Ciência

Bebê tubarão ‘milagroso’ nascido de tanque só de fêmeas intriga cientistas

Vitor Paiva - 31/08/2021 | Atualizada em - 02/09/2021

O nascimento de um filhote de tubarão da espécie cação-liso na região da Sardenha, na Itália, poderia passar como fato desimportante, não fosse um detalhe intrigante e extraordinário: batizada de “Ispera”, a pequena filhote nasceu em um aquário controlado e sem a presença de qualquer tubarão macho – somente habitado por fêmeas. A reprodução assexuada se deu há pouco mais de duas semanas no Aquário de Cala Gonone, em um tanque onde a mãe há mais de dez anos convive somente entre outras fêmeas, sem que a fecundação tradicional tenha sido possível sob qualquer hipótese.

Ispera, a filhote nascida na Sardenha por partogênese

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A primeira conclusão a que os cientistas chegam é que o nascimento de Ispera tenha se dado por partenogênese, tipo de reprodução na qual o óvulo se desenvolve sem ocorrência de fecundação – ao invés de combinar o óvulo com um espermatozoide, se combina com outra célula, produzida ao mesmo tempo e com DNA complementar. Apesar de raro, é um fenômeno que ocorre em cerca de 15 espécies de tubarões e arraias, e é também identificado entre abelhas e outros animais, como um último recurso pela sobrevivência de uma espécie diante da ausência de machos.

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Por se tratar de uma reprodução sem a “participação” de um espermatozoide, no caso dos tubarões os filhotes nascidos de partenogênese são sempre fêmeas, já que as mães não são capazes de transmitir um cromossomo Y. Carregando, portanto, 100% do DNA da mãe, Ispera é uma espécie de clone de sua genitora – a equipe do Aquário de Cala Gonone ainda espera o resultado das análises de DNA para confirmar tais sugestões, e enfim identificar o que houve.

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Uma vez confirmada a reprodução por partenogênese, essa não terá sido a única vez que recentemente tal tipo de reprodução foi identificada entre tubarões: há cerca de cinco anos, no Aquário Reef, na Austrália, três filhotes nasceram de uma mãe que não tinha contato com tubarões machos há mais de quatro anos. As pesquisas na época confirmaram somente a presença do gene da mãe no animal, e o mecanismo como forma da fêmea de contornar a ausência de machos para acasalar.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.