Futuro

Selva urbana raiz: sociedades antigas podem ensinar as cidades modernas a serem mais sustentáveis

Vitor Paiva - 01/07/2021 | Atualizada em - 05/07/2021

Muitas vezes olhamos para antigas civilizações como sociedades ultrapassadas e arcaicas, com poucos conhecimentos sobre os quais devemos nos atentar. A maneira, no entanto, com que as grandes cidades dos povos antigos como o Império Maia na América pré-colombiana e o Império Quemer na Ásia, se edificaram, e principalmente se relacionaram com as florestas ao redor podem ser de extremo valor para que as cidades modernas repensem as relações urbanas com as florestas, as matas e principalmente a produção agrícola e de alimentos em geral – uma reportagem no jornal The Guardian atenta para as técnicas que antigas civilizações utilizaram para manter uma relação sustentável e eficiente com a natureza.

Os templos de Palenque, sítio arqueológico no México

Os templos de Palenque, sítio arqueológico no México © Getty Images

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Em ambos os casos, tratava-se não de pequenas aldeias com poucas famílias, mas sim de verdadeiros (e imensos) centros urbanos da antiguidade, que exigia produção alimentos para, em alguns casos, mais de 120 mil habitantes reunidos em uma mesma região. A civilização Maia, por exemplo, utilizava uma técnica chamada de Milpa, que envolve a produção de cultivos variados, em oposição às práticas de monocultura, assim como a movimentação dos locais de plantio: ao mover os cultivos, a região anteriormente utilizada na floresta podia crescer novamente, recuperar a qualidade do solo e da vegetação, e tornar-se plenamente saudável novamente.

Ruínas do templo Maia de Tikal, na Guatemala

Ruínas do templo Maia de Tikal, na Guatemala © Domingo Leiva/Getty Images

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O método da civilização Maia é basicamente o que hoje se chama de “Jardinagem Florestal”, um sistema baseado em produção agrícola sustentável, guiada por uma relação saudável com o solo e os alimentos, de forma a manter a produção em alta escala por todo o ano – variando o “cardápio” de acordo com as necessidades e momentos – mas sem ferir a floresta para tal. Assim, o consumo de abacate, abacaxi, tomates, mandioca e de certos tipos de carne, como de cervos e perus, não se deu somente por uma preferência, mas sim como método econômico, agrícola, por um estilo de vida sustentável e funcional.

Templo Bayon, em Camboja

Templo Bayon, no Camboja © Getty Images

Templo Ta Prohm, também no Cambója

Templo Ta Prohm, também no Cambooja © Mark Croucher/Alamy Stock Photo

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A técnica Maia também incluía a seleção de determinados solos e pontos da floresta para cultivos específicos, e até mesmo no fornecimento de água a civilização cultivava nos reservatórios plantas especialmente sensíveis à qualidade da água, como vitória-régia, que só cresce em partes de água especialmente limpa. Outro ponto importante – revelado por técnicas modernas chamadas de Lidar, ou detecção de luz e alcance através de laser – é a grandeza das cidades, que ocupavam espaços gigantescos, semelhantes em alguns casos ao de cidades modernas como Paris, tanto entre os Maias quanto entre os Quemer.

Detalhe do templo de Ta Prohm

Detalhe do templo de Ta Prohm: a civilização Quemer usava técnicas hoje conhecidas como Jardinagem Florestal © Stewart Atkins/Getty Images

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Tal grandeza permitia que, além de baseada nas técnicas agrícolas supracitadas, as cidades funcionassem em baixa densidade populacional – e essa é a base do que se pode hoje aprender, segundo a matéria, com a lógica dessas antigas cidades e civilizações florestais: a produção agrária sustentável e um urbanismo de baixa densidade. Diante da urgência de se repensar a forma e a maneira com que as cidades hoje crescem e permanecem, a necessidade de se planejar cidades mais verdes para o futuro pode ser respondida por um olhar mais interessado sobre o passado.

Ruínas maias de Ek Balam, no México

Ruínas maias de Ek Balam, no México © Harry Kikstra/Getty Images

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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