Diversidade

Nelson Mandela organizou greve política negra que virou ‘Dia da Liberdade’ na África do Sul

Redação Hypeness - 15/07/2021 | Atualizada em - 16/07/2021

Você já ouviu falar da Campanha de Desafio? Essa foi a primeira grande articulação política de um jovem socialista sul-africano, Nelson Mandela. Em 1952, o líder da juventude do Congresso Nacional Africano organizou uma greve política pacífica contra a imposição do apartheid no país comandada pelos brancos que comandavam o país. Em uma campanha de desobediência civil influenciada pelo movimento Satiagraha de Mahatma Gandhi na luta contra a colonização inglesa na Índia, a resistência negra na África do Sul.

– District Six: a incrível (e terrível) história do bairro boêmio e LGBTQI+ destruído pelo apartheid na África do Sul 

Contexto político na África do Sul e o começo do Apartheid

A África do Sul não teve uma revolução independentista similar às observadas nas Américas e no Caribe ou nas posteriores guerras de independência como as observadas no mesmo continente a partir dos anos 1960. Em 1910, o país deixou de ser um domínio britânico e se tornou uma união de colonos entre colônias britânicas e holandesas, sob o nome de União Sul-Africana. Com os brancos dominando os meios políticos, muitas legislações reforçando a supremacia branca no país foram criadas logo no surgimento dessa nova nação.

– Fora das rotas turísticas, antigo subúrbio da Cidade do Cabo é uma viagem no tempo

Negros, indianos e até alguns brancos lutaram contra o apartheid na África do Sul, que seria libertada pela luta do Congresso Nacional Africano, liderado por Nelson Mandela

Existia uma disputa entre os colonos brancos calvinistas holandeses africâneres e os britânicos na política institucional no país. Os negros tinham pouca participação política no país e a grande maioria não tinha direito a voto. Mas o apartheid só começaria em 1948, com a vitória do Partido Nacional, representante dos interesse holandeses na ex-colônia.

– África do Sul quer reforma agrária para devolver terras confiscadas de negros durante o Apartheid 

O apartheid, claro, não surgiu de um dia pro outro. A primeira defesa dele foi feita por um colono africâner em 1917. Foram realizadas uma série de políticas de segregação antes da vitória dos africâneres em 1949. Mas com a ascensão do Partido Nacional ao poder, o apartheid se tornou uma política de estado.

A principal lei que instituiu a segregação racial foi a Lei de Registro Nacional, em que todos os cidadãos deveriam registrar sua raça junto ao estado. Também foram instituídas as ‘Pass Laws’, que instituíam um ‘passaporte de cor’ para impedir a presença de negros em diversos locais. Em 1951, os negros perderam todos os seus direitos eleitorais.

África do Sul se tornou caldeirão de revoltas durante a ditadura racista do Partido Nacional, uma organização racista que institucionalizou a supremacia branca no país

O apartheid não era sutil ou sublime. Houve, nesse período, a instituição da Lei de Educação Bantu, que afixava que crianças negras não poderiam ser educadas como as brancas. “Não há lugar para o Bantu [pessoa negra] na comunidade europeia acima de certos tipos de trabalho. Portanto, qual o propósito de ensinar matemática a uma criança bantu, se ela não poderá colocar em prática? É simplesmente absurdo. Educação deve treinar pessoas de acordo com suas oportunidades na vida e a esfera na qual vive”, dizia o primeiro ministro sul-africano, Hendrik Frensch Verwoerd, considerado o ‘arquiteto do apartheid’.

Nelson Mandela e a resistência anti-apartheid

Com a instituição do apartheid, 80,7% da população sul-africana era tratada como inferior pelo regime na África do Sul. Eram quase 68% de nativos, 9% de miscigenados e 3% de indianos trazidos pelos colonos ingleses. Toda essa população tinha menos direitos que os brancos no país. O Congresso Nacional Africano, principal organização da população africana no país, viu que era momento de agir contra a opressão. Uma liderança surgia no país: Nelson Mandela, então presidente da juventude do partido que lutavas contra o apartheid.

– 25 anos depois de Mandela, África do Sul aposta no turismo e diversidade para crescer 

Mandela em campanha política após sua libertação; ele seria eleito presidente da África do Sul em 1994

Em 26 de junho de 1952, o partido de Nelson Mandela organizou um ato de desobediência civil e iniciou a Campanha do Desafio: foram realizadas várias práticas de resistência como uma greve política, a queima dos passaportes de raça e a ocupação de espaços brancos. A greve ficou marcada como o maior movimento político anti-apartheid até então.

A ação foi um sucesso para a mobilização dos negros  no país: de 7 mil filiados, o Congresso Nacional Africano passou a ter 100 mil militantes em suas linhas.

– Sem Winnie Mandela, o mundo e as mulheres negras perdem mais uma rainha da luta antirracista

A chamada Campanha do Desafio foi um sucesso para fortalecimento da política negra na África do Sul. Nelson Mandela se tornaria líder regional do partido e sua capacidade de mobilização foi peça-chave para o fortalecimento do partido marxista dos negros africanos. Suas táticas foram continuadas durante toda a década. Em 1955, Mandela foi preso por traição durante uma ação da Campanha.

Entretanto, em 1960, uma manifestação do Congresso Nacional Africano foi coibida pelo governo sul-africano. 59 pessoas negras foram assassinadas pela polícia dos brancos. Como consequência, o partido de Nelson Mandela foi proibido pela ditadura supremacista do Partido Nacional. Dois anos depois, Mandela seria preso com ajuda da CIA. O Ocidente – especialmente o Reino Unido e os EUA – via com bons olhos o apartheid porque a organização decolonial nos negros na África do Sul tinha como pressupostos a libertação da população nativa sob um viés político marxista.

Manifestações do Congresso Nacional Africano contra os passaportes raciais, pelo direito ao voto e por igualdade salarial entre negros e brancos na África do Sul

Ao longo de toda a história do partido, o ‘Dia da Liberdade’ foi instituído como uma data essencial para a luta contra o apartheid. 26 de junho se tornou um dia de memória e resistência da maioria da população contra as estruturas coloniais e racistas que operavam na África do Sul.

– DRUM contra o Apartheid: a história da ‘primeira revista africana de vidas negras’ 

Como cunhou Mandela no Congresso Nacional Africano de 1956, que celebrava o dia da Campanha do Desafio, “nunca existiu uma caminhada simples para a liberdade, e muitos de nós teremos de caminhar pelo vale das sombras e da morte, de novo e novo, para conquistarmos o topo das montanhas e o nosso desejo. Dificuldades e perigos não irão nos prender no passado e não irão deter o nosso futuro. Estaremos preparados para todos os problemas, como os homens de negócio não gastam energia em conversas bobas e em ações preguiçosas. Nossa preparação para a ação se garante no nosso trabalho para a liberdade. Toda a impureza e indisciplina da nossa organização deve ser melhorada. Seremos o instrumento que trará a libertação e a luz para África”. 

– Cuba e o movimento de libertação africana se encontram na arte; entenda 

O dia é celebrado até os dias de hoje nas linhas de frente do partido do Congresso Nacional Africano, que governa a África do Sul desde 1994. O dia é um marco porque mostra a importância e a força política da população negra no país que sofreu um dos mais terríveis regimes de segregação racial de todo o mundo. O Dia da Liberdade mostra a importância da organização política e a relevância de Nelson Mandela para a África do Sul e para as ex-colônias de todo o mundo até os dias de hoje.

Publicidade

Fotos: Getty Images


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Olimpíadas: narradora usa pronome neutro em transmissão e viraliza por respeitar identidade de atleta