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O médico que ficou rico e famoso nos anos 1920 transplantando testículos de macaco em homens

Vitor Paiva - 08/07/2021

Se hoje alguns charlatões, falsos médicos e terapeutas fazem a vida com pseudociências que prometem soluções fáceis para problemas difíceis, pouco se compara ao frenesi que o doutor francês Serge Voronoff provocou em todo o mundo durante os caóticos anos 1920. A promessa era de uma espécie de elixir da juventude, um estimulante sexual e um remédio para os eventuais males mentais: o método era através do enxerto de tecidos extraídos de testículos de macacos em testículos humanos – é compreensível, portanto, o motivo pelo qual Voronoff ficou conhecido então como o “Homem da Glândula de Macaco”.

O médico francês Serge Voronoff, conhecido como "O Homem da Glândula de Macaco"

O médico francês Serge Voronoff © Wikimedia Commons

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As teorias de Voronoff, supostamente a partir das centenas de experimentos que realizou ao longo de sua carreira em cabras, touros e ovelhas, defendiam essencialmente que o implante de tecidos e órgãos – especialmente os testículos –  mais jovens era capaz de retardar o processo de envelhecimento e trazer diversos outros benefícios. As promessas incluíam o aumento do apetite sexual, da memória, força, disposição, até mesmo melhora na visão e o prolongamento da própria vida – dizia-se que era possível viver até 140 anos a partir de seus métodos.

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“Possível viver até 140 anos”, diz matéria sobre a técnica

O tratamento do médico francês Serge Voronoff no século XX

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O “Homem da Glândula de Macaco” realizou diversos transplantes entre espécie diferentes de animais, e também pesquisou o uso de ovários de macacas mais jovens em mulheres. Durante os anos 1920 e 1930 o sucesso era total: aplaudido por seus pares médicos, Voronoff também tinha filas infinitas de pacientes que desejavam retomar a juventude e alcançar os “poderes” oferecidos pelo tratamento milagroso. O médico realizou procedimentos em milhares de pessoas, tornando-se um milionário, vivendo uma vida de luxo com funcionários diversos em um andar inteiro de um luxuoso hotel em Paris.

O tratamento do médico francês Serge Voronoff no século XX

A casa de luxo onde viveu o médico

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O tema da glândula de macaco virou de tal forma uma verdadeira febre popular que – conforme mostra matéria no site Messy Nessy – foi assunto em uma canção num filme dos Irmãos Marx, foi citado pelo poeta E.E. Cummings (“um famoso médico que insere glândulas de macacos em milionários”, escreveu), foi tema do romance de ficção científica The Gland Stealers, de Bertram Gayton, e até mesmo um coquetel se popularizou no cardápio do luxuoso hotel Ritz, em Paris: o “Monkey Gland” misturava gin, suco de laranja, licor de romã e absinto, e fez a cabeça de muitos frequentadores do bar do hotel em plena era do Jazz.

O médico francês Serge Voronoff

Voronoff em seu laboratório diante de um esqueleto de macaco © Getty Images

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Na década de 1940, porém, as denúncias a respeito dos efeitos – ou da ausência deles – a partir dos métodos de Voronoff circularam rapidamente, e em pouco tempo seu trabalho começou a ser visto com a mesma seriedade que tratamentos de bruxaria ou mágicos. A queda foi tão intensa quanto seu apogeu, e as promessas do “Homem da Glândula de Macaco” tornaram-se motivos de chacota popular – e ao longo dos anos a ineficácia do método foi comprovada. Hoje em dia, a pesquisa do médico sobre glândulas sexuais em mamíferos é vista como registro importante para avanços na endocrinologia e em tratamentos hormonais – mas as promessas milagrosas ficaram mesmo somente como material para ficção científica.

O médico francês Serge Voronoff

Voronoff poucos antes de sua morte, em 1951, aos 85 anos © Getty Images

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© fotos: créditos/reprodução/Messy Nessy


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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