Futuro

Picasso tem obra original queimada para ser transformada em NFT; veja vídeo

Vitor Paiva - 22/07/2021 | Atualizada em - 23/07/2021

A fim de aprofundar a singularidade e o próprio valor das NFTs, um grupo de artistas intitulado Fractal Studios decidiu ir ao extremo para “garantir” a originalidade de seu novo token não fungíveis, e colocou fogo em um rascunho original de Pablo Picasso.

A ideia, vista como brilhante por alguns mas como ultrajante por uma maioria, foi de realmente “transferir” a originalidade da obra para o mundo digital ao fazer a peça deixar de existir no mundo real, e transformar o desenho em dois NFTs: um token representando o desenho antes da destruição, e outro sobre a peça em cinzas, após o fogo. Antes de ser destruída, a peça ficou exposta por dois meses em uma galeria em Denver, nos EUA.

Destruição de rascunho de Picasso

A cena da destruição foi registrada em vídeo © reprodução/Youtube

-NFT levanta debate ético ao prometer destruição de obra de Basquiat ao comprador

Para além da própria destruição de uma obra de arte única, valorosa e original, a principal crítica recebida pelo grupo foi o peso simbólico que tal gesto carrega diante da relação histórica entre censuras e ditaduras e a destruição de símbolos culturais e artísticos.

Segundo Pandu Sastrowardoyo, curador e porta-voz do Fractal Studios, apesar da relação a destruição proposta pelo grupo teria sentido “criativo”, a fim de até mesmo questionar a realidade e o valor das coisas. “A ideia é preservar a peça transformando-a em algo imutável e transferindo o valor do mundo real para o NFT”, afirmou o curador em entrevista recente.

O rascunho "Fumeur V", de Picasso, destruído pelo grupo

O rascunho “Fumeur V”, de Picasso, destruído pelo grupo © divulgação

-Obras de Picasso criança e adolescente mostram um artista completamente diferente – e incrível

“Ao queimar o Picasso e cunhar seu NFT correspondente, o NFT se torna a reserva de valor e a procedência da obra de arte original passa para a web 3.0″, diz texto explicando o gesto.

Originalmente o projeto “The Burned Picasso” (O Picasso queimado) consistiria em somente um NFT representando a obra original, mas o grupo decidiu criar um segundo token quando perceberam que, após queimado o rascunho, as cinzas ainda preservavam os traços do desenho original feito pelo grande artista espanhol. Intitulado “Fumeur V”, o rascunho feito por Picasso em 1964 foi comprada em um leilão na Christie’s em abril de 2021 por cerca de 20 mil dólares, valor equivalente a mais de 104 mil reais na cotação atual.

-Stencil de Banksy é vendido por mais de 1 milhão e se autodestrói em seguida

Outro ponto defendido pelo artista é que a obra passará a ser imortalizada em sua versão NFT. “Os artistas que idolatramos hoje só são grandes em nossa realidade porque conhecemos eles, sabemos da sua procedência. Mas uma criança não fica sabendo do Kandinsky por osmose.

O conhecimento tem que ser registrado em algum lugar e transmitido”, diz o texto, sem esclarecer o motivo pelo qual destruir a obra original é relevante para tal registro, que em nada se mostra mais eficaz que, digamos, uma versão digital de uma peça em um museu ou coleção particular.

O rascunho "Fumeur V", de Picasso, destruído pelo grupo

Os membros do coletivo mantiveram suas identidades anônimas © reprodução/Youtube

-Fotos da última sessão de Kurt Cobain são vendidas como NFT

O NFT da obra queimada já está à venda na plataforma Unique One Art Marketplace, sob preço inicial de 0,25 EHT, na criptomoeda ether – valor equivalente a cerca de 450 dólares – e ficará à venda por mais 10 dias, mas nenhum lance foi ainda efetivamente oferecido.

Os tokens não-fungíveis são uma nova ferramenta tecnológica que basicamente atesta a originalidade e unicidade de um arquivo digital, como uma versão virtual da assinatura que atesta a veracidade de uma peça na vida real. O NFT representando o desenho de Picasso antes de ser queimada ainda não foi posto em leilão.

O rascunho "Fumeur V", de Picasso, destruído pelo grupo

As cinzas também serão entregue em moldura a quem comprar o NFT © divulgação

Publicidade

© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.