Sustentabilidade

Veganismo democrático: uma filosofia de vida ética, acessível e política

Gabryella Garcia - 01/07/2021 | Atualizada em - 05/07/2021

O veganismo, muito mais do que uma simples forma de se alimentar, é uma filosofia e estilo de vida, um ato político, que busca excluir todas as formas de exploração e crueldade contra animais na alimentação, vestuário e qualquer outra área da vida. Como consequência, promove o desenvolvimento e o uso de alternativas sustentáveis que tragam benefícios para humanos, animais e para o meio ambiente. Para entender melhor essa filosofia, e até suas diferenças para o vegetarianismo, o ‘Prosa’ convidou a nutricionista ecológica Bruna de Oliveira, que é fundadora da Crioula Curadoria e os irmãos Leonardo Santos e Eduardo Santos, responsáveis pelo perfil “Vegano Periférico” para debater o tema.

Antes de se falar do veganismo propriamente dito, faz-se necessário fazer uma diferenciação entre ele e o vegetarianismo. Dentro do vegetarianismo, existe ainda o ovolactovegetariano, que é quem apesar de não consumir carne, consome leite e ovos. Há também o lacto vegetarianismo, que não consome carne e ovos, mas consome leite e também o vegetarianismo estrito, que é quando a pessoa restringe totalmente sua alimentação de produtos de origem animal, porém, não as restrições não passam da alimentação.

O vegano, por outro lado, como explica Leonardo Santos, tem um olhar anti-exploração animal mais abrangente e global. “Tudo que eu puder tirar da vida que tem exploração animal, eu farei. O veganismo transcende a alimentação e, por isso, é até um ato político. O vegano não frequenta lugares que explorem entretenimento animal, não consome produtos que são testados em animais e luta pelo fim da exploração animal. Essa exploração é tornar animais como produtos mercantilizados e achar que tem o direito de usar, explorar e aprisionar para consumir pele, corpo, pedaços. Nós nos opomos a essa exploração”.

Bruna Crioula, que além de vegana também é nutricionista, também explicou durante a prosa que o ser humano não necessariamente precisa de carne para sobreviver, e sim de diferentes nutrientes que se associam e fazem parte da composição das diferentes categorias de plantas e de alimentos de origem vegetal.

Veganismo democrático

Pratos veganos e cheios de cores podem se tornar extremamente atrativo aos olhos, além de saborosos

“Se a gente parar para pensar, quem alimenta a terra, quem alimenta esse organismo vivo que é o planeta, é o Sol, e quem faz melhor aproveitamento dessa energia são as plantas. São elas que produzem o seu próprio alimento e o alimento para outros seres. Os aminoácidos que são as partículas que formam as proteínas estão distribuídos em diferentes alimentos de origem vegetal porque são as plantas que produzem esses nutrientes. Quando pensamos na carne como alimentos deveríamos olhar para aquilo e pensar que o animal se alimentou de plantas então a base nutricional do animal pode ser a mesma dos seres humanos. Se associar diferentes leguminosas com cereais e com frutas, e se a alimentação ao longo do dia for diversa, o corpo vai fazer a gestão dos nutrientes para o processo metabólico necessário”.

A espécie humana criou uma cadeia de produção de morte, não somente no setor de alimentos, mas de todos os setores: o vestir, o comer e o morar. E o veganismo vem desse lugar do vestir, comer e morar sem criar esses laços que são degradantes do meio ambiente, da saúde humana e planetária. (Bruna Crioula)

Ativista cita ‘supremacia das raças’ e racismo para defender veganismo

Veganismo popular

Ainda durante a prosa, Leonardo explicou no Brasil, o veganismo chegou dentro de uma perspectiva de um movimento que lutava pela libertação animal, mas indo de encontro ao consumo de produtos veganos industrializados. Com um olhar estratégico, algumas pessoas viram a oportunidade de dominar o mercado vegano se associando a grandes empresas que continuam com a exploração animal, para popularizar o movimento vegano. Nesse contexto surge o veganismo popular.

“Aí entra a importância do veganismo popular, a gente precisa falar do veganismo com outro prisma, popularizando a informação e entendendo que a exploração animal está dentro de uma lógica capitalista. Para entender isso precisamos nos unir a movimentos sociais como o MST que faz a luta de campo e luta pela reforma agrária desde 1.985. A gente precisa olhar o movimento por esse prisma de não fazer parte do agronegócio, é necessário olhar para movimentos que lutam por uma reforma estrutural. O veganismo popular é algo muito complexo e bastante novo”, pontuou.

Veganismo democrático

Alimentos veganos, sobretudo vegetais e leguminosas, são extremamente acessíveis para a população periférica

Veganismo é caro e elitista?

Um dos maiores mitos sobre o veganismo, entretanto, é que seguir esse movimento é algo caro e elitista, inacessível para grande parte da população brasileira, sobretudo a periférica. Eduardo, entretanto, explicou que quando chegou ao Brasil, o veganismo veio da Inglaterra e acabou atingindo em um primeiro momento, principalmente as camadas mais privilegiadas da sociedade e os jovens universitários com certo grau de instrução.

“O debate acabou atingindo principalmente essas pessoas e as rodas de conversa aconteciam principalmente no meio acadêmico ou então entre pessoas que viajavam para o exterior. Aí começa a se criar essa cultura no Brasil, a partir dessa visão de mundo, e isso não quer dizer que o debate não é extremamente importante, mas fica restrito a essas pessoas. Você não vê na periferia ninguém falando sobre isso e a visão que temos é de que isso é coisa de rico e logo o veganismo se estrutura nesse meio, afastando a maior parte da população e usando uma linguagem que não é acessível para a maior parte da população. Isso aconteceu pelo fato de o veganismo chegar nessas pessoas primeiro, foi a forma que ele foi propagado”.

Hambúrguer de algas é alternativa vegan às carnes vegetais ultraprocessadas de laboratório

Bruna também pontuou que a comida acaba sendo, na verdade, uma construção social da sociedade em que vivemos e do ser humano e que o fato de consumir carne acaba fazendo parte da cultura alimentar de muitas pessoas. “A gente construiu um sistema em que os animais nascem para morrer e, de alguma forma, vão se tornar base alimentar para sua espécie”.

O episódio também abordou questões como a exploração animal, os abatedouros de carne, a cadeia de exploração do agronegócio, a vivência na periferia, a questão da reforma agrária, a associação da carne com fartura e ‘sustância’ na alimentação e muito mais!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão (vegano) quentinho!

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.

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