Debate

4 golpes de estado na América Latina para a história não se repetir

Redação Hypeness - 06/08/2021

O conflito aberto entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal tem colocado a pauta de uma ruptura institucional – ou melhor, golpe de estado – no cenário político brasileiro como não se via desde a época da ditadura militar.

– Militares uruguaios são punidos após crimes durante ditadura serem revelados

Entre os anos 1950 e 1970, a América Latina foi alvo de uma contínua operação dos Estados Unidos que favorecia e apoiava golpes militares ao redor do continente. Foram milhares de vítimas de rupturas institucionais que ainda deixam chagas nas muito recentes democracias latinoamericanas.

Nesse texto do Hypeness, vamos relembrar 5 golpes de estados concretizados na América Latina e suas consequências nefastas para a vida do nosso povo. A história não pode se repetir e, para isso, precisamos conhecê-la. Confira:

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1. Golpe de Estado de 1964 no Brasil

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Militares nas ruas do Rio de Janeiro, em 1964, para implantar ditadura

O período que sucedeu a morte de Getúlio Vargas, em 1955, foi sombrio. O Exército Brasileiro cogitou golpes naquele ano, cogitou impedir Juscelino de assumir o poder e em 1961, cogitou impedir João Goulart de assumir após a renúncia de Jânio Quadros.

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João Goulart havia sido eleito vice-presidente no pleito de 1960, mas, após a renúncia de Jânio, só pôde governar em 1963, depois de um plebiscito que reinstituiu o presidencialismo no Brasil. Jango era um trabalhista, conhecido por ter dobrado o salário mínimo quando foi Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. O gaúcho era visto com maus olhos pelas elites e pelos EUA, que viam na ascensão de figuras de esquerda da América Latina um perigo dentro do contexto da Guerra Fria.

Em 1964, Jango avançava para aprovar as suas chamadas reformas de base, que se tratavam de planos para instaurar a reforma agrária no Brasil e planos de bem-estar social. A elite agrária brasileira, os industriais, jornais e investidores externos financiaram um golpe para que as Forças Armadas ‘apaziguassem’ o polarizado cenário político brasileiro.

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Por 21 anos, as Forças Armadas dominaram o governo. A ditadura militar, que matou mais de 400 pessoas e torturou mais de 20 mil brasileiros, foi derrotada em 1973 durante as eleições para o Congresso Nacional, mas se alastrou no poder por mais doze anos em uma transição lenta, gradual e pouquíssimo segura, perseguindo adversários e impedindo a liberdade de manifestação no país.

Os militares foram isentados de suas mortes e torturas por conta da Lei da Anistia, que perdoava crimes da resistência contra a ditadura e dos ditadores, em um dos processos mais bizarros da história do Brasil.

2. Golpe de Estado de 1973 no Chile

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Militares forçaram Salvador Allende ao suicídio para apoiar Pinochet

Em 1970, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile. Socialista democrático, o presidente planejou reforma agrária, nacionalização de indústrias estratégicas e congelamento de preços. O governo Allende conquistou muitos de seus desejos, mas enfrentou uma grave crise econômica – com inflação anual de 381% – e sofria uma grande pressão das elites do exterior.

Durante todo o período do governo Allende, o Chile foi alvo de operações da CIA financiando terrorismo de direita – e até uma greve de caminhoneiros – com o intuito de desestabilizar o governo de Allende e fomentar a possibilidade de um golpe que voltasse o país sulamericano para um caminho benéfico aos empresários estadunidenses.

Em 11 de setembro de 1973, o militar Augusto Pinochet comandou uma operação para executar o Golpe. Ele forçou o general constitucionalista Carlos Prats a renunciar – e posteriormente mandou matá-lo. Pinochet ficaria no poder até 1990. Foram 3 mil chilenos mortos, 30 mil torturados e 80 mil presos políticos durante a ditadura pinochetista.

3. Golpe de Estado de 1954 no Paraguai

Stroessner, o pedófilo maldito que financiou o nazismo na América Latina

Em 1954, o Paraguai passava por uma grave crise política. O país ainda sofria com os efeitos da Guerra do Chaco e da Revolta Pynandy. O estado era controlado pelo partido Colorado, mas um conflito entre o presidente do Banco Central, que via que o país deveria se aliar ao peronismo argentino e constituir um governo trabalhista, e o presidente Frederico Chávez, pró-EUA, desembocou em uma crise política.

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Nesse contexto, o general Alfredo Stroessner assumiu o poder prometendo afastamento do peronismo e proximidade dos estadunidenses. Ele ficou no poder entre 1954 e 1990. Entretanto, desde então, o Partido Colorado – da qual Stroessner fazia parte – só deixou o poder em 2008, com a eleição de Fernando Lugo, derrubado em um impeachment duvidoso em 2012. Os colorados voltaram ao poder e controlam o país desde então.

A ditadura Stroessner foi a mais longeva e, provavelmente, a mais sanguinária da América Latina. Foram 150 mil presos políticos, 18 mil torturados e 3 mil mortos durante seu regime. Stroessner também é denunciado por exploração sexual de crianças indígenas e financiou o neonazismo em sua pátria.

4. Golpe de Estado de 1976 na Argentina

Junta militar argentina cometeu crimes e fomentou violência sem comparações no continente

A Argentina é um reduto de golpes militares. Somente entre 1930 e 1976, foram seis golpes de estado no território hermano. O mais grave de todos foi o último, instalado contra o peronismo nos mesmos moldes dos supracitados.

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Em 1973, Juan Domingo Perón – em uma comparação mequetrefe, o Getúlio Vargas argentino – venceu as eleições após voltar do exílio. Sua vice era sua segunda esposta, Isabelita Perón. Ela assumiu o cargo, mas a polarização política no país tornou a situação de crise grave. Em 1976, uma junta militar assume o poder e governa até 1983.

A ditadura militar argentina de 1976 liderada por Videla é considerada a mais brutal do continente por seus números. Em pouco menos de 8 anos governando, os militares argentinos mataram mais de 30 mil pessoas e cometeram diversos crimes contra a humanidade. Videla, principal nome da ditadura, foi condenado à prisão perpétua e até hoje os participantes do sanguinário regime estão atrás das grades.

Agora, lembremos a fala histórica de Ulysses Guimarães ao promulgar a Constituição de 1988, lembrando o horror dos ditadores na América Latina:

“Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.”disse doutor Ulysses. “Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério”, adicionou.

 

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Fotos: © Getty Images


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