Arte

Cinema nacional: plataformas alternativas de streaming oferecem joias da filmografia brasileira

Vitor Paiva - 06/08/2021 | Atualizada em - 09/08/2021

O cinema brasileiro é um dos melhores e mais importantes do mundo, ainda que tragicamente não seja tratado com o devido valor pelas autoridades supostamente competentes: o incêndio no galpão da Cinemateca Brasileira e o descaso e abandono com que a mais importante instituição de preservação dessa história vem sendo tratada nos últimos anos não condizem com a importância da produção nacional ao longo das décadas. Nesse assombroso contexto, em que toneladas de documentos e horas e mais horas de filmes brasileiros são destruídos pelo fogo da negligência e do corte de recursos, a arte há de prevalecer – e por isso selecionamos cinco plataformas de streaming alternativas e fora das óbvias opções, que oferecem joias do cinema nacional aos assinantes.

Cena de "Limite", de Mário Peixoto

Cena de “Limite”, de Mário Peixoto

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A história do cinema brasileiro remonta ao final do século XIX – com a primeira exibição de um filme no país ocorrendo no Rio de Janeiro em 1896, com a projeção de oito filmes de um minuto para a elite carioca em uma sala no centro da cidade. Menos de um ano depois, porém, a cidade já tinha sua primeira sala de cinema fixa e o país começava a realizar suas primeiras produções nacionais – iniciando uma história que, como em um bom filme, enfrentaria muitos momentos de contrariedade e dificuldades, com raros, porém triunfantes momentos de glória – e infelizmente também momentos de profunda tragédia, como o incêndio recente, 125 anos depois do início dessa luminosa e turbulenta história.

Cena de "Eles não Usam Black Tie", de Leon Hirszman

Cena de “Eles não Usam Black Tie”, de Leon Hirszman

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Algumas plataformas selecionadas são especializadas em filmes brasileiros, outras oferecem nossas produções em meio a um vasto cardápio de obras do mundo inteiro, mas todas aqui tem em comum não só a oferta desse produto nacional, como também a preferência pela qualidade ao invés do cifrão – cada uma com sua seleção não necessariamente dos filmes mais famosos, mas sim de grandes produções: de bons filmes. Alguns grandes artistas, como Fernanda Montenegro ou Wagner Moura, transitam pelas duas categorias com naturalidade, compondo não só alguns dos melhores como também dos mais bem sucedidos filmes do Brasil – e assim acabam aparecendo em algumas das opções das plataformas.

Itau Cultural Play

Itaú Cultural Play

O jovem Glauber na capa da plataforma

Inaugurada em 19 de junho, Dia do Cinema Brasileiro, a Itaú Cultural Play é uma plataforma gratuita de streaming especializada na produção, oferecendo na sua estreia mais de 100 peças audiovisuais entre filmes, documentários, séries e programas de TV. O cadastro é gratuito, e o projeto prevê a expansão das seleções com o passar do tempo.

Mubi

Mubi

Mubi é a Netflix do cinema cult © divulgação

Mubi é provavelmente a mais famosa – e maior – plataforma alternativa de streaming, e uma das maiores reuniões virtuais de cinéfilos em toda a internet. A plataforma possui um vasto acervo de filmes nacionais – divididos em cinelists criadas pelos usuários, e também em seleções e mostras especiais, entre filmes recentes e obras do passado.

Spcine Play

Spcine Play

Essa é a única plataforma pública de streaming nacional

Única plataforma pública de streaming do Brasil, a Spcine Play reúne filmes das principais mostras e festivais de cinema de São Paulo. Os filmes comumente são disponibilizados em simultâneo ao acontecimento dos festivais, mas em diversos casos permanecem disponíveis na plataforma, que oferece diversas raridades, além de também exibir shows, espetáculos e performances da agenda cultural da cidade.

Belas Artes À La Carte

À la Carte

Trata-se da plataforma oficial da famosa sala de cinema de São Paulo

Ligado ao Cine Belas Artes, a plataforma Belas Artes À La Carte faz jus à tradição que a sala possui em São Paulo para oferecer uma seleção especialíssima e pensada com curadoria e repleto de obras icônicas. Dividida em seleções especiais, a plataforma traz mostras, cinelists temáticas, lançamentos e festivais – incluindo diversas pérolas do passado ou joias contemporâneas do cinema nacional.

