetes da mídia ocidenta que o país prepara uma perseguição ou já persegue alguns de seus super-ricos.

Um exemplo é o de Jack Ma, o dono do Alipay e do Alibaba, um dos homens mais ricos do mundo, que ficou famoso ao dizer que a “jornada de trabalho ideal” seria de 12 horas durante seis dias da semana (e é a utilizada em sua empresa).

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Desde 2019, o país adota uma legislação mais rígida em cima dos mais ricos. O amplo controle do sistema bancário dificulta a evasão de divisas ou a sonegação de impostos.

Ma entrou em rota de conflito com o governo chinês após criticar a nova legislação tributária do país, que reduzia os impostos da classe média e taxava os super-ricos. Além disso, a oposição do Partido e dos principais jornais do país contra o sistema de trabalho 996 (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana), adotado por Ma, fez com que o bilionário passasse alguns meses longe dos holofotes.

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Esse controle faz com que a China tenha uma relação um pouco mais igualitária com os super-ricos do que os EUA, por exemplo. Como o financiamento privado de campanha é o principal modus operandi da política estadunidense, os super-ricos tem um tratamento diferente pelo sistema tributário e político do país. Um exemplo: com patrimônio de US$ 151 bilhões, Elon Musk não pagou imposto de renda no ano de 2018.

Quando comparamos o coeficiente Gini, que mede a desigualdade dos países, e observamos China e EUA, observamos que a desigualdade no país comunista é bem menor do que a capitalista: no país de Xi Jiping, o coeficiente é de 0,38 e, no país de Biden, o índice aponta para um nível de desigualdade de 0,41. Quanto maior o índice, maior a desigualdade.

O modelo chinês precisa encontrar um equilíbrio para a sua desigualdade, prevista no plano de ‘Dupla Circulação’, que pretende expandir o mercado interno do país com aumento de direitos trabalhistas e do poder de consumo de sua população, reduzindo a dependência das exportações.

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Com a recente celebração dos 100 anos do Partido Comunista, a China se vê em um momento chave de sua história: estabelecida como uma das maiores economias do mundo, resta compreender se o seu caminho será a redução das contradições entre sua desigualdade e o socialismo ou o abandono da foice e do martelo e o abraço aos desejos da sua crescente elite de bilionários.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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