Diversidade

Nelson Mandela: relação com comunismo e o nacionalismo africano

Redação Hypeness - 16/07/2021 | Atualizada em - 19/07/2021

Qual era a posição política de Nelson Mandela? O líder da libertação dos negros no regime de apartheid que durou mais de 45 anos na África do Sul tinha relação com diversas ideologias, mas sempre se manteve avesso aos rótulos. Durante a história da política sul-africana, o comandante da resistência mudou diversas vezes de opinião e teve aliados diferentes na construção de sua luta. Mas duas ideologias tem papel preponderante no pensamento de Mandela: o comunismo e o nacionalismo africano.

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Nelson Mandela e o socialismo

O papel de Nelson Mandela se tornou preponderante na política sul-africana a partir da Campanha do Desafio, ou Defiance Campaign, uma movimentação do Congresso Nacional Africano – partido do qual o líder fazia parte. Em junho de 1952, o CNA, principal organização do movimento negro sul-africano, decidiu se movimentar contra as leis que institucionalizaram o regime de segregação entre brancos e não-brancos no país.

Foram 10 anos agindo com inspiração no Satyagraha de Gandhi – que tinha forte influência na África do Sul por ter morado e se movimentado politicamente no país -, mas a repressão não mudava: a ditadura supremacista branca do governo africâner chegou a matar 59 pessoas em uma manifestação pacífica em 1960, o que motivaria a proibição do CNA no país.

Foi no contexto de criminalização do CNA que Nelson Mandela se aproximou das ideias socialista. Segundo estudos, documentos e relatos da época, Mandela fez parte do Comitê Central do Partido Comunista da África do Sul, que também se aliava aos negros na luta contra o apartheid.

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A ajuda de Cuba para o movimento de Mandela foi crucial; Mandela via uma inspiração em Fidel Castro em sua luta de libertação nacional, mas não tinha as aspirações marxistas-leninistas do cubano

A ligação da luta do CNA com o socialismo já era anterior: foram os países do bloco vermelho e em especial a União Soviética que combateria o apartheid em nível internacional. A ditadura encontrava respaldo nos EUA, no Reino Unido e em outros países do bloco capitalista.

Mas Nelson Mandela, já nas linhas do partido comunista, procurava encontrar financiamento para a luta armada no país. O CNA, na ilegalidade, já havia abandonado o pacifismo e entendia que só uma revolta armada poderia libertar os negros das amarras coloniais e racistas que mantinham a segregação.

Nelson Mandela viajou a vários países para tentar encontrar financiamento ao seu movimento armado, mas não encontrou apoio em países capitalistas por conta da ligação do CNA com o socialismo. O principal entrave era justamente nos países da própria África: muitos já independentes haviam se tornado peões na Guerra Fria para lados diferentes. A única forma de encontrar apoio dentro de ambos os lados era no nacionalismo africano.

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Mandela em comício do Partido Comunista da África do Sul; líder via os comunistas como parte de importante aliança, mas estava distante do pensamento marxista-leninista e demonstrou isso com governo de coalizão

“Se por comunismo vocês querem dizer membro do Partido Comunista e uma pessoa que acredita na teoria de Marx, Engels, Lenin, Stalin e adere rigidamente à disciplina do partido, eu não me tornei um comunista”, disse Mandela em uma entrevista.

Mandela sempre negou que era a favor do pensamento marxista-leninista e que integrou o Partido Comunista. Ele se afastou do socialismo como ideologia, mas construiu uma coalizão com o Partido Comunista Sul-Africano durante as eleições de 1994.

Mas Nelson sempre manteve boa relação com os movimentos de esquerda internacional, especialmente na luta pela Palestina e numa amizade próspera com Cuba, que ajudou a financiar a libertação dos negros na África do Sul.

Nelson Mandela e o nacionalismo africano

Mandela sempre foi bastante pragmático ideologicamente e tinha como principal fim a libertação do povo negro e a igualdade racial na África do Sul, com inclinação a um pensamento social-democrata com bem-estar social para a população. É por isso, inclusive, que, após tomar o poder, o CNA se tornou alvo de críticas: além de manter a dominação de brancos sobre negros sem questionar de forma afrontosa a acumulação de propriedades, o partido decidiu fazer um governo de coalizão entre os colonizadores e os oprimidos.

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Gandhi foi uma profunda influência em Nelson Mandela; líder da libertação indiana fez primeiras movimentações políticas na África do Sul. Ambos viraram inspiração no mundo como símbolos da luta anti-colonial

Mas a ideia de uma África livre era crucial para a filosofia de Mandela. A África do Sul havia ficado em condição sui generis em relação às outras nações do continente. Mandela visitou diversos países ao redor do continente antes e depois de sua prisão: o cenário era bastante diferente antes de 1964 e depois de 1990.

Uma das principais inspirações de Mandela foi a Frente de Libertação Nacional da Argélia e seu principal pensador, Frantz Fanon. Ainda que Nelson Mandela não fosse um marxista, era uma anti-imperialista convicto e via no pensamento libertador e decolonial de Fanon uma filosofia para a libertação.

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O ex-presidente da África do Sul não chegava a ser um pan-africanista como Kwame Nkrumah, mas enxergava que era missão dos países africanos a decisão sobre as questões do continente e defendia a independência de todos os países do continente. Ele iniciou uma doutrina diplomática importante no continente e se tornou relevante para a resolução de alguns conflitos no Congo e no Burundi.

Mas um dos principais amigos de Mandela que pode explicar a sua filosofia política é o controverso Muammar Gaddafi, ex-presidente líbio. Gaddafi era um dos principais endossadores do Movimento dos Não-alinhados junto de Nehru, ex-presidente indiano, Tito, ex-presidente iugoslavo e Nasser, ex-presidente egípcio.

Gaddafi e Mandela em reunião da União Africana, instituição diplomática defendida por ambos os líderes para maior poder dos países de África em questões diplomáticas internas e externas

Gaddafi defendia que a África deveria resolver seus problemas internamente e defendia a soberania nacional para resolução de questões internas. O presidente líbio entendia que Mandela era crucial para esse fim e financiou por anos a luta do Congresso Nacional Africano e a vitoriosa campanha eleitoral do sul-africano foi custeada por Muammar Gaddafi.

Isso incomodava profundamente os EUA e o Reino Unido. Em resposta aos questionamentos sobre suas relações com o controverso presidente líbio, Mandela teria dito: “Os que se irritam com nossa amizade com o presidente Gaddafi podem pular na piscina”.

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O pragmatismo de Mandela e seu esforço pela boa diplomacia sem interferência das grandes potências incomodava muita gente. Por isso, hoje vemos uma ideia de que o líder da resistência à ditadura africana seria apenas um “homem de paz”. Mandela entendia que a paz podia ser uma ótima solução, mas tinha uma visão radical da política global e tinha como principal meta a libertação da África do Sul e dos povos colonizados como um todo.

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Fotos: Destaques e Foto 2: Reprodução/South African History Fotos 1, 3 e 4: Getty Images


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