Arte

Arte resiste, se reinventa e sobrevive na pandemia

Gabryella Garcia - 12/08/2021 | Atualizada em - 16/08/2021

A pandemia do novo coronavírus, sem dúvidas, afetou e modificou nossa forma de viver, de estar, de consumir e também de produzir. Conforme a curva de infecções e óbitos foi avançando e se espalhando pelo mundo, medidas de isolamento e quarentena mais rígidas foram sendo adotadas e o setor artístico, inegavelmente, foi um dos mais afetados. Para nos ajudar a entender de que forma a arte tem resistido na pandemia e quais foram as mudanças e adaptações, o ‘Prosa’ convidou Assucena Assucena, do grupo musical ‘As Baías’ e o ator, poeta e criador do Mutha Brasil, um museu transgênero de história e arte, Ian Lila Habib para um debate.

Grandes artistas com uma carreira já consolidada, e também o apoio de grande parte da mídia, acabaram sendo um pouco menos impactados. Falando de música, por exemplo, apesar da falta de shows, esses artistas promoveram diversas Lives para milhões de pessoas onde foi possível uma grande monetização e também se manter em evidência.

Mas, Assucena destacou que mesmo com a maleabilidade e alcance da música, muitas dificuldades foram enfrentadas. “Principalmente no início foi muito difícil. A música tem uma maleabilidade muito grande, mas não sei como foi para as outras artes. Eu que sou intérprete e tenho uma banda com uma certa consolidação no mercado, nós tivemos que nos readequar. Foi um grande prejuízo e ainda não saber nem aferir o tamanho desse prejuízo porque existe toda uma engrenagem com assessoria, bartender, taxistas, vendedores ambulantes, ou seja, existe todo um corpo de profissionais que sustenta essa rede de entretenimento e cultura”.

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Apesar da adaptabilidade da música e cinema, por exemplo, artes como teatro e performance foram umas das mais afetadas na pandemia

Há, entretanto, muitos artistas de diversas outras áreas como poesia, teatro, desenho e pinturas, por exemplo, que tiveram que se reinventar para sobreviver ao momento atual. Ian, inclusive, destacou que todas as pessoas, sem exceção, são afetadas na pandemia, porém de formas diferentes.

“A pandemia afeta todas as pessoas e o meu trabalho que é na área performativa, o teatro, não há como a gente fazer sozinho. Ele é feito coletivamente e eu acho que a maior parte dos artistas se viu em uma situação muito difícil. Eu decidi tratar de procedimentos criativos que conseguia fazer dentro de casa como a escrita, por exemplo. Também tenho praticado muito a noção de que nossos corpos, corpas e corpes são potências de criação, então quanto mais conseguimos fazer exercícios corporais para fugir da clausura, mais incentivamos o processo de criação”.

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Também sobre o atual momento que vivemos, Assucena destacou uma frase do filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin que diz que “na modernidade todo monumento de cultura advém de um monumento de barbárie”. Ela fez uma associação de que por mais que a arte possua sua beleza, ela advém da dor, do sofrimento profundo e das paranóias dos próprios artistas. “Ainda mais no Brasil que o artista tem que lidar com milhões de dificuldades para poder ser. faz parte da nossa criação essa dor e, querendo ou não, tudo é matéria prima para a arte, e se nosso tempo é de catástrofe, que isso seja matéria prima”, completou.

Formas de se reinventar

Ian destacou que todo o contexto pandêmico aumentou sua produtividade, porém ao mesmo tempo, deteriorou sua saúde mental. Ele contou que entre as formas de se reinventar e fazer a arte resistir na pandemia foi adaptar suas aulas de dança e teatro para plataformas online. “Temos que nos adaptar aos meios e entrar em um processo de multiplicar as formas em busca de uma sobrevivência”.

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Durante período de isolamento artistas tiveram que se reinventar e reconectar para auxiliar no processo criativo

O processo criativo, para a intérprete do grupo As Baías, tem que ser feito com a alternância de diferentes métodos, como praticar exercícios e também cozinhar, para se reencontrar dentro de um novo espaço e se reinventar de forma que a produtividade seja mantida.

Ela também trouxe a importância de não olhar apenas para a arte nesse contexto de pandemia, mas também para o artista. “O streaming, por exemplo, aumentou muito e as plataformas nunca ganharam tanto dinheiro. A arte tem nos salvado na pandemia, mas quem salvará o artista?”, questionou. Em seguida, destacou a facilidade de adaptação do cinema e música ao novo contexto por já estarem adequadas ao modelo atual da indústria cultural e a internet, mas que o teatro e a performance, enfrentaram muitas dificuldades.

O episódio também abordou questões como a arte como um reflexo do tempo que vivemos, uma possível retomada de eventos culturais, Lei Aldir Blanc e seus incentivos, a saúde mental dos artistas e muito mais!

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Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com BIS Xtra, que tem muito mais chocolate e traz o descontrole na dose certa, afinal, é impossível comer apenas um!

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Fotos: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.