Afroflix

Afrolix

Afrolix é especializada em obras realizadas por artistas negros ou negras

A Afrolix é uma plataforma de streaming colaborativa que reúne obras audiovisuais diversas e as disponibiliza gratuitamente – com um ponto, porém, essencial de diferença em tal seleção, para além da qualidade: as produções disponíveis possuem pelo menos uma pessoa negra assinando uma área técnica e/ou artística. São, portanto, séries, programas, filmes ou clipes brasileiros produzidos, escritos, dirigidos ou protagonizados por pessoas negras.

O cinema brasileiro

Apesar de nunca ter conseguido se firmar como uma indústria estruturada, produtiva e comercialmente eficaz à altura da qualidade da própria produção nacional, o cinema brasileiro produziu ao longo das décadas algumas das melhores e mais importantes obras em todos os tempos – infelizmente muitas vezes mais reconhecidos fora do Brasil. Curiosamente, um dos filmes recorrentemente reconhecido como o melhor filme brasileiro em todos os tempos é também relativamente um dos primeiros: Limite, de Mário Peixoto, foi lançado em 1930 e, mudo e experimental, ainda que não tenha alcançado especial êxito de público, desde então passou a ser visto como uma verdadeira obra-prima.

Cena de "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla

Cena de “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla

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Entre os anos 1950 e 1960, principalmente com o surgimento que ficou conhecido como Cinema Novo, uma verdadeira sucessão de grandes filmes brasileiros tomou os cinemas e os imaginários – nacionais e internacionais. São do período obras como Rio 40 Graus e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Person, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte – indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o único brasileiro vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes –, Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, e tantos mais.

Glauber Rocha

Glauber Rocha é o mais importante cineasta da história do cinema nacional

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Mais recentemente, filmes como Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas, Central do Brasil, também de Walter Salles, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, e Tropa de Elite, de José Padilha – que viria a se tornar uma das maiores bilheterias da história do cinema no Brasil – viriam a alcançar grande sucesso de crítica e também de público, representando um bom momento da indústria e da produção brasileira desde o fim dos anos 1990 até alguns anos atrás.

Othon Bastos em cena de "Deus e o Diabo", de Glauber

Othon Bastos em cena de “Deus e o Diabo”, de Glauber

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Nenhum exemplo, porém, é mais ilustrativo do que a obra do que Glauber Rocha: reconhecido internacionalmente como um dos maiores cineastas da história do cinema – e não somente do cinema nacional –, por aqui o cineasta baiano não recebe de forma alguma o reconhecimento e o cuidado devido. Filmes como Terra em Transe, Deus e o Diabo na Terra do Sol, A Idade da Terra, Di e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro estão entre os maiores e melhores do mundo – e parte do acervo e dos originais de Glauber estavam no galpão recentemente destruído no incêndio da Cinemateca.

O incêndio na Cinemateca Brasileira

Fundada em 1946, a Cinemateca Brasileira é a principal instituição responsável pela preservação de toda produção audiovisual brasileira, incluindo documentos, pôsteres e outros acervos para além dos milhares de rolos de filmes propriamente. De grandes proporções, o incêndio ocorrido em 29 de julho último em um dos depósitos onde o acervo era guardado foi o quinto ocorrido ao longo da história da instituição. Desde 2019 a Cinemateca vinha enfrentando quadro de abandono generalizado por parte do atual governo federal, responsável por sua administração, com corte de investimentos, de suporte, de equipe e mesmo de arrumação.

O galpão da Cinemateca antes do incêndio

O galpão da Cinemateca antes do incêndio © divulgação

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O fogo começou em um aparelho de ar-condicionado e, diante de centenas de milhares de documentos em papel e principalmente rolos de filmes especialmente inflamáveis, rapidamente se espalhou pelo edifício. Uma semana após a tragédia, ainda não se tem a real medida da destruição diante do acervo queimado, mas uma das filhas de Glauber já declarou à imprensa que boa parte do acervo do cineasta então guardado no local não tinha cópias, e possivelmente se perdeu para sempre.

Incêndio na Cinemateca

O incêndio aconteceu no último, dia 29 de julho © Twitter

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© fotos: reprodução/créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.